Há alguns meses atrás, durante uma palestra sobre o método pedagógico Waldorf, um dos espectadores da palestra comentou que trabalhava há décadas no segmento da Educação e, no entanto, até ali, nunca ouvira falar daquele método pedagógico, o qual completará 100 anos de existência em 2019.

Há algum tempo, morria num trágico acidente o cantor Cristiano Araújo. Era um cantor sertanejo, carismático, com umas músicas bastante melódicas, e muito conhecido no meio musical sertanejo, e atraía aos seus shows milhares e milhares de pessoas, tendo alcançado, em sua curta carreira, alguns milhões de fãs por todo o Brasil. Eu era um ouvinte costumeiro de suas canções. Porém, quando ele morreu, muita gente se perguntava: “Quem é Cristiano Araújo”. Saiu até em artigo de jornal como o cantor desconhecido que tinha milhões de fãs.

Como pode?

Nós vivemos num planeta que é considerado pequeno sob proporções astronômicas, porém gigante sob as proporções humanas. Viajei de carro entre Itapema e Buenos Aires na Argentina e posso afirmar, esse mundo é GRANDE. É terra que não acaba mais…

Neste mundo, há 7 bilhões de pessoas, chegando em 8 bilhões logo logo… É absurdamente MUITA gente. Mesmo assim, numa cidade média de 200 mil habitantes, nós dificilmente conheceremos 10 mil deles durante uma vida. Estou chutando este número, como um exercício imaginativo. Entre 10 mil pessoas surgem e acontecem coisas que até Deus desconhece… o que diremos do que surge e acontece em meio a 7 bilhões de pessoas?

Quantos métodos pedagógicos existem por aí que nem ouviremos falar? Quantos artistas incríveis já são conhecidos por segmentos inteiros da população, cujo nome não chegará aos nossos ouvidos?

7 bilhões de ilhas

Na sociedade humana existe de tudo. Mas ela é muito fragmentada, a informação nem sempre chega a todos.

Antigamente, conhecíamos o mundo através dos livros e da imprensa e seus respectivos veículos. No início, jornais impressos, revistas, depois rádio, televisão aberta e a cabo, depois portais de internet, blogs… agora, facebook, whatsapp. Há menos de uma década, se algum assunto era abordado em algum veículo de imprensa, passava a existir para nós. Assuntos não abordados pela mídia, não faziam parte do nosso cotidiano.

Assuntos importantes, porém desconhecidos ou neglicenciados pela imprensa eram consideradas denúncias. Denúncias graves de qualquer tipo chocavam as pessoas (e ainda chocam). Como podia tal fato estar acontecendo? Como é que não sabíamos? Na verdade, o fato existia há tempos, porém somente naquele momento passou ao conhecimento do povo. E tem coisas, você sabe, que é melhor nem saber que existe mesmo.

O que passava no Jornal Nacional era o que o Brasil tinha como existente. Revistas televisivas como o Fantástico ou até mesmo canais pagos nos traziam diariamente uma infinidade de curiosidades sobre o mundo. E sempre tinha (ou tem) novidade. E nosso conhecimento do mundo se reduzia àquilo, mas também se expandia com aquelas abordagens.

Hoje, nem todos tem acesso a esses canais, nem todos tem tempo para assisti-los. E as pessoas veem televisão, e assistem a tele-jornais, e leem jornais, cada vez menos. Antes a informação chegava a todos porque os meios de informação eram poucos, centralizados e monopolizados, com o envio em massa (broadcast) de informações para todo um território nacional.

Nossas maiores fontes de informação hoje são hubs digitais como Facebook, Youtube ou Whatsapp, o que aumentou demais a segmentação, uma vez que só costumamos seguir nesses canais os assuntos que nos interessam. É o que chamam de bolha digital.

Hoje, há memes que surgem e somem na internet e nem ficamos sabendo. Há candidatos políticos desconhecidos por nós que em 2 anos de campanha chegam a presidência. A fluidez da informação de forma orgânica via whatsapp, youtube e facebook corre à parte de nós, que focamos demais nossos interesses em… ora veja, somente no que nos interessa.

A bolha digital conforta, mas também aliena.

Esta é a realidade informacional que vivemos atualmente. Uma rede informacional digitalizada, cada vez mais abrangente e, ao mesmo tempo, cada vez mais personalizada e, portanto, fragmentada. E nesta sociedade vibrante em que vivemos, surgirão mais e mais fatos e fenômenos interessantes, e saberemos cada vez menos sobre eles, ou quem sabe, somente 100 anos depois deles surgirem.