Duas obras recentes – e uma descoberta casual – me chamaram a atenção para o que foram os anos 20 do século passado.

The Great Gatsby

As obras foram o filme O Grande Gatsby, com Leonardo di Caprio baseado no romance de F. Scott Fitzgerald. E também uma adaptação brasileira da obra de Choderlos de Laclos, Ligações Perigosas, realizada magistralmente pela Rede Globo, também ambientada nos anos 20.

Ligações Perigosas - Globo

Ligações Perigosas – Globo

Os Anos 20, em alguns casos referidos como Os Loucos Anos 20, foram uma década incrível para a sociedade ocidental, desde a qual ainda não se completaram 100 anos, até 31 de dezembro deste ano de 2019.

Os barulhentos anos 20 foram um período na história de mudanças sociais e políticas dramáticas. Especialmente nos EUA, pela primeira vez, mais americanos passaram a morar nas cidades do que nas fazendas do interior. A riqueza total do país mais que dobrou entre 1920 e 1929, e esse crescimento econômico levou muitos americanos a uma “sociedade de consumo” completamente nova para a época. Pessoas de costa a costa dos Estados Unidos compravam as mesmas mercadorias (graças à publicidade em todo o país e à expansão das cadeias de lojas), ouviam a mesma música, faziam as mesmas danças e até usavam a mesma gíria! Muitos ficaram desconfortáveis com essa nova “cultura de massa” urbana, às vezes atrevida; de fato, para muitas – até a maioria das pessoas nos Estados Unidos, a década de 1920 trouxe mais conflitos do que celebração. No entanto, para um pequeno punhado de jovens nas grandes cidades do país, a década de 1920 deu o que falar.

Como eu já comentei neste artigo, acredito que o período que foi dos anos 20 até o início dos anos 50 como o super auge da nossa sociedade.

Armand Vallée for La Vie Parisienne, 1920s

Uma época em que classe, beleza e bons modos ainda eram devidamente valorizados, na qual a tecnologia surgia para nos auxiliar a viver neste mundo com mais conforto, sem estarmos sufocados por ela, como atualmente.

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Decadência Urbana e Moral

Retorno ao Retrô

PostModern Jukebox

History – Roaring Twenties

Moda e Cultura

A estética dos anos 20 é muito mais parecida com a nossa, neste 90 anos passados, do que com a estética dos, então recentes, anos 1910.

Observe:

1927

Foto

Abaixo, a moda ainda dos anos 1900.

1909

Foto

Abaixo, uma linha do tempo que resume o estilo geral da moda ao longo dos anos 20.

Vestidos dos Anos 20

Vestidos dos Anos 20

 

Moda dos Anos 20 - Destaque para o Chapéu Côco - Colorizada

Moda dos Anos 20 – Destaque para o Chapéu Côco – Colorizada

Moda dos Anos 20 - Destaque para o Chapéu Côco

Moda dos Anos 20 – Destaque para o Chapéu Côco

Fonte

Veja mais

Foto com um olhar sobre o figurino francês em pleno Rio de Janeiro de 1926.

Moda dos Anos 20

Os Loucos Anos 20

A “nova mulher”

O símbolo mais familiar dos “Loucos Anos 20” é provavelmente a flapper: uma jovem de cabelos cortados e saias curtas que bebia, fumava e dizia o que poderia ser chamado de coisas “não-femininas”, além de ser mais sexualmente “livre” do que as mulheres da geração anterior. Na realidade, a maioria das jovens mulheres na década de 1920 não fez nada disso (embora muitas tenham adotado um guarda-roupas de moda), mas mesmo aquelas que não eram da moda ganharam algumas liberdades sem precedentes.

Elas puderam votar finalmente (nos Estados Unidos): a 19ª emenda à Constituição havia garantido esse direito em 1920. Milhões de mulheres trabalhavam em empregos de colarinho branco (como estenógrafos, por exemplo) e podiam se dar ao luxo de participar da florescente economia de consumo. A maior disponibilidade de dispositivos de controle de natalidade, como o diafragma, possibilitou que as mulheres tivessem menos filhos. E novas máquinas e tecnologias, como a lavadora de roupas e o aspirador de pó, eliminaram parte da labuta do trabalho doméstico.

Tecnologia

A impressão que eu tenho é que o espírito do século XX apareceu mesmo a partir de 1920; impressão que passamos a ser uma sociedade moderna de fato, super tecnológica, como somos até hoje, a partir de então.

O fato é que o mundo já vinha vivendo uma escalada ininterrupta de grande prosperidade desde meados do século XIX. Naquelas épocas ocorria o surgimento da eletricidade, das tele-comunicações, da indústria mecânica, da indústria petro-química, todos estes campos que abririam mercados incríveis que chegariam a um primeiro grande auge durante os anos 20. A década de 1920 foi então o ápice desta prosperidade, especialmente nos EUA.

1929

Até que veio a Grande Depressão econômica de 1929, em que grandes fortunas – e elas eram muitas àquela época – desapareceriam de um dia para o outro.

Arte Déco

Eu diria que a grande herança que os anos 20 nos legaram foi sua estética. Uma estética autenticamente moderna, geométrica, bastante rítmica, porém sucinta, funcional, um tanto industrial, que preservava e valorizava ainda o ornamento meramente pelo decorativo, antes da dominação do movimento modernista (cujas sementes estavam sendo lançadas justamente nessa época) com sua verdadeira criminalização da ornamentação.

Parfums Dentelles – French Advertisement – art by Tadeusz Lucjan Gronowski – c 1925

Fonte

Esta estética ganhou o nome de Art Déco, e substituiu o Art Nouveau como o principal estilo decorativo internacional após a 1ª Guerra Mundial, continuando até a 2ª Guerra Mundial. O Art Déco representava a estética da era das máquinas, substituindo os motivos florais e fluidos do art noveau por designs geométricos, simplificados, que expressavam velocidade, poder e a escalada da tecnologia moderna.

Poster – Feira Mundial de Chicago, 1933

Fonte

As influências no design foram muitas, desde os modernos movimentos de arte, como Cubismo, Futurismo e Construtivismo, até antigos elementos de design geométrico das culturas exóticas do Egito, da Assíria e da Pérsia.

Poster – Lithographic Poster by Pico, Art Deco, France, 1920

Fonte

O estilo recebeu este nome de Art Déco na Exposição de Artes Decorativas de Paris em 1925, que marcou o pleno florescimento do design Art Déco. Simplificação e abstração sempre foram suas marcas registradas, embora a elegância graciosa e o exotismo de seus primórdios tenham cedido a um estilo mais musculoso e vigoroso no final da década de 1920 e 1930.

Poster – Southern Pacific’s New Daylight, 1937

Fonte

Essa fase final é frequentemente chamada de “Estilo Cassandre”, depois que seu artista mais famoso fez um show one-man no Museu de Arte Moderna em 1936. Os designs elegantes de navios e trens em alta velocidade de Cassandre ainda são considerados imagens por excelência do estilo Art Déco.

Outros Posters da Época:

Poster Anos 20

Poster do fim dos Anos 20

 

Program Cover - Jed Harris Presents Broadway - art by E.P. Kinsella - 1926

Program Cover – Jed Harris Presents Broadway – art by E.P. Kinsella – 1926

 

ValdEs illustration for La Vie Parisienne, 1920s

ValdEs illustration for La Vie Parisienne, 1920s

Veja mais

Art Déco (inglês)

Art Déco Society of New York

Posters da época

Art Posters

Posters Atuais sobre os Anos 20

Arquitetura

A arquitetura dos arranha-céus que florescia a partir de 1920 foi o que de mais emblemático e permanente aquele período nos legou.

Edifício Chrysler – New York City – 1932

Foto

Detalhe do Edifício Chrysler – Ícone do Déco Nova Iorquino

Foto

Porta do Tribunal do Condado de Cochise – Arizona

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Entrada de Edifício em Wall Street

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Lustre da Carnegie Library – Reims, França – 1927 By Jacques Simon

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Topo do Edifício da General Electric

Foto

Bryant Park Hotel – Nova York

Foto

Edifício Chrysler e Empire State Building, NYC

Edifício Chrysler e Edifício Empire State, dois grandes ícones do déco novaiorquino.

Museu do Art Déco - Moscou

Museu do Art Déco – Moscou

Arquitetura dos Anos 20

Estilo

Art Deco Perfume Bottles 2

Art Deco Perfume Bottles

 

Art Deco Perfume Bottles 2

Art Deco Perfume Bottles

 

Relógio Art Déco

Relógio Art Déco

 

Relógio Art Déco

Relógio Art Déco – Holanda

 

Ventilador de Mesa em Bronze

Ventilador de Mesa em Bronze

O nascimento da cultura de massa: Rádio e Cinema

Durante a década de 1920, muitos americanos tinham dinheiro extra para gastar e gastaram em bens de consumo, como roupas prontas para vestir e eletrodomésticos, como geladeiras elétricas. Em particular, eles compraram rádios. A primeira estação de rádio comercial nos EUA, o KDKA de Pittsburgh, emitiu as ondas de rádio em 1920; três anos depois, havia mais de 500 estações no país. No final da década de 1920, havia rádios em mais de 12 milhões de residências. As pessoas também foram ao cinema: os historiadores estimam que, até o final das décadas, três quartos da população americana visitavam um cinema toda semana.

Indústria Mecânica

Mas o produto de consumo mais importante da década de 1920 foi o automóvel. Preços baixos (o Ford Modelo T custou apenas US $ 260 em 1924) e crédito generoso fizeram dos carros luxos mais acessíveis ao grande público no início da década; no final, eram praticamente necessidades. Em 1929, havia um carro na estrada para cada cinco americanos. Enquanto isso, nasceu uma economia de automóveis: empresas como postos de gasolina e motéis (motor-hotels, nada a ver com os motéis brasileiros) surgiram para atender às necessidades dos motoristas.

A indústria mecânica pesada também vivia um auge de modernidade, já bastante avançada com os incríveis trens que já atravessavam continentes, porém àquele momento, trazendo aqueles veículos auto-motores compactos, que hoje chamamos pejorativamente de calhambeques, mas que à época eram o ápice da tecnologia de automoção.

Ford Model T – Tecnologia de ponta… em 1920

Foto

Speed (Velocidade) – Escultura de Harriet Frishmuth – Peça decorativa de Radiador de Automóvel

 

1921 Rolls Royce Silver Ghost

O inacreditável Rolls Royce Silver Ghost de 1921

 

1925 Stutz Model 695

Stutz Model 695 de 1925

 

1930s Motor Wheel Ad, artist unknown

Anúncio da Motor Wheel, artista desconhecido – Anos 30

A Era do Jazz

Os carros também deram aos jovens a liberdade de ir aonde quisessem e fazer o que quisessem. (Alguns especialistas os chamavam de “quartos sobre rodas”.) O que muitos jovens queriam fazer era dançar.

Bandas de jazz tocavam em salões de dança como o Savoy, em Nova York, e o Aragon, em Chicago; estações de rádio e registros fonográficos (100 milhões dos quais foram vendidos apenas em 1927) transmitiram suas músicas para ouvintes em todo o país. Alguns idosos se opuseram à “vulgaridade” e “depravação” da música jazz (e aos “desastres morais” que supostamente inspiravam), mas muitos da geração mais jovem adoravam a liberdade que sentiam na pista de dança. Os romances de F. Scott Fitzgerald (1896-1940) narram muito bem a Era do Jazz.

Eu poderia trazer algumas imagens antigas, daquela que foi considerada a era do Jazz, como esta:

Gramophone - Anos 30

Gramophone – Anos 30

Mas neste caso, não é necessário.

Em 2015 descobri – não por acaso certamente – uma banda que me fez voltar a me sentir fã de grupos musicais como há muito tempo não me sentia, desde o início dos anos 2000.

Elenco Inicial do PostModern Jukebox

Esta banda é a PostModern Jukebox. É uma banda de elenco rotativo em que eles de modo geral reinterpretam músicas pop atuais sob a roupagem retrô dos anos 20, 40, 50, 60, 70 e até mesmo 80.

Esta banda foi o primeiro impulso mais forte que tive para ver as coisas antigas com outros olhos.

Cada vídeo deles, principalmente os mais antigos, é uma diversão a parte.

O vídeo acima não possui a estética dos anos 20, claro, mas passa bem o super astral positivo que esse grupo passa. Dá vontade de estar lá na festa com eles.

O video abaixo mostra melhor essa mistura de leveza, brincadeira e valorização das raízes musicais que este grupo incrível representa.

Abaixo, a diva Robyn Adele Anderson, que ajudou Scott Bradlee a fundar o grupo, e agora possui um canal seu com ótimas interpretações, e que hoje ouço até mais do que o canal do PMJ.

Robyn Adele Anderson

Eu evidentemente sei que as músicas daqueles primórdios eram bem diferentes, sobretudo mais simples, do que as de hoje, e que mesmo o PMJ apenas dá uma cara antiga, com tecnologias atuais a músicas atuais. Mas acredito que vale a citação a este grupo aqui pela capacidade que o trabalho deles tem de nos fazer pequenas viagens no tempo, a um tempo em que nossa humanidade ainda se destacava sobre a tecnologia, ao contrário de hoje, em que a tecnologia dominou nossas relações.

As imagens a seguir são uma brincadeira a respeito do fato de que agora já em 2020 os “Anos 20”, vejam só, estarão de volta.

A sugestão é que, como nas festas muito loucas dos anos 20, nós também nos vistamos com elegância, liguemos o PMJ na caixa de som e dancemos a noite toda, todas as noites.

Eu topo!

Whos ready for the Twenties again!

 

PostModern Jukebox – Twenties Again – de 2016 para 2018

Abaixo imagem parodiando a série Game of Thrones.

Gramophones – The Twentis Are Coming

E abaixo, poster da turnê da banda neste ano.

Anos 20 de novo. Agora, 2.0.

Welcome to the Twenties 2.0 Tour

Veja também

Primeiro comentário meu sobre o PostModern Jukebox

PostModern Jukebox – Facebook

Canal PostModern Jukebox no Youtube

Canal Robyn Adele no Youtube

The Great Gatsby

Abaixo segue três vídeos de diferentes produções com cenas daquele que foi para mim um dos grandes filmes sobre a época.

Coincidentemente (ou não), os três trazem músicas de Lana Del Rey, esta incrível artista que parece ter sido trazida numa máquina do tempo direto dos anos 50, cujas músicas recomendo profundamente.

Através dos vídeos é possível ter uma noção geral da estética do tempo, quando todas as tecnologias ainda eram muito primordiais e conservavam-se servis à nossa humanidade.

Você é tão Arte Deco

Tristeza de Verão

Jovem e Bela