A vida é um cassino

A vida é um cassino

Se é uma coisa que esta pandemia nos mostrou é que de uma hora para outra, tudo pode acontecer.

Se já sabíamos que o inesperado era plausível no nível local e pessoal, agora temos a convicção de que o inesperado também acontece a nível global.

Por coincidência, algumas semanas antes das primeiras ideias de isolamento social, eu vinha estudando o assunto Opções do mercado financeiro.

Opções em sua função mais autêntica são formas de proteger seu capital formados por ações, uma vez que os preços desses títulos sobem e descem com grande volatilidade.

Ao tempo em que estudava este assunto complexo, cujo primeiro contato tive lá por 2009 durante minha breve e tímida incursão na bolsa de valores, fui conhecendo o incrível mundo do Risco.

Tudo começou com a leitura dos livros sobre Sorte do autor Max Gunther.

Depois com a leitura do livro Desafio aos Deuses.

E agora através do contato com um dos grandes operadores de Opções no Brasil, Luiz Fernando Roxo, o qual fala muito e de forma conceitual sobre Risco através dos conceitos do filósofo Nassim Taleb.

Mas não vou aqui entrar em detalhes filosóficos – até porque não aprofundei o assunto, ainda – a não ser destacar o resumo disso tudo, que eu falei ali na primeira frase desse texto:

De uma hora para outra, TUDO pode acontecer.

E aqui cabe aquela pergunta:

O que fazemos para nos proteger dos riscos a que estamos submetidos?

No livro Desafio aos Deuses, descobri que ainda em meados de 1700 em Londres seguradores e viajantes negociavam apólices de seguros para as arriscadas viagens marítimas da época. Daí você entende porque a Inglaterra enriqueceu tanto, não é? Além de ser o berço da Revolução Industrial, seus mercadores asseguravam que suas viagens não corressem o risco de ver tudo ser perdido mediante uma tempestade, saque ou naufrágio.

Hoje, percebo que nós brasileiros não temos essa educação financeira voltada ao gerenciamento de risco. Mal e mal temos noção disso através do seguro de carros. Até conhecemos produtos como Seguro de Vida e Seguro Residencial, e consideramos uma despesa supérflua. Su-pér-flua. Plano de Saúde, inacessível a uma maioria, é visto como um luxo. O fato é que plano de saúde, previdência social também são seguros.

Quase sempre desprezados por nós.

A respeito do assunto “renda”, fico me perguntando, quantas empresas e empresários estavam preparados para uma improvável paradeira econômica? Certamente pouquíssimos.

Lembro de um conhecido lugar-comum do mundo dos negócios e investimentos, em que se afirma que não devemos depositar todos os ovos numa mesma cesta, porque se ela cai, todos se quebram. Ou seja, que devemos ter várias fontes de renda, pois se uma falha, outras nos dão suporte para se manter.

No jargão do mundo dos riscos, isso se chama “opcionalidade”, isto é, termos opções a recorrer no caso das coisas darem errado. Colocar os ovos em cestas diferentes significa que se uma quebra, teremos outras cestas com ovos; significa que se um investimento falhar, teremos outras fontes de renda.

Outro conceito que se relaciona e ajuda a promover a segurança de operações complexas é o conceito de redundância. Exemplo: Impressoras são aparelhos que dão muito problema, estragam facilmente. Mas há operações industriais ou comerciais tipo linha de montagem que utilizam impressoras para impressão de rótulos, etiquetas etc que estão bem no meio da linha de operações. E se ela estraga? Para tudo! Mas se em vez de uma, tivermos duas impressoras lado a lado? Se uma estraga, a outra segue o trabalho enquanto a primeira é consertada. Parece-me que em aviação esse conceito de redundância muito utilizado, por questões óbvias, num vôo as coisas não podem dar errado. Simplesmente, não podem.

Até mesmo a boa e velha poupança, apesar de estar sendo pessimamente corrigida atualmente, é um tipo de Opção, ou de Redundância. Se você perde o emprego ou se sua fonte de renda falha, e tem uma boa poupança guardada, não entrará em desespero.

Dizem que não devemos guardar dinheiro para os dias difíceis, porque assim um dia eles chegam.

O fato é que, independente da motivação da nossa poupança, os dias difíceis sempre chegam.

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“Há várias formas de encarar o mundo. Algumas mais platônicas, em que achamos que a ciência pode modelar o mundo, os algoritmos do big data e os sensores da internet das coisas vão nos dar informações melhores do que qualquer outro ser humano, uma crença em alguma instituição, como o estado ou os economistas, ou no comunismo, vão nos dar todas as respostas que precisamos.
Outra forma de ver o mundo é assumir que não há como sabermos de tudo. Sempre haverá mais no céu e na terra do que sonha a nossa vã filosofia. Há “desconhecidos desconhecidos” que fogem ao nosso controle (sic). É sábio nos precaver de imprevistos, através de seguros, opções e redundâncias. Ser cético para com a ciência, duvidar das certezas e abraçar a aleatoriedade.”
Arnaldo Gunzi – Resumo da Teoria dos Cisnes Negros, de Nassim Taleb (2017)