Nunca fale de seus problemas para ninguém.

20% não se importam, e 80% ficam felizes por você ter problemas.

De boca fechada

De boca fechada

Em muitas de nossas relações pessoais, principalmente aquelas com as quais temos algum envolvimento emocional – família, amigos ou colegas de trabalho muito chegados – pode existir um componente de competição que acaba despertando uma certa inveja, sempre latente, até em pessoas que verdadeiramente nos estimam. É aquele desconforto com o sucesso alheio que nem sempre se relaciona a dinheiro, mas também a relacionamentos, reconhecimento, conquistas pessoais, sorte, etc.

Não é regra, é tendência, mas deve ser sempre observada.

Quando falamos das coisas que nos saíram erradas, os outros tendem a solidarizar-se conosco e torcer por nós. Quando falamos das coisas que nos saíram bem, tendem a questionarem-se por que não tiveram a mesma sorte que nós e intimamente, muito intimamente, de uma forma que a maioria é sequer capaz de perceber, desejam que não tivéssemos nos saído tão bem. Nossa sorte não lhes parece justo.

Particularmente, acredito que nós somos os únicos responsáveis pelas coisas que dão certo ou errado conosco, só que nossos sucessos dependem muito da nossa confiança, a qual nem sempre é inabalável e pode ser facilmente desestabilizada pela dúvida ou pela crítica alheia. Por isso acredito de certa forma no que o costume popular chama de mau-olhado ou mau agouro. Nem todos gostam de nos ver bem.

Algumas pessoas nos amam. Mas só se sentem confortáveis conosco se estiverem convictas de que são superiores ou iguais a nós. Se sentirem que estamos chegando ao mesmo nível delas, ou pior, ultrapassando-as, começarão a sentir-se desconfortáveis.

Elas não fazem por mal e nem sabem que o fazem. Para elas é algo instintivo intimamente ligado à manutenção da própria autoestima. De todo modo, não acredito muito no que chamam de inveja boa. O que me parece mais razoável é que existem pessoas mal-educadas, que criticam os  êxitos alheios, e pessoas bem educadas, que sabem a hora de recolherem-se e ficarem quietas deixando os amigos curtirem seus sucessos.

Isso tende a ocorrer quando estão diante de quem consideram se esforçar igual a elas. Se a partir de certo momento as duas partes se esforçam em igual medida, porém uma passa a ser melhor sucedida, a invejinha pinta na área.

A passagem abaixo, retirada do excelente livro A Cabala da Inveja, de Nilton Bonder, ilustra com precisão o que eu quis dizer acima:

Uma pessoa deve sempre levar em conta os sentimentos de seus vizinhos… Portanto, se eu tivesse ido a uma feira, por exemplo, e lá viesse a obter bons resultados, conseguindo vender tudo com um bom lucro, e retornasse com os bolsos cheios de dinheiro, e o coração palpitando de alegria, não deixaria de dizer a meus vizinhos que tinha perdido até o último dos meus copeques (centavos do rublo, moeda russa), que era um homem arruinado.

Assim eu ficaria feliz e meus vizinhos ficariam felizes.

Porém, se, ao contrário, tivesse perdido tudo na feira e trouxesse comigo um coração angustiado, teria o cuidado de dizer a meus vizinhos que, desde que D’ us criou as feiras, nunca houvera uma tão maravilhosa como aquela.

Vocês me entendem? Sim, pois assim eu me sentiria muito infeliz e meus vizinhos também, junto comigo…

Sholem Aleichem

A sarcástica passagem acima demonstra que dependendo de com quem estamos lidando, o silêncio pode ser mais vantajoso. Resistir à tentação de se gabar por pouca coisa e de se vangloriar por seus feitos pode ser inimaginavelmente lucrativo – acredite! Livre-se da necessidade de parecer bem aos olhos dos outros. Deixe pensarem que está mal. Mantendo a boca fechada você ganha dinheiro, mantém casamentos e mantém sua saúde ;)

Se quiser ter inimigos, sobreponha-se aos seus amigos; se quiser ter amigos, deixe que seus amigos se sobreponham a você.

A frase acima, do escritor François de La Rochefoucauld demonstra e de certa forma valida a citação anterior. O pessimismo e relativo cinismo da frase demonstra que devemos estar atentos ao que move as pessoas e, se encontrarmos quem sinta por nós uma sincera e despretensiosa simpatia, capaz de nos ouvir em silêncio sem a necessidade de competir conosco – e a quem conseguimos retribuir tais generosidades em igual medida – devemos guardar tal amizade como quem guarda um tesouro.

Texto de 30 de agosto de 2011.

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Veja também: Maus-olhados, inveja e silêncio e Inveja, para onde você está olhando?