Este é um texto que eu gostaria de escrever há tempos.

Eu morei há menos de 200 metros da praia durante 20 anos – de 11 de setembro de 1991 até 31 de janeiro de 2012.

E não era qualquer praia.

Tive a sorte (?) de vir a morar na Praia Brava Itajaí, uma das praias hoje mais badaladas do litoral centro-norte de Santa Catarina. Uma praia até então agreste, que fica(va) entre duas cidades importantes daquele litoral, a portuária Itajaí e a praiana Balneário Camboriú.

Praia Brava

Morar na beira da praia tem suas vantagens, mas também algumas desvantagens, como é de se esperar.

Lembro bem quando pisei pela primeira vez nas areias da Praia dos Amores, a parte sul da Praia Brava, em 1991. Meu pai levou eu e meus primos até o canto onde morava o Beto Pescador que tinha um barzinho no pé do Morro do Careca.

Naquele tempo o ribeirão Ariribá era um riacho praticamente limpo, e desaguava sem pressa numa praia de astral inacreditável. O trecho de areia que o ribeirão percorria entre a mata e o mar estava salpicado de pedrinhas e este cenário me despertou um vívido encanto pelo lugar em que viria a morar em breve.

“Quer dizer que poderei vir todos os dias neste canto ver esse cenário cinematográfico?”

Minha residência por 20 anos

Minha residência por 20 anos

Em 11 de setembro daquele ano, 10 anos antes das Torres Gêmeas serem colocadas no chão de Manhattan por dois aviões, eu, meu pai e minha mãe aportávamos naquele pequeno prédio meio comercial, meio residencial que ficava há 200 metros do mar e que era a mais ou menos a sexta edificação existente a partir da praia.

Havia neste espaço uma casinha no canto da praia onde viria a morar mais tarde meu amigo Luiz Henrique, uma outra casinha onde morava a família do Buco (ou Pernambuco), figura folclórica da Praia Brava, a casa do empresário Silvio Porto, a casa do marmoreiro Sr. Sérgio Cidral, pai do meu amigo Ricardo e na rua da Saudade, que viria posteriormente se denominar Julio Kuhn, a casa de uma menina que viria a ser minha paixãozinha (hoje diriam crush) de adolescência, a Cristiane.

Nossa vista para a praia

Nossa vista para a praia

No entanto, o dia-a-dia que viria se suceder nos próximos anos não seria assim tão encantador.

Morávamos em Joinville, no então maior bairro da cidade, o Boa Vista. À frente da minha casa havia uma imensa chaminé que expelia diariamente um fumaceiro que deixava as roupas do varal todas fedidas de fumaça, o que provocava maledicências constantes da minha mãe. Apesar disso, no bairro tudo muito acessível, inclusive a proximidade com parentes de minha mãe no bairro ao lado.

Granalha de Aço

Já na Praia Brava, o único comércio disponível, o mercadinho do “Seu Pupe“, ficava a um quilômetro de distância, e como meu pai usava seu carro durante o dia para correr atrás do nosso sustento, eu e minha mãe caminhávamos esse trecho constantemente, carregando sacolas pesadas sob sol e sob chuva.

Ponto de ônibus também ficava longe ao lado desse mercadinho e passava de hora em hora. A escola mais próxima ficava a 2 quilômetros. Se era verão, tínhamos que caminhar esse trecho debaixo do sol escaldante, se era inverno, enfrentávamos o vento gelado da praia, se chovia, chegávamos encharcados, em casa, no ônibus, na escola.

Parece pouco.

Não era pouca, no entanto, a sensação de isolamento que sentíamos.

Tínhamos a praia ali, disponível 24hs, mas não tínhamos mais nada em termos de facilidades aos serviços do dia-a-dia; parentes distantes, sem amigos.

Uma vez morando tão perto, de fato íamos frequentemente na praia, durante este primeiro verão. Com o passar dos anos, nem íamos mais a não ser quando recebíamos alguma visita distante, 2 ou 3 vezes por verão.

Numa Praia Brava praticamente inabitada, sem trabalho e sem dinheiro, viveria minha adolescência nos próximos 10 anos, praticamente trancado no quarto, ouvindo rádio, gravando músicas em fitas cassete, lendo meus poucos livros, estudando eletrônica nas revistas que minha querida mãe sempre lembrava de trazer do centro; jogando videogames mais no início, e games no computador a partir de 1996 quando ganhei meu primeiro 486DX2.

Alguns poucos conhecidos gostavam muito de futebol, e me chamavam para jogar com eles numa antiga quadra no canto da praia, onde morava o Luiz. Mas minhas inabilidades futebolísticas e inafeição a competições me restringiam ao gol, e passava mais tempo buscando a bola chutada pra longe do que jogando, propriamente. Um dia cansei e não fui mais. A cena mais marcante deste tempo todo foi um entardecer, pelo qual as partidas se estenderam. Do gol onde jogava, olhei pro mar e vi uma bola de fogo, impressionantemente grande. Depois de vários instantes tentando entender o que via, cogitando ser um balão, me toquei que era uma magnífica lua cheia surgindo do horizonte.

Esses amigos também não curtiam sair a noite – na verdade, o dinheiro era pouco, ninguém dirigia ainda, a deslocação até as cidades vizinhas era complicada – e quando saíam não me convidavam; quando convidavam eu não tinha dinheiro e deixava-me vencer pela timidez e certo traço de fobia social. No fundo, eu não queria sair. Queria, mas não queria.

Passava meus dias indo à escola e dando uma volta na praia de bicicleta, ou caminhando sozinho naqueles idílicos três quilômetros de orla agreste da Praia Brava.

Havia certo aconchego estar em contato constante com uma presença tão intensa e bonita da natureza.

Mas havia muita solidão também, solidão que desmentia, e na verdade desmente até hoje, a falsa impressão que se tem em geral, de que se encontra na praia tudo que se pode querer da vida; prova disso é que as pessoas vão a praia e a primeira coisa que fazem é publicar uma selfie no instagram. Com o mar diante de si, as pessoas querem mesmo é atenção, nem que seja na forma de curtidas.

nin - guém

nin – guém

A quantia de suicídios anuais em Balneário Camboriú, também comprova esta percepção.

Vista pro mar não preenche o coração de ninguém.

Antigamente

Praia Brava em 1992

Praia Brava em 1992

Hoje a Praia Brava Itajaí mudou muito em relação ao que já foi.

Havia antigamente, e eu cheguei a pegar esse tempo, em que as praias lotavam no verão, mas lotavam saudavelmente.

As casinhas de praia simplórias, de madeira, sem ar-condicionado, janelas com venezianas, de dia esgaçadas; cortinas voando com o vento, portas rangendo lentamente com as brisas quentes. As praias com espaço saudável para cada família ficar a uma distância com certa privacidade…

Hoje

O tempo passa e nossos valores vão mudando.

Nelson Motta já relembrou em música, há tempos, que tudo muda, o tempo todo, no mundo.

Até alguns anos atrás, eu realmente acreditava que morar no litoral era o que havia de mais interessante a se alcançar em termos de moradia. Hoje meu sonho é comprar uma cabana na Serra Catarinense e fugir de vez pra lá.

Moro atualmente em Itapema, numa casinha a menos de dois quilômetro da praia, o que é o sonho de muita gente.

Especialmente entre o Natal e o Carnaval, o povo das cidades arredores desce em peso para estas cidades litorâneas. O trânsito colapsa, há filas em todos os lugares, o povo faz das cidades praianas uma imensa varanda coletiva, com som alto em todo canto, lixo em todo canto, bagunça em todo canto.

O fato é que neste último verão, não fui uma vez sequer à praia e não me acontece qualquer vontade de aproveitar este finzinho de verão pra virar um ser humano à milanesa por uma hora com água salgada, suor, areia e sol. Não, não, não!

Na praia, o sol queima a pele e acelera o processo de envelhecimento e, pra falar a verdade, acho o protetor solar um negócio bem nojento de ficar passando.

A luz do sol do verão me cega os olhos e não me sinto bem usando óculos.

Você está suado e a areia gruda na perna, no calçado, em tudo.

As pessoas em geral estão pessimamente vestidas, suadas, esculachadas.

E as pessoas bonitas se agrupam em tribos, numa outra vibe.

Tudo muda, o tempo todo, no mundo. […] como uma onda no mar.

Algo que muda muito é também a impressão de que às vezes, as coisas parecem mudar pra melhor, mas às vezes, para pior.