Arquitetura é muito mais do que uma casa bonita.

A linguagem arquitetônica de um edifício comunica determinadas mensagens simbólicas aos seus frequentadores e transeuntes.

E como todo símbolo, tendem a despertar, resgatar, reavivar, inconscientemente, nas pessoas, os valores culturais comunicados pelo estilo do edifício. Valores estes que virão a reproduzir, naquelas pessoas, através de posturas e comportamentos, as predisposições sociais que culminaram justamente naquela cultura da qual o edifício é fruto, no caso aqui, especialmente, a cultura e tradição ocidental e seu respectivo respeito às instituições que fizeram dela a ordem social mais civilizada da história.

Se você está num hospital, principalmente pelo interior sempre branco e limpo, você se porta ajustando-se a serenidade que o ambiente transmite.

Se está numa igreja católica, se porta de forma reverente ao sagrado que ali passa a habitar.

Se está numa casa rústica, incorpora para si aquela atmosfera rural simples e espontânea. Se mora numa casa bem acabada, se sente identificado e representado pelo seu lar e pelo estilo que ele expressa externamente.

Se você pudesse estar à frente do palácio da imagem abaixo, certamente seria tomado por impressões de grandeza, encanto, e reverência à instituição que porventura abrigaria. Seria certamente acometido por uma inexplicável apreciação pelo local onde ele estava situado, apreciação que certamente lhe despertaria o orgulho de pertencer àquela cidade, caso dela fosse morador.

Cidade aquela, que se transformaria, décadas depois, no caótico Rio de Janeiro.

Palácio Monroe

Este edifício magnífico das primeiras imagens abaixo era o Palácio Monroe, lamentavelmente demolido em 1974.

Ele abrigou a Câmara dos Deputados, entre 1914 e 1922. Posteriormente, abrigou o Senado Federal entre 1922 e 1960 (exceto entre 1937 e 1945, durante a ditadura Vargas, quando foi dissolvido e fechado).

Eis, acima, a estética defendida pelos modernistas: Uma estética de oca indígena de concreto armado, ou, quem sabe, dependendo da imaginação da pessoa, a estética de um grande penico de ponta-cabeça, para esconder as coisas que, naturalmente, sempre acabam dentro de um penico.

Progressistas e seu caso de amor pela miséria humana.

Quando comecei a acompanhar um pouco do mundo político, na adolescência, fui cooptado pela narrativa marxista vigente, e aprendi, dentre várias visões, que a construção de Brasília foi um avanço, que quem faz a economia crescer é o governo, que a reeleição parecia algo interessante, e que o capitalismo era um sistema problemático.

Hoje, depois de muito tardiamente me desvencilhar da narrativa esquerdista, entendi que quem faz a economia crescer não é o governo; que, ao contrário, quanto menos o governo se meter, mais os cidadãos prosperam; Que a reeleição é um dos grandes males do nossos sistema político, porque permitiu projetos de poder como o do PT, financiados com dinheiro de corrupção; Passei a compreender que, sim, o capitalismo é desigual, mas ainda assim, os países mais desenvolvidos, aqueles que todos gostaríamos de conhecer, são os mais capitalistas.

E hoje entendo, sobretudo, que JK afundou o Brasil em dívidas para construir Brasília, e que a mudança da capital para o interior é uma das grandes razões para a decadência do Rio de Janeiro (e também que o Rio de Janeiro era, e seria ainda hoje, uma capital bem mais representativa da nossa brasilidade, do que aquelas formas geométricas brasilienses sem o menor sentido, que vendem simplicidade, mas oferecem  simplismo).

A intenção da criação de Brasília era “integrar as regiões brasileiras”, o que não passava evidentemente de um devaneio (um devaneio bem caro, por sinal). Washington, a capital americana, fica na costa leste daquele país, o qual, nem por isso é uma nação menos integrada, o que também acontece com Moscou, Buenos Aires, Sidney e seus respectivos países.

O movimento arquitetônico modernista, no Brasil, foi bastante influente. Mas somente depois de curar-se da doutrinação progressista que afirma que todo progresso é preponderantemente bom e urgente, é que você finalmente entende que o modernista está para a arte e para a arquitetura, assim como o progressista está para a política. E é quando você começa a compreender a dimensão da catástrofe que a influência modernista representou para o patrimônio arquitetônico brasileiro, da mesma forma como décadas de populismo implodiu qualquer chance de sucesso para o Brasil, este que será sempre conhecido como o país do futuro (que nunca chega…).

O problema não é o modernismo em si, como movimento artístico e social. O problema foi – e certamente continua sendo – a fúria dos modernistas contra um patrimônio já concretizado, símbolo de uma história local. A birra modernista contra a tradição ocidental europeia, em especial a arquitetônica, ultrapassou os limites da inovação, para novos lugares (como de fato foi Brasília, onde não havia nada), para a destruição do que já estava feito, com aquela ambição bem típica dos idealistas de quererem refazer o mundo com base em suas ideias muito particulares do que “deveria ser certo”. Eles queriam criar uma identidade arquitetônica brasileira, eles, os salvadores da arquitetura nacional. Quanta pretensão…

O que fizeram com o patrimônio arquitetônico brasileiro do início do século XX foi como se os literatos modernistas Vinícius de Moraes e Clarice Lispector eliminassem das bibliotecas toda a produção literária do período romântico / realista anterior, cujo expoente brasileiro foi Machado de Assis.

O mais curioso, e triste, no caso do Palácio Monroe, é que ele foi demolido baseado nas alegações de que seu estilo eclético (advindo da mescla de elementos arquitetônicos de vários estilos europeus) não condizia com a identidade brasileira. Mas posteriormente, no lugar do palácio, ficou uma praça em homenagem a um personagem histórico cuja origem é de um país oriental com o qual não temos a menor relação cultural: O indiano Mahatma Gandhi.

No local onde ficava o Palácio Monroe, jaz uma praça

Fonte da Imagem (e outras fotos da demolição)

Os responsáveis pela demolição do Monroe

Nesta página, encontrei este interessante comentário:

Enquanto o Metrô desviava o trajeto da linha para poupar o Palácio Monroe de sua demolição, três figuras muito conhecidas dos brasileiros pediam ferrenhamente a sua demolição. Eis seus nomes:

1. GENERAL ERNESTO GEISEL: Quarto presidente militar desde o Golpe de 64. Empossado pelo Colégio Eleitoral em 1974. Nutria um ferrenho horror pelo filho do Coronel Arquiteto Francisco Marcelino de Souza Aguiar, projetista do Palácio Monroe, . A raiva que Geisel sentia dele foi originada quando o filho de Souza Aguiar foi promovido no Exercito em detrimento de Geisel. Por puro ódio e vingança, Geisel aproveitou seu poder de Presidente da Republica e simplesmente autorizou a demolição do Monroe, acabando com o premiado projeto do pai de seu inimigo.

2. ROBERTO MARINHO: Jornalista. Chefe das Organizações Globo. É de conhecimento público o apoio dado por Marinho aos militares desde a época do Golpe. Aproveitando a grande circulação do Jornal O Globo, fez uma enorme campanha a favor da demolição do Monroe aproveitando-se da obra do Metrô. Quase que diariamente O Globo publicava editoriais exigindo o desaparecimento do Palácio. Fica claro que esse apoio aos militares visava sempre ter os benefícios que o governo federal podia proporcionar. No ultimo editorial publicado pelo Globo podia-se ler as seguintes palavras:

Por decisão do Presidente da Republica, o Patrimônio da União já está autorizado a providenciar a demolição do Palácio Monroe. Foi, portanto, vitoriosa a campanha desse jornal que há muito se empenhava no desaparecimento do monstrengo arquitetônico da Cinelândia. (…) O Monroe não tinha qualquer função e sua sobrevivência era condenada por todas as regras de urbanismo e de estética. Em seu lugar o Rio ganhará mais uma praça. Que essa boa noticia, que coincide com o fim das obras de superfície do metrô da Cinelândia seja mais um estimulo à remodelação de toda essa área de presença tão marcante na historia do Rio de Janeiro.

3. LUCIO COSTA: Arquiteto. Defendia também a demolição do Monroe. Com qual intuito? O de dar chance à arquitetura brasileira moderna? Ou ser mais um agraciado pelo Governo Federal quando fosse preciso? Costa chegou ao cúmulo de passar abaixo-assinados em associações de arquitetos para endossar a demolição do Monroe. Foi mal visto na época por seus colegas que nunca o perdoaram por esse gesto criminoso.

Do lado oposto à demolição estavam arquitetos, o CREA, o Jornal do Brasil, o Juiz Federal Dr. Evandro Gueiros Leite (que sugeriu que o Monroe sediasse o Tribunal Federal de Recursos, que estava sem sede), o Serviço Nacional do Teatro, a Fundação Estadual dos Museus, a Secretaria Estadual de Educação, e várias outros entidades importantes e principalmente o povo carioca. Em vão…

Portanto, essas três figuras pisotearam e riram dos apelos de todos e foram os principais responsáveis pelo desaparecimento de um importante pedaço de nossa historia.

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Enfim

Só se deslumbra com as obras de Niemeyer e os (des)feitos modernistas, quem desconhece um mínimo de história da arquitetura brasileira, principalmente aquela influenciada pela colonização portuguesa; e quem desconhece a importância da arquitetura, mesmo que eclética – expressando a composição também eclética da cultura brasileira, para compor ambientes urbanos e edifícios que estimulem em seus cidadãos determinadas posturas condizentes com a vida em uma sociedade civilizada… e adiantada.

Crônicas da Demolição

Rio – Casas e Prédios Antigos

Abaixo, reproduzo na íntegra, uma excelente reportagem de Marcelo Bortoloti, para a revista Época, sobre a influência de Lúcio Costa na exterminação do patrimônio arquitetônico brasileiro, especialmente, do Rio de Janeiro.

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Demolição de prédios históricos foi motivada por arquitetos modernistas

Lúcio Costa, o urbanista que projetou Brasília, defendia que só dois estilos mereciam preservação no Brasil. Como resultado, perdemos tesouros no Rio, em São Paulo e em outras capitais

“BASTARDO”
O Palácio Monroe, no Rio, demolido em 1976. Ele era um exemplo da arquitetura eclética, desprezada por Lúcio Costa (Foto: José dos Santos Affonso/Instituto Moreira Salles )

Nos anos 1930, a Avenida Central no Rio de Janeiro, atual Rio Branco, era uma versão tropical da parisiense Champs-Élysées, tomada por prédios ecléticos de influência francesa. Havia exemplares belíssimos, como o Hotel Avenida, com seus 220 quartos de luxo, e o imponente Palácio Monroe, primeiro projeto brasileiro a ganhar um prêmio internacional de arquitetura. Nessa mesma época, em São Paulo, ao longo da Avenida Paulista, espalhavam-se palacetes construídos por imigrantes europeus. Prósperos, reproduziam a linguagem arquitetônica de seus países de origem. Em Salvador, bairros como o Corredor da Vitória eram tomados por charmosos edifícios neoclássicos. Tudo isso foi abaixo, e não apenas por culpa da especulação imobiliária. A desfiguração dessas e de outras capitais brasileiras aconteceu com a complacência e o apoio de quem deveria preservá-las.

O Serviço do Patrimônio Histórico, atual Iphan, criado em 1937, tinha à frente um grupo de modernistas, influenciado pelo arquiteto Lúcio Costa. O grupo detestava a arquitetura eclética. Para eles, o verdadeiro estilo brasileiro era o colonial, abundante nas cidades históricas mineiras e nas igrejas barrocas do Rio e Salvador. Esse pensamento ajudou a construir uma visão parcial do passado brasileiro, em que não cabiam prédios ornamentados, de influência francesa. Para o grupo, quanto menos desses prédios existisse, melhor. “Os modernos viraram árbitros do que era bom ou ruim na arquitetura. Resgatavam o passado e diziam como seria o futuro. Para eles, a arquitetura eclética era um hiato na linha evolutiva das construções no país”, diz o arquiteto e antropólogo Lauro Cavalcanti. Ele é o autor de Dezoito graus – livro que acaba de ser lançado e que, ao romancear a construção do Palácio Capanema, narra o embate entre ideias divergentes quanto à arquitetura nacional.

A concepção do Palácio Capanema, em 1935, marca o início simbólico da caçada à arquitetura eclética. Naquele ano, o Ministério da Educação e Saúde abriu um concurso de arquitetura para a construção de uma sede no Rio. O vencedor, escolhido por uma comissão independente, foi Archimedes Memória, arquiteto renomado. Ele desenhou um edifício neoclássico, elogiado por mesclar temas indígenas com elementos do passado brasileiro. O então ministro, Gustavo Capanema, considerou o projeto pavoroso. Pagou o prêmio, mas não quis construí-lo. Com a aprovação do presidente Getúlio Vargas, chamou o arquiteto Lúcio Costa para projetar algo moderno. Nascia assim o Palácio Capanema. O prédio se tornou um marco por motivos diversos, além da importância arquitetônica. Ele deu início à parceria entre Costa e Oscar Niemeyer (que posteriormente fariam Brasília e projetariam a arquitetura brasileira no exterior). E abrigou o Serviço do Patrimônio Histórico, sob o comando de Costa e seu grupo. Eles passaram a decidir o que deveria ou não ser preservado.

MEMÓRIA
A Avenida Rio Branco, no Rio. De 70 prédios, sobraram dez (Foto: reprodução Biblioteca Nacional/Ag. Sincro)

A nova arquitetura deveria ser limpa e racional, como professava o arquiteto franco-suíço Le Corbusier. As construções do passado que mereciam preservação eram as de estilo colonial. Costa via uma afinidade entre os dois momentos da história, que formariam a linha evolutiva da autêntica arquitetura brasileira. A herança deixada por Costa e seu grupo na proteção do patrimônio é ambígua. Sua contribuição foi de inegável importância naquele momento em que a arquitetura colonial corria risco iminente. Antes da criação do Serviço do Patrimônio, a Igreja da Sé, em Salvador, primeira grande catedral do Brasil, foi colocada abaixo para a construção de uma avenida. No entanto, a recusa sistemática da arquitetura eclética que resplandecia nas grandes cidades abriu espaço para que fossem cometidos crimes irreparáveis contra o patrimônio histórico brasileiro.

A política oficial de proteção foi completamente direcionada. Da fundação do Iphan até os anos 1970, foram tombados pouco mais de 600 prédios. Destes, 529 eram do período colonial. Lúcio e seu grupo também protegiam a arquitetura moderna, produzida por eles próprios. O Palácio Capanema foi tombado em 1948, um ano após sua inauguração. A Igreja da Pampulha, construída por Niemeyer, foi tombada um ano antes. Enquanto isso, sem proteção, boa parte da arquitetura eclética brasileira sucumbiu. Dos mais de 70 edifícios que havia ao longo da Avenida Rio Branco, no Rio, restaram dez. Em São Paulo, dos grandes casarões da Avenida Paulista, sobraram quatro.

No Rio, então capital federal, ocorreram as maiores transformações. O Iphan resistiu a tombar prédios importantes como o Theatro Municipal e a Biblioteca Nacional. Na década de 1970, o Clube de Engenharia e o Instituto dos Arquitetos do Brasil começaram a pressionar pelo tombamento dos edifícios ecléticos restantes na Avenida Rio Branco. A pressão começou quando iam demolir os prédios do Jóquei Clube e do Derby, para dar lugar a um arranha-céu. A proposta era que se tombassem esses dois e outros sete, entre eles o Theatro, a Biblioteca Nacional, o Palácio Monroe, o Tribunal de Justiça e o Clube Naval, último conjunto eclético remanescente da avenida original. Costa já estava aposentado, mas mesmo assim redigiu um parecer que foi lido em reunião do Iphan, em 1972. Dizia que o Serviço do Patrimônio se dispôs a excluir de sua alçada os prédios de estilo eclético, por considerá-los fora da linha legítima da evolução arquitetônica. Chamava o prédio do Clube Naval de “medíocre” e o do Tribunal de “insignificante”. Posicionava-se contra o tombamento da Biblioteca Nacional e se referia ao “aviltado pavilhão Monroe cuja presença estorvante já não se justifica”.

MEMÓRIA
A Avenida Paulista. De dezenas de casarões, sobraram quatro (Foto: Museu da Energia)

Depois do parecer, o Iphan desistiu do tombamento do conjunto. Foram preservados, individualmente, apenas a Biblioteca Nacional, o Theatro Municipal e o Museu de Belas-Artes. No mesmo ano, os proprietários demoliram o prédio do Jóquei e do Derby. Em 1976, foi abaixo o Palácio Monroe, apesar de várias manifestações contrárias e da linha do metrô que passaria por baixo dele ter sido modificada apenas para preservá-lo. O arquiteto Ítalo Campofiorito, de 82 anos, que trabalhou com Costa no Iphan, lembra da implicância dos modernistas com o Monroe. “Le Corbusier tinha horror àquele prédio, achava que tinha de ser retirado dali, porque segundo ele era um exemplo do que não se deve fazer em arquitetura”, diz. Maria Elisa Costa, filha de Lúcio, explica o pensamento do pai: “Ele fazia uma distinção entre coisas acadêmicas de boa qualidade, ou seja, merecedoras de respeito, e coisas ‘bastardas’ que ele desprezava, como o Monroe”.

A ira de Costa caiu sobre outros prédios. Um era a sede do Ministério da Agricultura, construída na Praça XV para uma exposição internacional, em 1922. Em parecer de 1972, ele afirmava que a demolição daquela “almanjarra de concreto” lhe “seria do maior agrado”. Em outro parecer, de 1978, que sacramentou sua derrubada, dizia: “Por sua falta de estilo, por sua desproporção, por sua feiura congênita, já nasceu bastardo”. O edifício foi demolido no final dos anos 1970. A política foi adotada nacionalmente. A cidade de São Paulo, que cresceu com os imigrantes no século XIX, não era de grande interesse para os modernistas, por guardar poucos exemplos da arquitetura colonial. Luís Saia, chefe do Iphan em São Paulo e responsável por todos os Estados do Sul, observou: “O gótico da Catedral da Sé, o romântico do Mosteiro de São Bento, o pretendido colonial da Igreja do Carmo são coisas estilisticamente espúrias e infelizes”. Em 1937, Mário de Andrade, que também trabalhava no Serviço do Patrimônio, escreveu numa publicação oficial: “Vagar assim pelos mil caminhos de São Paulo, em busca de grandezas passadas, é trabalho de fome e de muita, muita amargura. Procura-se demais e encontra-se quase nada”. Com essa perspectiva, não se via valor em conjuntos arquitetônicos como o da Avenida Paulista. Praticamente tudo foi abaixo. “O que aconteceu na Avenida Paulista é uma tragédia nacional. São Paulo foi marginalizada, por causa de uma leitura da identidade brasileira que excluía o imigrante”, diz Paulo Garcez, professor de arquitetura da Universidade de São Paulo (USP).

O bairro do Recife Antigo, na capital pernambucana, também tinha uma feição eclética desde que foi reformulado, no início do século passado. Por isso, só obteve o tombamento nos anos 1990. Nesse meio-tempo, prédios antigos foram demolidos ou desconfigurados. Belo Horizonte, fundada no final do século XIX e predominantemente eclética, tampouco contou com proteção. Perdeu o Teatro Municipal e muito do casario antigo. Em Salvador, só foram tombados o centro histórico colonial e alguns exemplares de igrejas e conventos da mesma época. O centro histórico de Porto Alegre horrorizava Costa, pela predominância da cor ocre, característica da arquitetura eclética alemã e italiana. O conjunto resistiu por sorte e só foi tombado em 2003. Antes disso, foram abaixo prédios históricos, como a antiga sede da Caixa Econômica Federal.

"Arquiteto"

“Arquiteto”

Nos anos 1980, a criação de órgãos de proteção estaduais e municipais deu maior diversidade – e generosidade – ao olhar responsável pelo zelo com o patrimônio. No Iphan, as novas gerações de técnicos reconhecem a política enviesada do passado. Ainda que o ponto de vista de Costa e dos modernistas tenha ajudado a moldar as cidades brasileiras e influenciado a maior parte da intelectualidade, não chegou a atingir, como pretendia, o gosto da população. Mantém-se a preferência do público pelos “bolos de noiva”, prédios com fachadas repletas de detalhes decorativos e mistura de estilos. Hoje, o Palácio Capanema, no centro do Rio, exemplar magnífico da arquitetura moderna, recebe eventualmente a visita de um ou outro estudioso. Um pouco adiante, os turistas se apinham na Biblioteca Nacional, exemplo da arquitetura eclética.