Analisando umas fotos da arquitetura típica dos grandes centros da América Latina do início do século 20, em especial a (in)volução da avenida Rio Branco do Rio de Janeiro, me ocorreu que o primeiro grande fator de desordem urbana foi o surgimento do automóvel, o segundo, a publicidade. O terceiro, a fúria do movimento modernista contra a tradição arquitetônica ocidental, que destruiu tudo que pôde.

Antes do automóvel, uma avenida como a Rio Branco transmitia uma serenidade incomum. Prédios de arquitetura esmerada, exaustivamente pensada, não muito altos, a maioria chegando a resultados estéticos imponentes. O espaço das ruas servia aos únicos veículos da época, as carroças, mas era usado e pensado especialmente para os cidadãos.

Sem automóveis

Av. Rio Branco – Rio de Janeiro – Cerca de 1906

Um inacreditável Rio de Janeiro – Av. Rio Branco esquina com atual Av. Nilo Peçanha – 1906.

Com Automóveis

A partir de 1920, o caos começa a se instalar.

O caos começa a se instalar

Av. Rio Branco – Rio de Janeiro – Cerca de 1920

Av. Rio Branco – Rio de Janeiro – 1930

Av. Rio Branco - Rio de Janeiro - 1930

Av. Rio Branco – Rio de Janeiro – 1930

Publicidade

Há um prédio em estilo enxaimel, na cidade de Joinville, de onde sou nativo, que exemplifica bem o modo como a arquitetura dos prédios antigos foi comprometida não só pela publicidade contemporânea, como pelo ritmo desenfreado de consumismo e utilitarismo sob o qual vivemos atualmente.

Trata-se do antigo prédio das Casas Pernambucanas.

Casas Pernambucanas – Joinville – Década de 80

O prédio das Casas Pernambucanas Atualmente

Lembro que o esmerado trabalho com metais nos arcos das entradas, como se vê vagamente na imagem mais acima, me chamava muita atenção pela beleza, quando passava por este prédio com minha mãe, ainda enquanto criança, em fins dos anos 80.

Hoje, esta marquise artificial acinzentada oculta aquele belo trabalho com metais, e placas, letreiros, toldos e até mesmo ar-condicionados enfeiam um dos prédios mais característicos da cultura que formou Joinville.

Frisa-se ainda o desleixo dos proprietários, que até hoje não foram capazes de rebocar e pintar aquela parte de tijolos aparentes nas laterais da janela mais alta em primeiro plano. Falta de dinheiro certamente que não é.

Nada mais a fazer a não ser lamentar.

Beleza

Em qualquer tempo, entre 1750 e 1930, se pedisse a qualquer pessoa educada para descrever o objetivo da poesia, da arte e da música, eles teriam respondido: a beleza. E se você perguntasse o motivo disto, aprenderia que a beleza é um valor tão importante quanto a verdade e a bondade.

Então, no século XX, a beleza deixou de ser importante. A arte, gradativamente, se focou em perturbar e quebrar tabus morais. Não era beleza, mas originalidade, atingida por quaisquer meios e a qualquer custo moral, que ganhava os prêmios.

Não somente a arte fez um culto à feiura, como a arquitetura se tornou desalmada e estéril. E não foi somente o nosso entorno físico que se tornou feio: nossa linguagem, música e maneiras, estão ficando cada vez mais rudes, auto centradas e ofensivas, como se a beleza e o bom gosto não tivessem lugar em nossas vidas.

Roger Scruton em “Por que a Beleza Importa?” (2009) – Fonte

Século XX e a “estética” modernista

De um ponto de vista não necessariamente tecnológico, mas da organização social e urbana, e da apreciação de certos valores imateriais hoje desprezados, como a beleza, classe e urbanidade, não tenho mais nenhuma dúvida que nossa sociedade ocidental atingiu seu auge entre as décadas de 1880 e 1950, mais especificamente entre os anos 20 aos 40.

Sem querer incorrer no erro de acreditar que no passado tudo era melhor, porque de fato não era, o que parece comprovar esta minha impressão do parágrafo anterior, é que nas fotos desse período de todas as grandes capitais do ocidente, você encontra uma sociedade já bastante urbana; razoavelmente alfabetizada (jornais já faziam parte do dia a dia das pessoas); com uma tecnologia desenvolvida a tal ponto de propagar rapidamente, mundo afora, itens como automóveis, aviões, rádios e telefones; com um cenário artístico-musical em efervescente surgimento, o que viria a caracterizar culturalmente muitas dessas capitais, como o jazz em Nova York, o Samba no Rio e o Tango em Buenos Aires e Montevideo; e finalmente, com uma arquitetura que contribuía para gerar no entorno alguma sensação de ordem e distinção, valorizando aquilo que o ser humano estava se tornando, como indivíduo e como sociedade, além de pessoas todas trajadas de modo formal e respeitoso, mesmo as mais pobres, com uma valorização aparente das maneiras e formalidades.

O “velho” bonito, e o “novo” feio

Foto

E coloco esta data de 1950 como o fim daquele período, especialmente porque a década seguinte, os anos 60, foi a época da revolução (?) cultural, culminando em si todo o despojamento proposto pelo movimento modernista que já se tracejava desde os idos de 1900. Aqui neste texto comento um dos muitos (des)feitos deste movimento, ocorrido no segmento arquitetônico, em relação à demolição do majestoso Palácio Monroe, promovida especialmente pelos arquitetos modernistas brasileiros.

Por fim, um antes e depois daquela que foi indiscutivelmente a avenida mais charmosa do Brasil, agora repleta de caixotes de concreto, monótonos, sem o menor atrativo.

Comparativo Av. Rio Branco – Rio de Janeiro – 1910 – 2016

Confira aqui o último remanescente dos edifícios da primeira foto da imagem acima.

E na Europa?

Na Europa, como se vê, a situação é a mesma. Com a diferença de que por lá os caixotes são de vidro.