Aviso: O que se segue é uma crítica particular às interpretações gerais feitas dos escritos bíblicos pelos primeiros teólogos da igreja. Não é uma crítica à figura de Jesus Cristo. Minha opinião sobre ele (não que ela importe tanto assim) é bem favorável e está melhor exposta aqui. De todo modo, se você é um religioso cristão e não lida bem com críticas aos princípios cristãos, sugiro que nem continue a leitura.

História do Cristianismo

Tenho lido alguns livros sobre a história do Cristianismo, para ver se entendo melhor essa paixão toda que encontro em alguns conhecidos a respeito de Jesus e da Bíblia, e tudo que consegui foi ver reduzido o pouco entendimento que achava que tinha.

A história do cristianismo é basicamente a história das brigas de seus primeiros líderes tentando impor, através de concílios, suas interpretações a respeito do que os profetas bíblicos, e principalmente Jesus, realmente teriam dito, ou do que diriam a respeito das questões que não estão abordadas na Bíblia.

Parafraseando Nietzsche, é uma história humana, demasiado humana. Tudo no cristianismo é humano demais para ser levado a sério por qualquer mente um tantinho mais lúcida que simpatize um tantinho mais por coerência e lógica.

Uma filosofia ambígua

A Bíblia é um livro onde cada qual procura o que deseja e sempre encontra o que procura. Autor anônimo

Teologia da canetada

Teologia da canetada

É muito raro encontrarmos textos de caráter espiritualista que tragam uma mensagem lógica, clara e coerente. No cristianismo, não é diferente, a começar pela Bíblia. Mas mesmo em textos de caráter teológico contemporâneos, quase sempre se encontra uma sequência ilógica de achismos a respeito de alguma minúcia bíblica, com a conclusão final de que Deus sabe o que faz e não cabe a nós inquirirmos a respeito das (des)vontades dele.

Durante esta pesquisa, cuja motivação fundamental para mim é entender melhor a origem do culto ao sofrimento (o qual terá um texto específico) e da forte presença da culpa na mensagem cristã, deparei com esta frase:

Deus nos escuta quando ninguém nos responde. Está em nós quando acreditamos que estamos sozinhos. Chama-nos quando nos abandona. Santo Agostinho

Este é o pensamento autenticamente enrolador de mentalidades confusas. Utiliza de uma certa poesia e de recursos ilógicos para tentar consolar o sofredor que não está entendendo o que está acontecendo com sua vida.

Não é que eu não acredite em Deus. Só acho que ele tem mais o que fazer em vez de ficar escutando, acompanhando ou chamando 7 bilhões de serezinhos que se acham mais especiais do que verdadeiramente são.

Ora, quando ninguém nos responde, é porque ninguém ouviu. Quem sabe seja melhor repensar as perguntas.

Quando estamos sozinhos, estamos de fato, sozinhos. Melhor aprender a lidar com isso.

E quando ele nos abandona, ele quer que andemos com as próprias pernas; quer ver ATÉ ONDE, e PARA ONDE andaremos sozinhos. É até mais provável que nós mesmos estejamos nos abandonando e sendo negligentes com nós mesmos.

Um pensamento como o supracitado faz o cérebro do coitado do crente entrar num tormento sem fim.

Como assim? Ninguém me responde mas alguém invisível me escuta? Estou sozinho mas uma força invisível está comigo? Me abandonou mas está me chamando?

A imposição que a igreja exerce sobre seus fiéis a respeito de certas verdades, evasivas demais, tem um quê de perversidade moral. Porque exige confiança demais para um mundo incerto demais.

Deus sempre tem razão e você não pode questioná-lo nunca. É pecado o.O

Se tudo segue bem com você, são as bênçãos do senhor.

Se as coisas vão mal, é castigo do senhor.

“Ah, mas eu não fiz nada.” Então são as provações do senhor.

O senhor está sempre certo.

Por mais indeciso que esteja.

Evolução

Quem já estudou algo a respeito da lei da atração e do poder dos pensamentos positivos, típicos dessa onda espiritualista new age que surgiu a partir do início do século XX, vai perceber que sob esta visão, as coisas também têm sempre uma razão de ser, isto é, são sempre positivas.

Se estão boas, então estão boas ;) basta continuar mentalizando boas vibrações.

Mas se estão ruins, então também estão boas, porque são necessárias para o progresso espiritual e desenvolvimento pessoal do indivíduo.

Não há aqui uma culpa implícita pelo que deu errado, nem a ideia de provação.

Há sim o reconhecimento de que somos seres em meio a um processo de evolução e que precisamos de desafios para superarmos e crescermos.

No cristianismo não. Há sempre aquela ideia de castigo por algum pecado cometido que nem sabemos direito qual é.

Nem que seja uma provação para a nossa fé, fraca demais.

Lidar com gente que acha que tem resposta pra tudo é exaustivo.

Mesmo que seja Deus.

;)

Acredito que a grande falta na mensagem cristã, seja a do próprio Cristo, seja de seus teólogos, é alguma referência à noção bastante perceptível na vida de qualquer um, de que todos estamos em meio a uma trajetória de progresso pessoal, isto é, de evolução espiritual.

Hoje não sou o mesmo de 10 anos atrás, nem o mesmo de 10 anos à frente. Cada dificuldade superada, cada problema resolvido, cada desafio vencido – e a vida sempre nos traz muitos deles – nos coloca num degrau acima, mais fortes e melhor preparados para novos e maiores enfrentamentos.

A vida nos prepara agora pra daqui a pouco.

Pena que, aparentemente, isso não esteja na Bíblia.

Culpa

O sentimento de culpa é um recurso de forte sustentação e manutenção das religiões descendentes do judaísmo. Funciona assim: Primeiramente você afirma, para um grupo afundado na miséria e na opressão, que o ser humano e todas as suas características naturais são preponderantemente negativas, isto é, pecaminosas. Como são naturais, tem-se a maior dificuldade de evitá-las. Dessa forma, todos em maior ou menor medida, são pecadores e estão, de um jeito ou de outro, errados em suas atitudes.

Pesa contra isso o fato de que na vida é muito mais fácil as coisas darem errado conosco, do que darem certo. Então basta um tropeçãozinho e lá vai o sujeito com uma base moral fortemente judaica, perguntar-se onde foi que ele errou para ter merecido a tal desgraça. E lá estará você, o sacerdote, apontando o dedo para o infiel, bradando: PECADOR!

Depois, você se oferece como único caminho para o perdão e para o alívio desse pesado fardo de ser um esgoto existencial. Você vai lá, e perdoa o pecador, em troca de algumas moedas, algum trabalho voluntário, enfim, algum comprometimento. Então o sujeito vai pra casa livre, leve e perdoado. Mas é humano, de natureza pecaminosa; vai voltar a pecar, e a sentir-se culpado por ter pecado. Então lá vai o sujeito de volta a sua porta em busca de mais uma migalha de perdão. Assim criou-se a relação de dependência viciosa, o mercado da salvação.

A religião cristã no mais básico e em seus princípios, exauridos de Cristo, lendo o seu sermão do monte ou outras partes de sua atuação e pregação, oferece, não uma série de penitências e castigos que deveriam ser oferecidos a Deus como pagamento pelo pecado, mas a simples aceitação gratuita do perdão, exigindo que o perdoado tenha realmente se arrependido e decidido lutar para não pecar mais. Fonte (a página da fonte foi removida)

A culpa impede que nos responsabilizemos, pois dá origem a um martírio psicológico que faz com que o sujeito não se sinta capaz de reparar o mal cometido, ou, o pecado.

Mas a questão que SEMPRE me surge é: O que é pecado, o que não é?

E o que você diria da constatação provável de que, num nível básico da existência, não exista pecado?

Muito pouco do que é considerado pecado, é de fato, pecado.

MUITO PELO CONTRÁRIO!

Não existe pecado e tampouco a necessidade de castigo.

O que existem, são os nossos (muitos) erros, e a necessidade de corrigi-los.

O conceito de pecado simplesmente não combina com um Deus de inteligência infinita.

Acreditar em pecado é insultar a inteligência de Deus. É, em última instância, insultá-lo em todo o seu magnânimo amor.

(Esse hábito de definir como errado o que é natural migrou até para o sistema criminal, laico. É o caso das drogas, por exemplo. As drogas ilícitas são ilícitas porque um dia alguém concluiu que elas deveriam ser ilícitas. Mas não há nada que prove que são naturalmente ilícitas. O que ocorreu é que algumas substâncias, algumas completamente NATURAIS, foram criminalizadas.)

Teologia cristã e interpretações

Toda forma de teologia, não só a cristã, é a mais prepotente e presunçosa área de estudo humano. Através dela, homens tão passíveis de erro quanto eu ou você, se reúnem e definem, com base em discussões sobre seus pontos de vista em relação às escrituras – cuja característica marcante é a ambiguidade – quais são os aspectos e vontades de ninguém mais, ninguém menos do que… …DEUS!

Qualquer indivíduo minimamente sensato deixaria um empreendimento ambicioso assim pra lá!

Se você refletir, verá que o deus resultante dos “estudos” teológicos é um deus excessivamente humano. Ele tem as exatas medidas dos homens que o definiram. Porque não lhes ocorria a possibilidade que esse Deus pudesse ser muito mais amoroso e paternal com os homens (sua própria criação) do que eles próprios são.

A teologia cristã, especificamente, resultou numa visão demasiadamente simplista da passagem de Cristo pela terra.

Porém ela surgiu paulatinamente, ao longo dos primeiros séculos do cristianismo, definida por homens de visão limitada SIM, e destinada a um público pobre, necessitado e quase sempre analfabeto, de um tempo onde a informação era escassa e a visão científica do mundo inexistia.

Mesmo atualmente, é mais popular entre as camadas mais pobres das populações. Quando é adotada por pessoas mais instruídas, é porque ocorre uma ampla identificação entre a visão de mundo cristã e a visão de mundo particular da pessoa, a qual é fundamentada por uma necessidade imperiosa de acreditar, ou por uma sensibilidade espiritual que foi casualmente canalizada dentro de alguma igreja.

Mesmo assim, a invencionice interpretativa é tanta, tão infantil e tão desprovida de justiça e razoabilidade, que surpreende encontrar tantas mentes adultas levando-as a sério, e especulando e cogitando esta e aquela interpretação, como se o que Deus realmente quisesse dizer através das escrituras ainda não foi corretamente extraído. Se Deus nunca erra, se as escrituras são infalíveis, com certeza somos nós que estamos equivocados em nossas interpretações, por mais que elas tenham decidido o destino e mutilado a vida de milhões de pessoas ao longo dos dois últimos milênios :( E assim seguem teólogos cristãos há 2000 anos tentando encontrar cabelo em ovo.

***

Tudo começa com a ideia do pecado original, surgido com Adão e Eva. Devido ao lapso dos dois, que cederam à tentação  do fruto proibido da árvore do conhecimento, toda a humanidade caiu em desgraça, porque passou a ser gerada através de um ato altamente pecaminoso: o sexo.

Teve que vir o próprio Deus na forma humana, não por acaso nascido de uma virgem, e que supostamente nunca fez sexo durante a vida, morrer em agonia por nós na cruz, para saldar a dívida deixada pelo casalzinho do Éden.

Aqui surgem dois problemas:

Primeiro: Essa complicação que é a Santíssima Trindade. Deus é ao mesmo tempo um só, ao mesmo tempo três: Pai, Filho e Espírito Santo. Embora haja várias referências na Bíblia ao aspecto trino da divindade, não há uma referência explícita nas escrituras ao termo “santíssima trindade”. Ele foi “sacado” por Tertuliano, um dos primeiros teólogos da igreja.

Segundo: Morrer por nós na Cruz. Veja bem: Jesus passou os últimos três anos da vida dele pregando sua mensagem intensamente, e andava por todos os cantos da galileia, para fazer essa mensagem chegar ao maior número possível de pessoas. Ele veio nos dizer algo, e de fato, disse belas e profundas palavras sobre fé, esperança e amor ao próximo. O Homem passou um trabalhão danado. Mas qual foi a conclusão dos teólogos? Que ele veio morrer por nós. Que ele sofreu na cruz pela remissão dos nossos pecados.

Esta é a visão do Apóstolo Paulo, cuja visão de Cristo foi a grande vencedora entre todos os outros apóstolos. Dos 27 livros do Novo Testamento, TREZE são de Paulo, de modo que não é exagero dizer que a filosofia cristã é metade Cristã, metade Paulina.

Segundo a visão geral do Novo Testamento, todos nós nascemos do pecado e somos, durante a vida, preponderantemente pecadores. Mas então basta se arrepender em Cristo e estamos perdoados; até mesmo o pior criminoso. O amor incondicional de Cristo é lindo. Porém bastante injusto, pois vão para a mesma balança o sujeito inofensivo e o criminoso perverso.

Essa falsa noção de que todos somos naturalmente pecadores, e a ilusória garantia de que em Cristo estamos todos perdoados e salvos desses pecados, cria uma postura bastante acomodada nos fieis. No fim, ninguém precisa melhorar muito não, pois a fé e o arrependimento bastam para se salvar. Mas me parece que o empenho de Jesus em espalhar sua mensagem visava exatamente o contrário: a melhoria do caráter pessoal.

Era sobre esse desvirtuamento da mensagem de Cristo que me refiro de modo geral. Atualmente, o mais importante na mensagem cristã não é a mensagem de Cristo, e sim, seu nascimento e sua morte e ressurreição; mais importante é ter fé que Jesus é salvador e ressuscitou, do que seguir sua mensagem de crescimento pessoal. Ele veio nos dar trabalho, queria que mudássemos para melhor através da consciência e do esforço, mas o que os teólogos difundiram foi a mera salvação mediante a fé. Escolheram o caminho mais fácil.

Outro dia, comentei aqui o seguinte, em relação ao segundo plano no qual foi colocada a mensagem de Jesus:

Imagina comigo…

…um mundo onde os seguidores de Cristo comemorassem mais os EXEMPLOS de amor ao próximo de Jesus, do que sua morte ou seu nascimento.

Dentre as várias possibilidades, eu sugeriria o Dia da Multiplicação dos Pães. Todo cristão teria a obrigação de sair na rua distribuindo pães aos necessitados.

Ou o Dia da Limpeza dos Templos. Nesse dia, seria proibido mexer com dinheiro dentro das igrejas.

Ou uma data comemorativa pela transformação da água em vinho, algo como Dia da Ressaca com Cristo. Todo mundo se divertindo e bebendo vinho até cair… …dentro das igrejas.

Por que não?

E o que dizer da figura do diabo?

Enfim! Admiro enormemente o fato de o cristianismo ter chegado até onde chegou, apesar de muitas vezes por métodos bastante questionáveis. Admiro o fato de a igreja católica ter servido como assistente social quando os governos medievais, que praticamente não existiam, não enxergavam os pobres. Admiro o aspecto comunitário da igreja atualmente e o fato de, bem ou mal, conduzir moralmente uma enormidade de gente que estaria sem a menor orientação moral sem a igreja. Admiro a coragem dos mártires cristãos que deram a vida pelo que acreditavam. A igreja tem muitas virtudes sim!

Mas me recuso a me considerar fruto de um pecado. Me recuso a considerar qualquer necessidade ou atitude natural do ser humano como pecaminosa. Me recuso a acreditar em salvação, porque como filho de Deus, me recuso a crer que ele me criaria para depois me largar em perdição. Me recuso a levar a sério as comemorações cristãs que desviam o foco do mais importante: das mensagens transformadoras do homem mais fantástico que já pisou sobre esse planeta.

Conclusão

Eu não poderia finalizar esta crítica de modo tão objetivo quanto Adriel o conseguiu em seu blog O Eterno Retorno, encontrado durante pesquisas para este texto:

[…] a essência do sentimento de culpa, isto é, sua capacidade de mutilar a vida e a alegria do aqui-e-agora em detrimento de uma vida eterna, continuam vingando, fazendo vítimas e sepultando pessoas. Vemos isso com freqüência em nossa sociedade predominantemente religiosa: o desejo sexual reprimido retornando em forma de neuroses; a violência contra a mulher e as crianças; os sacrifícios de animais que lamentavelmente ainda são praticados como forma de redenção; a culpabilização do corpo e da vida material enquanto algozes da moral cristã, etc. Além da terrível e brutal esterilização de pensamentos questionadores dos dogmas, implicando em autopunições danosas ao fiel que “ousar” se perguntar quanto à veracidade de seus valores. As formas que o sacrifício e a flagelação podem assumir irão variar de acordo com os graus de fé e submissão.