Já falei bastante de perdão neste site. Mas sempre sem me atentar muito para o fato de que não dá para falar de perdão, sem falar também daquilo que causa a sua necessidade: a CULPA

Não aponta esse dedo pra mim

Não aponta esse dedo pra mim

A definição mais simples deste sentimento, é que a culpa é uma sensação de que há algo de errado, seja com os outros, seja com a realidade, seja, por fim, de que há algo errado conosco.

Podemos portanto afirmar que há dois tipos de culpa:

Aquela que atribuímos a algo externo a nós, como pessoas, instituições, acaso, azar, realidade, deus etc.

E aquela que atribuímos a nós mesmos.

Sobre a culpa que atribuímos a fatores alheios a nós, já falei bastante nesses textos: 123

Contudo, sobre esse tipo de culpa, uma visão mais profunda e espiritual da vida nos levará a concluir que em última instância, somos nós mesmos os responsáveis por tudo que nos acontece, mesmo aqueles acontecimentos indesejados provocados intencionalmente pelos outros. Segundo essa visão espiritual, são fatos que visam nos fazer evoluir e, de algum modo que não podemos compreender, foram necessários.

Por isso, quero tentar abordar aqui a culpa que colocamos sobre nós mesmos.

Essa culpa pode ser percebida pela sensação de que fizemos algo errado, ou de que deixamos de fazer algo que deveria ter sido feito, causando com isso prejuízos aos outros, ou a nós mesmos. Sensação esta que resulta num dos piores sentimentos que podemos experimentar, porque é também o mais difícil de se libertar: o de que há algo profundamente errado conosco.

Essa sensação deriva de mentes muito idealistas. Sabe-se lá porque motivo, elas acreditam que tudo, e elas mesmas, deveriam sempre ser perfeitas, e agir com perfeição.

Condição que nunca alcançarão.

Sobre os erros cometidos

Todos passam, em maior ou menor grau, pela sensação de culpa por erros cometidos.

Eu poderia ter feito mais do que eu fiz.

…ou…

Não devia ter feito o que fiz.

Mas ninguém pode oferecer o que não tem. Não podemos querer ter oferecido a perfeição, se não a temos.

Precisamos aceitar que somos limitados e que não temos tanto poder assim. Fizemos o que podíamos, de acordo com nossas capacidades e visão da situação naquele momento.

Melhor manter a consciência mais tranquila com isso. Não podemos continuar alimentando a esperança de que o passado fosse diferente.

Não será.

Essa esperança, motivada pela culpa, não vai fazer o passado se tornar diferente do que foi.

Mas pode emperrar o futuro. A culpa nos prende ao passado, impede nosso foco no presente, e nos faz temer o futuro.

Você foi reprovado(a)

Aqui precisamos notar a íntima relação que a culpa tem com a noção de erro. O erro se caracteriza por um ato que vai em desacordo com a obtenção de um resultado, mas também se caracteriza por uma postura que vai em descordo com um padrão de comportamento pré-estabelecido, uma moral, um padrão adotado e mantido pelo grupo que considera tal postura um erro.

Como é fundamental para nossa saúde emocional nos sentirmos acolhidos por quem respeitamos, passamos a compreender porque a culpa nos causa tanta dor: É a dor da rejeição alheia, motivada por nossos atos que foram em desacordo com o que esperam; é a dor da desaprovação.

O que de certa forma é uma dor ridícula, porque externa nossa dependência em relação à opinião e aos valores dos outros.

Os quais muito provavelmente não pagam nossas contas.

A civilização é o avanço de uma sociedade em direção à privacidade. O selvagem tem uma vida pública, regida pelas leis de sua tribo. Civilização é o processo de libertar o homem dos outros homens.

Ayn Rand – Filosofa russo-americana

Sobre a sensação de que há algo de errado conosco

Segundo Robert Holden, nossa vida é fundamentalmente uma história de dois Eu’s.

Um Eu incondicional, e um Eu aprendido, conhecido como ego.

(É uma divisão também adotada em outras linhas de pensamento, onde se denominam consciente x subconsciente, ou consciente x inconsciente, etc)

Nenhuma quantidade de aperfeiçoamento do ego (cursos, títulos, habilidades) pode compensar qualquer falta de auto-aceitação do Eu incondicional.

E o que é esse eu incondicional?

Segundo o mesmo autor, o eu incondicional é a CRIANÇA que ainda subsiste dentro de nós. É aquela porção do nosso ser que veio ao mundo: sem máscaras, sem armaduras. E como elas, as crianças, essa porção do nosso ser não tem uma imagem para o mundo ver, não tenta ser boazinha, nem agradável, nem tem muitas pretensões, nem ambições. Ela não se esforça para ser digna de amor, porque ela sabe que já é digna de amor, e agiria assim intuitivamente, se o seu Eu aprendido permitisse.

O problema da falta de auto-aceitação surge quando esse eu aprendido, ou seja, nosso ego, acredita que há algo  errado conosco baseado numa auto-imagem anterior que ele adotou como parâmetro de perfeição. Como se vê de modo muito debilitado, ele não admite se expor aos outros desta maneira. Desta forma, não nos aceitamos e não aceitamos demonstrações de amor, porque cremos que não as merecemos.

“Há alguma coisa errada comigo. Não sou atraente. Não tenho valor. Não mereço ser bem sucedido. Não mereço ser amado.”

Não há mais inocência, não há mais permissão. Só culpa e negação.

É uma questão de dignidade. É quando nosso ego não permite que consideremos nem mesmo essa criança dentro de nós, que é plenamente digna de amor, que merece ser acolhida simplesmente por existir, e que tem o direito inalienável à dignidade.

Vamos fazer um exercício de imaginação: Presumindo que você não se aceita como é. Há um motivo para isso, certo? Vamos supor que abandonassem na sua casa um bebê com este mesmo problema pelo qual você não se aceita. O que faria? Acolheria com carinho e cuidado, ou jogaria o bebê no lixo? Assumindo que você tenha um mínimo de humanidade no coração, evidentemente acolheria e cuidaria dela até proporcionar a ela um destino melhor.

Agora imagine que você é essa criança.

E então? Você merece mesmo – e vai deixar – ser jogada no lixo por esse seu ego perturbado?

Não valendo nada

A culpa vem do medo de não ser digno de amor. É uma crença nos desvalor. E porque se acredita nesse desvalor? Pela imagem distorcida que se tem de si mesmo(a) de que há algo de errado conosco, uma imagem doentia.

Assim, passamos a vida inteira lutando por amor, mas quando ele vem, não nos permitimos que sejamos amados. Nos sabotamos, porque nos sentimos sem valor.

A culpa vem do medo de um dia fomos dignos de amor, mas que agora, por algum motivo, não somos mais dignos de sermos amados. Ela sempre vem com uma história: Talvez sobre o que fizeram a você, ou sobre o que você fez a outro. Essa história já acabou, mas você sente como se fosse uma história sem fim, porque no fundo, você não aceita as coisas como são, nem se aceita como é.

O (seu) mundo não é só um lugar físico. É uma escolha.

Perdoar é escolher deixar pra trás. Escolher deixar ir, largar. É escolher deixar assim mesmo (pois é). Aceitar.

Dá pra mudar? Então mude. Não dá pra mudar? Então aceita e foca seu tempo e energia em novos objetivos… de preferência mais realistas.

Perdoar é deixar as coisas que nos feriram e que nos causaram culpa, ressentimento, medo, raiva etc, irem embora, ou ficarem por lá mesmo, no passado.

Nós permanecemos com o passado, porque nós temos medo de que o passado tenha sido nossa melhor chance para sermos felizes. Mas o que o perdão nos mostra, é que o presente SEMPRE será o melhor momento para a felicidade.

Só o perdão transforma o passado em história. E abre caminhos para um novo presente.

Você pode estar tão identificado com sua história de culpa, que tem receio de deixá-la para trás.

Ora, quem você será sem essa história e sem esse sentimento de desvalor?

A resposta é: Você voltará a ser inocente de novo.

Mas Jesus lhes ordenou: “Deixai vir a mim as crianças, não as impeçais, pois o Reino dos céus pertence aos que se tornam semelhantes a elas”. Mateus 19: 14

Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Mateus 18: 3

E vai voltar a se sentir completamente digno(a) de amor.

Abrindo caminhos

A auto-aceitação ativa a lei da atração (e aqui você descobre porque ela não funciona com você).

Quando você aceita a si mesmo, não somente você atrai coisas melhores para a sua vida, como você as aceita bem.

Você não as repele, você não as testa, nem se sabota, evitando-as.

Você dá boa vinda para as coisas boas.

Aceitar-se exatamente como você é, é seu passaporte para sua própria vida.