A vida é poeira que o vento leva

A vida é poeira que o vento leva

Ao longo dos meus 40 anos de existência neste infeliz plano material, já me deparei com algumas definições da vida, e já tive a intuição de outras definições.

A vida é um sonho

Esta definição encontrei em frases de Shakespeare:

Somos feitos da mesma matéria que compõe os sonhos, e nossa breve vida está envolta em sono. William Shakespeare

A visão shakesperiana da existência certamente tem relação entre a percepção do gênio e visões contemporâneas que afirmam que o universo é um grande holograma.

O universo começa a parecer-se mais com uma grande ideia do que com uma grande máquina. David Bohm

A vida é um teatro

Esta definição ouvi na minisserie Ligações Perigosas, citando o autor Choderlos de Laclos na fala do personagem Augusto de Valmont.

A vida é um teatro, Cecília. Mas a história acontece na coxia. Pierre Choderlos De Laclos

Esta visão se fundamenta totalmente no quanto a sociedade age movida pelas aparências.

Escrevi sobre isto a fundo aqui: As pessoas querem ser enganadas

A vida é um jogo

Eu não lembro exatamente onde ouvi esta definição.

Ela destaca o aspecto mais casual dos fatos, em que muitas vezes tudo não parece mais do que obra do acaso e da vontade dos mais fortes ou espertos.

É uma visão que leva em conta o risco inerente aos nossos atos, e confere mais autonomia aos indivíduos, dando-lhes a chance de competir e tentar alcançar melhores situações.

A vida é um piscar de olhos

Esta percepção certamente já foi proferida por muitos, no entanto, foi uma intuição minha, diante da passagem do tempo, da impermanência das coisas.

A vida é um sopro

Assim como a definição anterior, esta percepção também certamente já foi dita muitas vezes, mas senti isso na pele quando vi a partida do meu pai em setembro/20, e em janeiro/21, vi a partida súbita da minha concunhada, ainda jovem com 42 anos.

Sob certas circunstâncias, a vida parece longa, mas diante de alguns fatos, nada mais parece que um breve sopro.

Você olha para a cena adiante, pisca os olhos, e ao reabri-los, o cenário já não é o mesmo.

A vida é uma viagem …no tempo

A leitura de Memórias Póstumas de Brás Cubas, do nosso gênio das letras, condensou impressões espontâneas que eu já vinha tendo. O livro relata de forma breve – e muito bem humorada – a trajetória de vida de Brás Cubas, desde a flor da infância, a família, a juventude, os amores, amigos e o fim – decadente – de tudo.

Já nos meus 40 anos, na melhor das hipóteses, a meio caminho andado desta existência, já vi e vivi muito do que o autor relatou no livro – guardadas as devidas proporções.

Olho hoje para trás, para minha infância, que foi divertida (embora não parecesse à época), para minha adolescência, que era leve (embora não parecesse), para 10 anos atrás, quando eu tinha mais sonhos e disposição (e realmente os tinha), e hoje me vejo como um viajante do tempo.

Alguém que embarcou no trem de 1980, já passou por paisagens alegres, agitadas, tensas, outros cenários melancólicos, outros desolados, e que hoje transita por um cenário de possiblidades incertas, já a meio caminho do trajeto. Trajeto que deve terminar ali por 2050 ou 2060. Ou bem antes; pois que pode ser interrompido a qualquer momento, porque todas as viagens podem ter algum percalço.

Sobretudo, o que me traz essas impressões de que a vida é uma viagem, é que os cenários muito distintos realmente vão ficando pra trás.

A grande e bela casa de madeira em que passei minha infância em Joinville, com um belo jardim a frente, amplo espaço lateral para brincar, esta casa já não existe mais, nem o terreno, que foi escavado e se tornou um terminal de transporte coletivo.

A casa em que morei na Praia Brava também não existe mais; deu lugar a um edifício de 11 andares. A própria praia brava agreste e paradisíaca dos anos 90 não existe mais, parecendo hoje uma mini-Miami, cheia de prédios, urbanizada. Eu me tornei o tiozão que dizia: “Quando eu era criança isso aqui era tudo mato.” Realmente, a Praia Brava era tudo mato, hoje é toda especulação imobiliária.

A casinha geminada em que resido há 9 anos desde que saí da Praia Brava também não é a mesma. As ruas em volta foram asfaltadas, o movimento de carros e barulho de obras não acaba nunca. Logo deveremos sair daqui, a viagem segue, outros cenários nos esperam, e este cenário logo deve se desintegrar, primeiro da minha realidade, para daqui a alguns anos, se desintegrar junto com minhas memórias, embaixo da terra ou, de forma mais sofisticada, em cinzas jogadas ao mar.