Nunca gostei muito do Bolsonaro. Esse jeito intempestivo dele me deixa nervoso só de ouvi-lo falar. As frases tenebrosas que ele já proferiu me causam vergonha alheia. Eu entendo perfeitamente os amigos que sentem horror à figura dele.

Meu voto foi o voto anti-PT, anti tudo aquilo que a este partido foi atribuído, quer você “acredite” ou não.

Entretanto, um candidato que vence uma eleição com uma folga consideravelmente larga, quase 11 milhões de votos, tendo contra si TODO aquilo que se convencionou chamar de “establishment“, esse deep state político, onde uma horda de pessoas se sustenta em cargos supérfluos às custas do dinheiro do povo; tendo contra si a quase totalidade da classe jornalística, e parte influente das classes artísticas e acadêmicas, usando para isso um valor de financiamento ínfimo se comparado aos concorrentes, usando apenas recursos de redes sociais, desprezando inclusive aparições na toda poderosa rede Globo; enfim. É candidato bem mais que vencedor.

O povo, povão, essa massa de pessoas que a democracia visa defender, não deu a mínima para o conselho de intelectuais, jornalistas e artistas. E eu achei isso maravilhoso, porque eu tenho uma questão séria com autoridades intelectuais que pensam saber melhor que o próprio cidadão o que é melhor pra ele.

Se há uma eleição cujo resultado tem que ser respeitado, foi esta.

O Brasil está dividido?

Há uma divisão de fato, mas acredito que ela é menor do que parece.

A divisão oficial e geral é de 55% a 44%.

Mas cabe aqui algumas ponderações:

– Os estados do Centro-Sul, que elegeram Bolsonaro, se somadas as porcentagens dele em relação ao oponente, ficam em torno de 70%. Do Nordeste pra baixo, a cada 10 eleitores, 7 elegeram Bolsonaro.

– O povo do Nordeste não deve ser condenado por escolherem Haddad. Há lá toda uma realidade difícil. Mesmo com 13 anos de PT, o Nordeste continua ainda com 44% de sua população na linha da pobreza. Lá o clima não ajuda a agricultura, não há empresas o suficiente para atender a demanda de emprego, não há dinheiro o suficiente girando para que a economia local se sustente, enfim, é terra fértil para o populismo.

O Nordeste precisa ser resgatado.

– Dos 44% que votaram no Haddad, assim grosseiramente os divido nas seguintes classes:

– Metade desses 44% são militantes atuantes de esquerda: Intelectuais, parte da classe artística e a totalidade da classe jornalistica.

A outra metade fica dividida entre pessoas alienadas da política, que mal acompanham e mal entendem os processos político-econômicos que o país vem passando, e que por ouvirem umas falas tenebrosas do Bolsonaro logo optaram pelo Haddad, por exclusão e outro grupo de pessoas gays, negros e pobres que caíram no discurso histérico e terrorista da Esquerda e preferiram Haddad apesar de toda a catástrofe que o PT deixou nesse país.

A vida segue

Para metade desses 44% a vida segue e tudo deve continuar como sempre foi.

Para a outra metade, a militante, realmente há uma divisão, mas aqui já entram aspectos psicológicos que às vezes acho até patológicos, que fazem essa gente viver num eterno faz-de-conta, faz essa gente entender a democracia infantilmente como uma luta do bem contra o mal; grupo este que a partir de hoje virá a ser a minoria barulhenta que ocupará o noticiário pelos próximos quatro anos.