Ontem eu assisti no youtube a um vídeo em que duas moças falavam sobre autoestima.

Autoestima sempre foi um tema recorrente neste site. Como, no entanto, é um tema com o qual estou em paz, acabei não tratando mais dele.

Não superei, mas estou em paz com esse assunto porque a maturidade me mostrou alguns aspectos da realidade que não são muito observáveis aos jovens.

Ou talvez porque nosso julgamento muda, mesmo, com o passar dos anos.

Muitos problemas de autoestima passam pela situação da pessoa não se sentir – ou não ser mesmo – bonita o suficiente; de não enxergar a própria aparência ou o próprio corpo como ajustado dentro dos padrões estéticos destes nossos tempos.

Ela acredita que por não estar dentro de um padrão, não serve para participar da vida como gostaria, ou ser verdadeiramente amada pelos outros.

Afrodite - William Adolphe-Bouguereau - 1879

Afrodite – William Adolphe-Bouguereau – 1879

A grande questão é: Ser bonito para quê?

Para agradar os outros?

Há pessoas que gostam de se cuidar, e valorizam a própria beleza, para si mesmos. E esta acredito que seja a postura mais correta.

Mas há outras – a maioria – especialmente as mais jovens, que valorizam a beleza – e lamentam quando não as tem – para serem apreciadas e desejadas pelos outros.

E aqui está o erro, o abismo em que se jogam; o abismo da escravidão ao olhar do outro, da escravidão á opinião alheia.

A saída deste abismo, reside, acredito eu, na justa avaliação da figura do outro na nossa vida.

Quem são essas pessoas a quem queremos agradar com nossa aparência, por quem queremos ser desejados, estimados, apreciados?

Elas valem esse esforço todo?

A resposta é um alto e sonoro NÃO!

Há uma frase sobre status social que resume o assunto:

Status é comprar o que você não quer, com o dinheiro que você não tem, para mostrar para pessoas que você não gosta, a pessoa que você não é.

Da mesma forma, querer ser bonito(a), ou sofrer por não sê-lo, significa querer mostrar-se, em aparência, alguém que não se é, para agradar a uma maioria de pessoas das quais normalmente não gostamos, e das quais, sob alguma sinceridade impronunciável, desejaríamos distância.

A verdade é que ser bonito costuma ser um problema. Os feios não tem dimensão da paz que vivem, ao não serem importunados pelo desejo que a sua beleza desperta nas pessoas. É reconhecido que a fama costuma ser mais prejudicial do que benéfica para a vida particular – e a paz de espírito – dos famosos. A Princesa Diana morreu como consequência do assédio.

A quem você quer parecer bem? A quem você quer parecer perfeitinho? Por que você quer tanto se mostrar aos outros de um jeito que você não é?

E a pergunta crucial nesta discussão toda é:

Por que você quer tanto ser amado(a)?

Você não precisa ser amado. Você vai viver muito bem – e até com mais paz interior – sem ser paparicado(a) pelos outros. Ser amado dá bastante trabalho, inclusive, porque você precisa estar o tempo todo representando um personagem que você não é, tem que estar o tempo todo se cuidando para agradar ao outro. Além de não precisar ser amado, a verdade é que lá no fundo você nem gosta tanto das pessoas que gostaria que o(a) amassem.  Quanto mais as conhecer, menos vai querê-las por perto.

Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem. Millôr Fernandes

Você não gosta delas, você gosta do amor delas por você. A maioria das pessoas é sem graça, chatas, reclamonas, negativas, preguiçosas, ignorantes, carentes de atenção. E quase sempre estão com você porque precisam de algo que você tem: Sua boa vontade, seus cuidados, sua atenção, seu dinheiro…

Você quer mesmo ser apreciado(a) por esse povo todo?

Deus que te livre e guarde!

As pessoas realmente interessantes, sábias, divertidas, inteligentes, educadas são raras. E estas estarão com você espontaneamente, por afinidade. Porque não é a beleza que une verdadeiramente as pessoas, e sim, a afinidade intelectual e emocional; a energia vital.

E essas características você pode trabalhar: Pode se informar melhor, ler mais, estudar mais, conter seus vícios e desenvolver suas virtudes.

E aqui chegamos onde eu queria.

Já trabalhei com o público em duas ocasiões na minha vida: Em 2004/2005 num mercado, e em 2017/2020 como Uber.

Minha experiência me mostrou que a maioria das pessoas, incluindo aí as muito bonitas, são sem graça. Dessas minhas vivências com o público, as poucas pessoas que eu lembro foram aquelas com as quais consegui manter um papo legal, aquelas que realmente quiseram conversar comigo, trocar ideia, ouvir e serem ouvidas.

Fernanda Montenegro tem uma observação em que ela diz que a beleza importa somente nos primeiros 15 minutos, depois você tem que ter algo a dizer. A maioria das pessoas não tem algo interessante a dizer. Então não há porque você querer a apreciação delas.

O segredo para nós, “feios”, é pular esses 15 minutos e já sair dizendo qualquer coisa bonita, simpática ou divertida.

E isso pode ser aprendido. Desde que nos libertemos da escravidão ao juízo alheio sobre como parecemos ser.

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