Please

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Sempre que ouço falar que algum conhecido está com depressão, fico com um ponto de interrogação gigante na mente.

Sei que a depressão é uma doença. E quem está em meio a esta enfermidade deve ser respeitado e apoiado.

Porém até onde eu sei, a depressão não surge assim, num estalar de dedos.

Me solidarizo com a pessoa, mas também pergunto-me  como foi que ela chegou a esses termos. Onde foi que errou? Como se deixou cair desse jeito? Quais circunstâncias à sua volta têm feito com que ela se prostre assim?

Depressão não é causa, é resultado. Ela é o resultado consolidado (e difícil de ser mudado) de uma série de escolhas, voluntárias ou não, que conduziram o indivíduo ao longo do tempo, até aquela situação. Até que a depressão se torne uma doença de fato, já se foi um longo caminho. Ela é como um vírus que se instala em nossa mente quando tudo está bem. E vai aos poucos se alastrando e tomando conta de nosso ser. E quando se dá conta da situação, já se está fraco demais para reagir.

E na verdade, não se quer reagir. E é esse não querer reagir que configura a depressão.

Rola um misto de não querer com não conseguir, uma condição a esta altura já inadministrável pelo indivíduo.

Definição de depressão

A depressão se caracteriza por uma mudança no estado de ânimo de seu portador. Ela consiste no surgimento de um sentimento generalizado de tristeza que varia de grau, passando por um sentimento de desalinho moderado até o mais intenso desespero.

Ela pode durar poucos dias ou estender-se por semanas, meses e até anos.

Os psiquiatras consideram a depressão juntamente com a ansiedade e a angústia como fazendo parte dos distúrbios da afetividade e também os relacionam com situações de PERDA real ou simbólica.

A tristeza faz parte de nossa condição humana e não há quem não tenha sofrido por ela; por isso é importante não confundir estados passageiros de melancolia com a depressão a que nos referimos acima.

Nas situações de perda real citamos como exemplo: perda de emprego, do status social, morte de um ente querido, fim de um relacionamento amoroso, dentre outros que podem levar a pessoa a apresentar um quadro depressivo.

É importante ressaltar que quando a perda for somente simbólica, a sensação em questão pode advir de um sentimento de decepção em relação aos outros ou até mesmo em relação a si próprio, acarretando em um rebaixamento de sua autoestima. Fonte

Veja uma definição mais completa e científica na Wikipedia

Meu caso de amor com a Depressão

Eu nunca tive depressão crônica. Mas passei por longos anos por aquilo que se chama “depressão menor”. Que é aquela tristeza e desmotivação continuada. O motivo era minha incapacidade de lidar com alguns aspectos da vida, o qual é o motivo básico de qualquer início de depressão. O meu fundo do poço foi durante algumas semanas nas quais só conseguia dormir depois de chorar convulsivamente. Foram dias nos quais pensei seriamente em suicídio.

Acho que só não me matei por falta de coragem, mesmo, embora hoje em dia já não saiba dizer o que exige mais coragem: Partir ou ficar. Já não tenho vergonha em assumir. Vergonha maior para mim é fingir que está tudo bem, ou que minha vida até aqui foi um trajeto florido. E com o tempo, fui percebendo que muito mais pessoas pensam em dar cabo à própria vida, do que se pode imaginar.

Mas há um detalhe fundamental no fato de não ter me suicidado (além da covardia inerente a quem prefere continuar apanhando da vida a enfrentar o desconhecido): As leituras espíritas. Desde os 13, 14 anos sentia algum interesse por esses assuntos, e em alguns livros espíritas, fala-se claramente que de nada adianta se matar, porque todos os nossos dramas continuam na vida pós-morte exatamente como eram em vida. Ao pôr fim à sua própria vida, o máximo que você consegue é adiar a resolução de seus problemas.

A maior lição que o espiritismo pode lhe oferecer é que, cedo ou tarde, você terá que enfrentar seus problemas, isto é, seus monstros interiores. Não há como fugir deles, porque eles estão dentro de você e você os leva junto para onde for, até para a “morte” e o pior, para as suas próximas vidas.

Enfim, esteja o espiritismo certo ou não, haja vida após a morte ou não, o fato é que hoje estou aqui, enchendo vossas cabeças de minhocas 🙂

Traindo a depressão com a Esperança

Daquele patético fundo do poço até a minha normalização ( se é que chegou a tanto 🙂 ), se passaram vários anos. Nunca procurei tratamento ou tomei remédios. Acho que a minha ESPERANÇA sempre foi maior do que tudo. Durante os pensamentos macabros de suicídio eu “conversava” muito com Deus e sempre deixei claro para ele que o que eu queria MESMO não era morrer, e sim, VIVER. Viver em toda a plenitude possível.

O trajeto até a recuperação foi longo. Mas lembro claramente do momento que se configurou como o ponto de virada  dessa corrida estranha. Minha faculdade estava chegando ao fim e eu estava tenso com a derradeira apresentação do meu trabalho de conclusão de curso. Apresentações em público sempre foram meu fraco. Sempre que precisei, enfrentei e apresentei bem o trabalho, mas evitava como podia. Porém dessa apresentação eu não poderia escapar e esse fato estava me consumindo por dentro. Até que a poucas semanas do dia D, tive um surto de confiança.

Era domingo, friozinho e o sol entrava pelas portas de vidro do apartamento. Ali eu estava sentado me aquecendo e pensando no meu drama. E então a frase “vai dar tudo certo” começou a se repetir na minha mente. Vai dar tudo certo, Vai dar tudo certo, Vai dar tudo certo, Vai dar tudo certo, Vai dar tudo certo, Vai dar tudo certo, Vai dar tudo certo, Vai dar tudo certo…

E comecei a sentir um alívio bem grande.

Então o dia chegou, realizei a apresentação e de fato, deu tudo certo.

A partir de então, minha vida foi se normalizando.

Se é assim, então não brinco mais (de viver)

Lendo alguns textos sobre depressão e espiritualidade, percebo que há muitas besteiras sendo ditas. Muito esoterismo e pouca explicação.

Pessoas problemáticas ( e se você for uma delas, não se ofenda, também sou 🙂 ) são pessoas com uma sensibilidade exacerbada. É uma sensibilidade mental muito refinada, e muitas vezes, embora não seja o meu caso, uma sensibilidade de ordem espiritual, que no meio espírita é chamada de mediunidade, mas no meio cristão é chamada de “dons espirituais“. Esse tipo de hipersensibilidade deve ser canalizada corretamente, seja através das artes, seja através do trabalho espiritual de ajuda aos outros.

Mas quase sempre, essas pessoas são mal orientadas, e sua sensibilidade, mal canalizada. E essa sensibilidade torna o mundo hostil para elas. É o caso explícito de artistas que acabam se suicidando; uns diretamente, outros indiretamente através da fuga obsessiva de si mesmos e do mundo, refugiando-se nas drogas. A ciência, que muitas vezes ajuda, também atrapalha nesse caso, porque não leva em conta essa sensibilidade espiritual, e DOPA os pacientes, porém com drogas lícitas 🙁 Uma certa cegueira sensorial permite uma melhor adaptação a esse mundo tosco.

Consciência do que se passava comigo sempre foi o meu forte. Sempre, sempre, SEMPRE tive uma noção exata e precisa do que se sucedia na minha vida e nas minhas reações para com ela. Por mais arrogante que possa parecer, sempre fui meu próprio psicólogo. Durante as fases mais obscuras, eu costumava anotar minhas impressões melancólicas a respeito da vida e naquelas folhas ( que queimei alguns anos depois, num ritual particular de exorcismo 🙂  ) estavam todas as minúcias possíveis sobre cada hipótese possível sobre cada dificuldade sentida.

Não era fácil ser eu 😉

Sendo assim, fui entendendo que meu estado de (des)ânimo se devia a uma recusa particular em aceitar a realidade como ela era, e é ainda hoje, e continuará sendo até o fim dos tempos, sempre indiferente ao que EU, e também você, pensamos que ela, a realidade, deveria ser.

Rolava muita autopiedade, uma pena de si mesmo lastimável. Coisa que ainda me persegue, contra o que me esforço por evitar, pois gente coitada, que faz questão de alardar como as coisas estão ruins para ela, é justamente o tipo de gente que me desperta aversão. Não quero ser uma delas.

Esse tipo de postura é típica de personalidades narcisistas (oi?). Esse tipo de personalidade se acredita muito especial. E que o mundo todo deve perceber o quanto ela é especial, correspondendo aos seus anseios. É basicamente uma personalidade MIMADA que espera que todos – as pessoas, o mundo, a vida – lhe deem atenção e atendam aos seus desejos.

Inevitavelmente, a pessoa que adota esse tipo de personalidade vai se prostrar de joelhos diante da indiferença da vida. Vai perceber que não há nada que garanta que ela tenha qualquer privilégio. Acontece ao perceber, pouco a pouco, suas vontades, desejos e sonhos negados.

De insucesso em insucesso, frustração em frustração, decepção em decepção, ela vai se ressentindo, invejando quem está bem (sem atentar para o fato provável que muito do que mostram não passa de aparências), e percebendo e se convencendo da própria fraqueza, num misto de ressentimento pelos outros e culpa por si mesmo.

Aceitar que a vida tem seus próprios caminhos, que o mundo não está nem aí para nós, que não somos tudo aquilo que imaginávamos, e passar a lidar com a realidade como ela é, e oferecer mais de si, esperando menos dos outros, pode configurar um recomeço.

Muitas vezes, a grande lição da vida é que de fato não valemos tanto assim, não somos tudo aquilo, e que é assim mesmo, imperfeitos, limitados e muitas vezes, debilitados, que devemos nos aproximar dos outros e interagir com a vida.

Acredito que a depressão é o resultado final de uma não-aceitação da realidade por parte do indivíduo depressivo, a qual começa aos poucos, com uma contrariedade aqui, outra ali, de forma contínua e progressiva. Ele não aceita as imperfeições do mundo, não aceita as imperfeições das pessoas, não aceita as imperfeições dos relacionamentos, não aceitas as próprias imperfeições e limitações. A perda da paciência, através da intolerância, do nervosismo e da irritabilidade, são os sintomas típicos iniciais.

As formas leves (de depressão) muitas vezes são negligenciadas, pois tem manifestação algo diferente. A pessoa fica irritada, ansiosa, intolerante, pode desenvolver pânico ou comportamento obsessivo compulsivo. Mesmo em sua forma leve a depressão compromete bastante a qualidade de vida do seu portador, compromete ainda seus relacionamentos profissionais e pessoais. São pessoas tidas como chatas, arrogantes, perfeccionistas, intransigentes ou cheias de manias. Fonte

O depressivo é um profundo idealista (ou narcisista) que não aceita que a realidade não seja do modo como ele gostaria – ou queria – que ela fosse.

Então, em vez de adotar a reação mais prática que é reduzir as próprias expectativas acerca da vida, do mundo, dos outros e de si mesmo(a), adaptando-se à vida como ela é, e viver do jeito que dá, priorizando a continuidade das coisas, ao contrário, ele(a) se fecha ao mundo.

Cruza os braços e não quer mais viver desse jeito.

Só se fosse do jeito dele.

Mais ou menos como a criança que não quer mais brincar se não for com as regras dela.

Uma overdose de aceitação pode ser um ótimo remédio.

É tão legal estar triste

Sempre tive uma personalidade melancólica. É uma vergonha, eu sei 🙂 mas é a verdade.

Durante aquela fase depressiva pela qual eu passei, não raras vezes me pegava gostando de estar triste.

Acho que eu já era um EMO quando ninguém sabia o que era emo.

O fato é que entendo bem o que se passa com eles. A tristeza é viciante. Nela você está mergulhando dentro de si mesmo, num oceano escuro e morno de monotonia. Essa monotonia, isto é, esta ausência de novidades lhe dá uma certa segurança. Porque estar alegre significa viver, enfrentar as coisas, os desafios, lidar com gente. Na tristeza você se recolhe e se refugia em si mesmo e por incrível que pareça, se sente seguro ali.

Mas isso não é nada legal.

Sugestões

Entendo que para o sujeito com depressão crônica, é extremamente difícil optar pela luz ao invés da escuridão. Nesses casos o correto é a busca de tratamento psiquiátrico, aliado a uma orientação espiritual com a qual a pessoa se identifique.

Mas àqueles que estão numa fase ruim, ainda leve, sugerir não ofende, não é? A cada momento da nossa vida, podemos optar pelo melhor, ou pelo pior. Se ajudar optando pelo melhor pode evitar muito sofrimento:

Músicas

É preciso tomar cuidado também com as músicas que se ouve enquanto se está com depressão. As músicas têm uma influência gigante sobre o nosso humor, e ficar ouvindo músicas muito melancólicas não ajuda em nada.

Ajudar a si mesmo com boas escolhas é fundamental. Sugiro fortemente que se faça uma lista com músicas animadas e festivas. Por experiência própria, garanto que funciona.

Ambiente

Procure a luz do sol, sempre que possível.

Procure ar fresco, procure amigos, procure gente.

Evite se isolar. Distraia-se.

E se ficar em casa, procure manter tudo limpo e organizado, incluindo aí, você mesmo, com banho tomado e uma roupa decente.

Pessoal

Reduza suas expectativas em relação ao mundo, aos outros e a você.

Se suas expectativas são realistas e não deram certo, consulte no dicionário o significado de persistência. Ou ouça esta música.

Ofereça mais de si, e espere menos dos outros.

Pense menos em si, e considere mais os outros.

Se você não agir, a vida não vai vir pegá-lo(a) pelas mãos e levá-lo(a) a fazer o que tem que ser feito.

E pior, a vida, e as pessoas, não farão o que só você pode fazer.

Não se obrigue a ser perfeito, você não vai conseguir.

Culpar-se, sentindo pena de você, isto é, da condição na qual se meteu, às vezes por omissão, não vai resolver o problema.

Agir e resolver o problema é o que vai resolver o problema.

Se o problema não tem solução, aceite, relaxe, vá tomar um cafezinho. É assim mesmo que as coisas têm de ser. Aceite!

Desistir, ou ficar esperando as coisas caírem do céu só atrasa sua vida.

Considere a possibilidade de que você seja uma pessoa narcisista, vaidosa e mimada. E que já passou da hora de agir como um adulto que cuida da própria vida, nem que seja em consideração aos outros para parar de ser um peso na vida deles.

Aprenda a conviver com a desatenção dos outros, a não ser que ainda não tenha passado dos 12 anos de idade, ou que você esteja oferecendo algo realmente bom para eles.

Entrevista com Adenáuer Novaes

Adenáuer Novaes é Psicólogo Clínico, residente no Brasil. É um dos diretores da Fundação Lar Harmonia – Salvador-BA. Quando da sua estada em Londres, facilitando o seminário Depressão, Cura e Espiritualidade, atendendo convite da Casa, Adenáuer Novaes concedeu a seguinte entrevista:

1. Na sua visão, como você definiria a depressão?

Depressão é fuga da vida e de viver o desafio apresentado pela própria personalidade. É um processo de perda de vitalidade, que deveria ser utilizada para a realização dos objetivos da vida. Do ponto de vista clínico, é um transtorno do humor que atinge a vontade e a dimensão emocional da pessoa. É mais comum entre as mulheres e na fase adulta.

2. Qual a causa da depressão?

A depressão tem muitas causas, não existindo uma especial. Em geral, decorre da fragilidade emocional e do despreparo do indivíduo em lidar com suas frustrações. Quando se criam expectativas sem o preparo para lidar com decepções e perdas, surge a predisposição para a depressão.

3. Por que tantas pessoas, atualmente, sofrem de depressão?

Na realidade, não há muita gente com depressão. O que existe é muita gente se automedicando e acreditando que está com depressão, sem um diagnóstico claro a respeito de seu problema. Tristeza e retraimento não quer dizer depressão.
Redução da vontade de fazer as coisas também não quer dizer que se esteja com depressão. É necessário que os sintomas clássicos da depressão ocorram por mais de sessenta dias corridos, para que se diagnostique a doença.

4. Poderíamos dizer que o autoconhecimento contribui para a pessoa prevenir-se da depressão?

Mais do que o autoconhecimento, é necessário que se tenha a consciência dos processos inconsciente para se prevenir da doença. Isso significa que se deve buscar um maior contato com a dimensão inconsciente, estando atento aos complexos psicológicos que atuam e interferem na vida consciente. Além de se conhecer, a pessoa deve se descobrir e buscar constantemente a auto-transformação

5. Qual a importância da espiritualidade na vida de uma pessoa depressiva, ou não?

Entendendo espiritualidade como autopercepção da condição de que se é um espírito imortal, dificilmente a pessoa terá uma depressão, pois entenderá que não poderá postergar a solução de qualquer conflito, tendo de enfrentá-lo a todo custo.

6. Quais são as terapêuticas recomendadas para o tratamento da depressão, considerando-se a individualidade de cada pessoa?

Diagnosticada com precisão clínica, a depressão deve ser tratada de várias formas. Em todos os casos de depressão, o tratamento deve ser psicoterápico, isto é, psicológico. Muito raramente o depressivo deve tomar qualquer medicação, já que seu problema é de ordem psicológica. A propalada deficiência de serotonina, quando ocorre, e raramente ocorre, é consequência. Administrar uma medicação que venha a contribuir para sua captação posterga a solução do problema e, muitas vezes, mascara a doença. Além do tratamento psicoterápico, deve se buscar manter a vida relacional da pessoa, incluindo atividade laboral.

7. Quais são os recursos terapêuticos que o Espiritismo oferece para quem sofre de depressão?

O espiritismo oferece sua doutrina de libertação da alma. Os Centros Espíritas, em geral, oferecem o passe e o aconselhamento. No entanto, nem sempre estão preparados para escutar a alma do outro que se encontra com medo de reconhecer seus processos psíquicos e enfrentar seu desafio. O recurso da conversão evangélica, muitas vezes, posterga a solução do conflito, também mascarando o problema. Há necessidade de se estruturar equipes de atendimento psicológico, tendo por base a Terapia do Espírito, para se atender melhor o portador de qualquer transtorno psíquico, principalmente os que têm o componente da obsessão espiritual.

8. Finalizando, a depressão tem cura?

Claro que tem cura. Basta que seu portador readquira a vontade de viver, sem medo de enfrentar o que se passa em seu mundo interior.

Veja também

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