Quando Carlos Guinle morreu, em 1969, Nelson Rodrigues disse:

Está morrendo o nosso passado e, repito, um dia, acordaremos sem passado.

Se você nunca soube quem eram os Guinle, como imagino que não saiba, prova que Nelson estava – como sempre – certo.

O brasileiro carece de um profundo senso de história. Nós, basicamente, não conhecemos nossa história.

Eu só fiquei sabendo da existência da família Guinle, durante esta pesquisa que fiz sobre a antiga Avenida Central, do Rio de Janeiro, a qual foi motivada pela minha descoberta do – também ignorado por mim (ah que novidade) – Palácio Monroe.

Palácio das Laranjeiras

Durante minha viagem ao passado pelas fotos da antiga Avenida Central do Rio, me deparava eventualmente com o nome Guinle. Os Guinle isso, os Guinle aquilo. Até que encontrei um trecho do livro de Clóvis Bulcão sobre a história da tal família de magnatas que impulsionou – só agora fiquei sabendo – não somente a bela arquitetura no Rio antigo, como também vários outros segmentos da vida nacional.

Sede do Fluminense

Realmente aprecio biografias de gente bem sucedida. E durante a leitura do livro Os Guinle, verdadeiramente me encantei com a história da família.

Tudo começou com Jean Arnauld Guinle, que emigrou da Europa para Montevideo por volta de 1840. De lá seguiu para Porto Alegre com Josephine Désirée Bernardine, onde nasceu Eduardo Palassin Guinle, o qual, por sua vez, tornou-se um magnata no Rio de Janeiro, após conseguir a concessão para a construção e administração do Porto de Santos, com seu sócio Cândido Gafreé.

Hotel Palace – 1910

Eduardo Palassin Guinle e seus filhos contribuíram de forma decisiva para o progresso e promoção do Rio de Janeiro como uma cidade integrada ao século XX. Arquitetura, futebol, turfe, automobilismo, aviação, artes, música, turismo, comércio, infra-estrutura e outras áreas foram amplamente estimuladas pelos recursos inesgotáveis da família.

Mas… e quem se importa?

A relação da Família Guinle com o Brasil

O autor do livro que ora comento, fechou seu texto com maestria, sob os seguintes parágrafos:

Na história recente do país algumas poucas famílias enriqueceram de forma tão espetacular quanto os Guinle. […] Mas nenhuma dessas famílias influenciou tanto a formação da identidade brasileira e muito menos ergueu em torno do seu nome uma aura tão forte de sofisticação.

Teatro Phoenix – Ficava aos fundos do Hotel Palace

Como nenhum outro clã, os Guinle, desde o fim do século XIX souberam se mostrar como grupo capitalista moderno. Assim, quando Getúlio chegou ao poder, em 1930, e quis dar ao Brasil uma dimensão mais urbana e cosmopolita, afastando as velhas elites produtoras de café, ninguém conseguiu desempenhar tão bem esse papel como eles, passando a imagem de responsável pelo engrandecimento do novo país que surgia. Na segunda metade do século seguinte, no entanto, os Guinle se tornaram tão arcaicos quanto as elites agrárias que outrora ajudaram a tirar de cena.

Sede da Guinle e Cia

Em sua fase de ouro, cravaram marcos arquitetônicos como o Park Hotel em Nova Friburgo, a Granja Comary, em Teresópolis, e o Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, entre outros exemplos. Em termos musicais, promoveram Pixinguinha, Villa-Lobos e a Orquestra Sinfônica Brasileira. Nos esportes, transformaram o futebol em paixão nacional e despertaram o gosto do brasileiro pelo automobilismo. Doaram um riquíssimo patrimônio aos museus de todo o Brasil. Portanto, apesar de tudo, os ecos do passado ainda conferem prestígio ao sobrenome Guinle.

Sede das Docas de Santos

Em fins do século XX, quando não havia mais nada para ser doado, a família deu uma última demonstração de generosidade. Como o bairro do Botafogo fora tomado por um surto imobiliário que botou abaixo centenas de casas, deixando as crianças das redondezas sem espaço para brincar, Celina Guinle abriu para elas os jardins de sua magnífica residência, na rua São Clemente (primeira foto deste post).

O genial Nelson Rodrigues, em “À Sombra das Chuteiras Imortais”, foi definitivo: “[…] o dinheiro não explica a grande e obsessiva presença dos Guinle na vida brasileira. O que realmente fascinava era uma certa atmosfera, ou, sei lá, um certo comportamento social e humano, a soma de certos valores espirituais“.

Clóvis Bulcão

Sobre o livro, especificamente, considero e cito os seguintes pontos:

Achei que, como uma biografia de uma família – e não de uma única pessoa – ele poderia trazer muito mais informações, passagens, detalhes e fotos sobre os Guinle e seus legados, os quais tenho certeza que ficaram de fora pelo risco de tornar o livro entendiante, embora eu tenha certeza também de que quem realmente se interessa pelo assunto, não se entediaria facilmente com ele, porque as trajetórias de cada um dos Guinle, com suas vitórias e fracassos, é bastante interessante.

Portanto, esta será uma leitura bastante aprazível caso você se interesse pelo tema. Aqui neste link, você poderá curtir um pouco mais da atmosfera carioca contemporânea aos Guinle, e depois, poderá aprofundar sua curiosidade sobre aquele período ímpar da história brasileira aprofundando-se em pesquisas na internet.

Senti falta, especialmente, de fotos dos magníficos prédios que os Guinle construíram, uma vez que é o que de mais sólido se pode deixar para a posteridade, e foi o tema de meu interesse particular que levou-me a “descobri-los”. Por isso também aproveitei esta resenha para trazer aos interessados algumas fotos das magnificas obras arquitetônicas que tornaram o Rio de Janeiro menos colonial e selvagem e mais civilizado, ao menos na época em que estiveram de pé.

Vale a pena

Com todo os respeito aos seus descendentes, é perceptível que a parte mais desinteressante do livro é justamente a que trata do herdeiro playboy, Jorginho Guinle, neto de Eduardo Palassin. Gastou toda a fortuna que tinha por direito centrando seus “feitos” em si mesmo, através de festas, drogas e mulheres, nada realizando de efetivamente altruísta e útil à sociedade da qual fazia parte e que permitiu os lucros vultuosos que seus ancestrais obtiveram. Certamente devia ser uma figura bastante carismática, mas… seus ancestrais, por mais que tivessem, evidentemente, sempre atrás do lucro como capitalistas que eram, ao menos retornavam parte desses lucros para a sociedade, através de realizações cujos efeitos transcendiam seus retornos.

Algo que sempre me chamou a atenção, e que este livro reforçou, é o descaso que nós temos pela história dos nossos próprios ancestrais e por nossa história, como nação. Casos de herdeiros que não tinham competência, ou disposição, ou preparo para manter os bens herdados e que são obrigados a se desfazer deles de qualquer jeito são comuns, e é sempre triste. Um certo ditado já observou, ao mesmo tempo em que prevê: O avô adquire, o pai mantém, o neto se desfaz.

É natural, mas é triste.

Por fim, conhecer a biografia de pessoas mais antigas, que já faleceram, sempre traz um certo sentimento de pesar. Conhecer a história de outras pessoas, seja real ou ficcional, nos leva a nos colocarmos no lugar delas. E ver que, ao final de tudo – de seus êxitos, dramas e fracassos – todas elas já morreram, coloca também a nós sob uma perspectiva de que nossa finitude ronda por aí, sempre a espreita. Uma hora elas nos encontra.

E será o fim… apesar de todos os nossos fracassos, dramas e, principalmente, apesar de todos os nossos êxitos.

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Comentário do próprio autor

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Imagens: 123 – As imagens 4, 5, 6 e 7 estão disponíveis amplamente replicadas no Google Imagens.