Eu tenho plena convicção da existência de algo a mais, de caráter espiritual, em relação à dimensão física na qual vivemos.

A existência humana e universal são complexas demais, e por isso mesmo, é um ato de coragem afirmar categoricamente que somente existe o que pode ser detectável por nossos sentidos ou nossos instrumentos tecnológicos. Mesmo as coisas invisíveis porém detectáveis tem algo de mágico, como o som, o ar e o magnetismo.

O que se dirá do que é indetectável, como a força da vida, dos pensamentos abstratos e dos milagres dos quais estamos sempre ouvindo falar ou, eventualmente, vivenciamos?

Mas mesmo acreditando profundamente que existem dimensões inexoráveis da existência, sempre que me deparo com algum espiritualista se atrevendo a explicar como é ou como não é o lado de lá, e pior ainda, quando esse espiritualista começa a dizer que para acessar essas dimensões você tem que fazer isso ou aquilo, um alerta bem amarelo de desconfiança começa a piscar em volta da minha cabeça.

O fato de cada religião ou segmento espiritualista ter uma interpretação própria do mundo espiritual confirma: Muitas pessoas têm experiências marcantes envolvendo algum tipo de experimentação nessas dimensões insondáveis da existência, o que valida as experiências por si mesmas, mas como essas interpretações do que se viveu são muito diferentes entre si, mostra que ninguém é capaz de passar aos outros, com precisão, a natureza do que vivenciou.

Por isso, sempre desconfio de gente que tenta demonstrar saber demais sobre essas dimensões espirituais cujo acesso é na verdade bastante limitado e impreciso. Quanto mais autoridade a pessoa se auto-atribui, e quanto mais solene for o tom com que tenta passar suas visões sobre como é o “mundo espiritual”, mais desconfio.

Acredito mesmo que algumas pessoas possuem o dom da canalização de manifestações de entidades espirituais. E mesmo assim, nem nessas entidades eu acredito, porque se observarmos com certa frieza, o que falam nada mais são que palavras bonitas que dizem muito pouco de relevante a não ser obviedades e platitudes.

Por isso, ao longo do tempo venho colecionando algumas pontuações sobre incoerências entre o que espiritualistas propagam e o que seria de se esperar que propagassem (essas pontuações serão atualizadas e melhoradas ao longo das próximas semanas):

Sri Prem Ronaud vai contar tudo

Espiritualista de Esquerda

Na política, normalmente os esquerdistas simpatizam com o Materialismo filosófico e histórico, e, portanto, tendem a ser totalmente céticos e ateus. E, dedutivamente, dentro desta visão de mundo, passam a acreditar que os mais fortes devem ajudar os mais fracos; e que os mais fracos são vítimas da crueldade do mundo, ou dos mais fortes.

Para os materialistas filosóficos, todas as circunstâncias humanas são fruto do acaso.

Normalmente os intelectuais são os mais céticos porque têm pouca sensibilidade espiritual. E por outro lado, para complicar, as pessoas mais sensíveis às dimensões espirituais são as menos propensas ao raciocínio lógico, e acabam acreditando em qualquer coisa que lhes encante.

O espiritualista consciente sabe que o universo e Deus não tem pena de ninguém, porque sabem que o gênero humano só vai pra frente quando tem um leão correndo atrás dele, ou, dito de outro modo, possuímos uma tendência a só evoluirmos mediante dificuldades. Entre aprender por amor ou pela dor, a ampla maioria de nós acaba seguindo pela dor.

O espiritualista realmente sábio SABE que não existem vítimas.

Trate as pessoas como merecem, e ninguém escapa ao chicote. William Shakespeare

Espiritualistas optando por políticas de Esquerda, isto é, que vitimizam a população, são um contra-senso, porque se o que a vida quer das pessoas é evolução, não vai ser com afagos (assistencialismos) que essa evolução vai ocorrer.

Procure saber mais da relação entre Francisco Xavier e seu mentor Emmanuel, e você vai entender o que eu quero dizer.

CLARO que não estou dizendo que todo espiritualista tem que ser de direita, e sim, que é esperado de todo espiritualista uma visão mais holística da existência humana, mais profunda e por isso mesmo, mais ponderada, a qual coloca o ser humano num lugar mais justo dentro da escala universal, com suas muitas particularidades viciosas, e também virtuosas, e não como centro do universo ou como responsável por extinguir todas as injustiças do mundo. Primeiramente, porque não fomos nós que criamos o mundo desse jeito, e segundo, porque nosso poder de ação é bem limitado.

Mais amor, por favor

Estes espiritualistas New Age pregam o amor como fonte para todo o progresso espiritual.

Na visão deles a situação ideal seria aquele cenário paradisíaco dos testemunhas de Jeová, seres humanos, zebras e leões convivendo pacificamente num belo jardim.

Eles realmente acreditam que bandidos e pessoas rudes vão entender os atos amorosos que recebem e vão se convencer só por isso que estão errados. Para eles quem age assim é um trouxa a ser lesado.

É preciso ter em conta que parte da raça humana não entende a linguagem do amor. O bandido carece de concepções morais e empáticas em relação ao outro, e somente medidas rígidas são capazes de fazê-los tomar consciência.

Quem usa a linguagem da violência para atuar no mundo, só entende a linguagem da contenção física e do cerceamento de sua liberdade para ser barrado.

Se nem sempre Deus tem piedade da humanidade, porque nós devemos ter?

Rejeição aos valores ocidentais

Nem sei o que dizer quando vejo esses muitos espiritualistas de youtube, que vivem criticando o ego, o egoísmo, o capitalismo, mas não rejeitam um bom dinheirinho entrando em suas contas.

Às vezes, durante meus estudos, me deparo com alguns tipos de terapia interessante. Tempos atrás, encontrei uma terapeuta aparentemente muito competente, inteligente e que mescla abordagens complementares para seus clientes.

Eu realmente entendo que a competência dela tem um valor alto. Ela está cobrando atualmente 800 reais por uma abordagem terapêutica.

Eu realmente entendo que ela merece essa quantia por ajudar os outros, mas dada a realidade brasileira, e a profunda necessidade que nós temos de resolver nossos problemas emocionais, sou levado a concluir:

Se eu tivesse 800 reais, assim, disponível, eu não estaria precisando de terapia.

Enfim, terapia só para ricos meio que foge da proposta humanista da maioria dessas terapias.

Né?

Espiritualidade de turbante

Boa parte dos espiritualistas tem uma fixação por conhecimentos orientais, sejam indianos, tibetanos ou japoneses.

De fato eles têm muito a nos ensinar. Eu sempre fui fã e tenho minha visão espiritualista muitíssimo moldada pela filosofia da Seicho-no-ie. Mas eu nunca gostei de chegar em seus ambientes e ter que me portar como um japonês, mãozinhas juntas para cumprimentar os outros, e aquelas palavras do Shinsokan original e tal. Eu sou chato, eu sei :$

O mundo ocidental têm a disposição correntes espirituais magníficas que são prontamente rejeitadas. Judaísmo, Cabala, Cristianismo, Espiritismo, Xamanismo, Runas, Tarot.

A Bíblia é um livro magnífico em termos de verdades espirituais. Sempre senti uma grande identificação com a visão cristã de muitos aspectos espirituais, tanto é que os textos deste site estão repletos de citações bíblicas.

Porém o cristianismo é rejeitado por boa parte dos espiritualistas, porque se apegam a alguns erros que cristãos cometeram no passado, e que certas denominações cristãs atuais seguem cometendo. E passam a ouvir uns gurus orientais, ou ocidentais com ginga oriental – osho, prem baba, monja cohen etc porque na cabeça deles, essas pessoas são detentoras de uma sabedoria oculta que somente a introspecção e horas de meditação dessas pessoas foi capaz de lhes conferir.

Santo de casa não faz milagre, não é? Mas não é por culpa do Santo, é por culpa da casa.

A culpa

A culpa é filha desobediente de uma regra muito exigente e mal amada.

A espiritualidade prega genericamente que devemos nos desprender do ego e seus desejos. Espiritualistas vivem às voltas cheios de regras e manias sobre alimentação, purificação espiritual e desprendimentos de certos hábitos “mundanos”. Daí surge a questão:

Se não se pode viver o que se deseja, então para quê viver?

Viver um eterno não-viver do que se almeja é mesmo evolução?

Será mesmo que Deus nos colocou aqui, diante de bebidas, cigarros, sexo, beleza e diversão, para passarmos o tempo todo tentando viver sem essas coisas?

Às vezes as alardadas dimensões espirituais da vida e suas “regras” parecem fazer da nossa existência como se estivéssemos dentro de um Porsche 911, que passa dos 300 km/h, numa estrada perfeita adiante, seca, ensolarada, com uma placa de limite de velocidade de 80 km/h.

Comidas naturais e… sem graça

Espiritualista que só pensa na comida. E acha que alimentos naturais vão transformar a vida dele.

Tem muitos. Estão sempre confusos a respeito dos dois ditados abaixo:

Você é o que você pensa.

Ou…

Você é o que você come.

Sobre a imagem acima: Dois homens primitivos olham um para o outro, e chegam a seguinte conclusão:

Tem alguma coisa errada. Nosso ar é puro, nossa água é pura, nós estamos o tempo todo nos exercitando, tudo que comemos é orgânico e mesmo assim mal conseguimos passar dos *30 anos…

Há consenso entre arqueólogos que os homens primitivos muito raramente conseguiam passar dos 50 anos de idade, boa parte morrendo antes dos 40. Apesar de estarem plenamente integrados à natureza, morriam basicamente das doenças que contraíam.

Livre-arbítrio

Livre-arbítrio é uma coisa que, por definição, é impossível dentro de qualquer sistema moral.

Livre-arbítrio de fato, seria poder fazer o mal sem ser punido.

Se há punição, então não há liberdade plena.

Livrando a concorrência

Nós, seres humanos, temos conosco um certo mimetismo, que se manifesta de forma muito facilmente perceptível.

Eu vejo por mim: Às vezes, um gesto singelo ou uma única palavra vinda de uma pessoa diante de mim, muda em mim visões que 100 textos não conseguem mudar.

Nós aprendemos muito mais conversando com alguém, e observando e reagindo a uma pessoa real, visível e palpável, do que lendo ou assistindo a uma palestra. É a força didática da imersão numa experiência real.

O salmo 115 afirma, ainda que em tom crítico, que nós nos tornamos como nossos ídolos.

E você sabe que tanto o judaísmo, quanto o islamismo são religiões que abominam o culto a ídolos.

Talvez porque aqueles povos antigos eram burrinhos e ficavam cultuando bezerros de ouro.

Mas cultuar um ídolo superior, pode ser muito frutífero. É questão de inspiração.

Hoje, as correntes new age dizem que o pensamento positivo é capaz de transformar a vida.

E elas ficam orientando você a usar sua imaginação para se imaginar nas situações que deseja.

Mas as pessoas têm uma dificuldade terrível de usar a imaginação, e muito menos de manter as cenas imaginadas por longos períodos. A verdade é que as pessoas têm uma limitação mental e imaginativa bem acentuada.

Não seria por isso, quem sabe, que os antigos criavam estátuas de personagens divinos, com as cenas marcantes que lhes geravam admiração, para assim estarem sempre diante de figuras reais e visuais que lhes ajudavam a sintonizar com estados imaginativos superiores e assim, quem sabe com o poder espiritual do pensamento, alcançar o que tanto almejavam?

O fato é que às vezes eu tenho a impressão que as religiões monoteístas que cultuam um Deus abstrato são uma forma de manter as pessoas sem conseguir nada.

É uma forma dos poderosos se livrarem da concorrência.

Porque, se somos o que pensamos, então ficar o tempo todo cultuando um deus sem forma, acaba deixando também nossa realidade sem forma.

Se somos o que pensamos, então se queremos ser alguma coisa, precisamos sintonizar o pensamento com a realidade dessa coisa, e sendo assim, ferramentas que nos ajudem a direcionar o pensamento, como imagens, fotos, santinhos, amuletos e outros itens, podem favorecer essa sintonia.

Havia uma deusa romana chamada Fortuna. Era como se fosse a deusa da sorte.

Como é que você sairia do templo depois de ficar alguns minutos cultuando a deusa da Sorte?

Azarado como sempre? ou quem sabe finalmente energizado com as graças da boa sorte?

Eu realmente não sei esta resposta. Isto é apenas uma especulação filosófica.

Tire suas próprias conclusões.

Seja você mesmo

Eu não poderia sugerir outra coisa: Seja você mesmo. Preserve sua integridade física, emocional e intelectual e, cuidando para não prejudicar o bem-estar alheio, priorize seu próprio bem-estar e não deixe de lado nada que lhe faça bem.

Osho (olha ele aqui) confirma:

Este deve ser o seu método: aprenda a aceitar a vida como ela vem. Quando algo acontecer, aceite; quando desaparecer, aceite.

Quando o prazer vier, aceite-o; quando ele evaporar, aceite.

Permaneça sem julgar, simplesmente uma testemunha silenciosa de tudo.

Este é o segredo mais profundo de todos os budas, de todos os acordados.