O trabalho dignifica – ou “indigna”?

Trabalhando para o sistema

Trabalhando para o sistema

O trabalho… Idolatrado por uns, renegado por (muitos) outros. É bem verdade que o trabalho nos torna gente grande, mais dinâmicos, espertos e sociáveis. Entretanto, adiante, segue uma visão não tão positiva nem convencional sobre trabalho:

Hoje, folheando um jornalzinho daqueles classificados populares aqui da região, ao bater o olho no título EMPREGOS da seção de trabalho, acabei lendo sem querer como ESCRAVOS.

Sempre ouço dizerem: “Pra quem quer trabalhar, serviço não falta”. É verdade. Passando os olhos rapidamente pela seção de empregos do jornal, vi uma abundante lista de oportunidades de trabalho. Mas todas tem algumas características em comum. São os trabalhos mais braçais, chatos e maçantes. Todos de um tipo de serviço que, se fosse bom MESMO, os contratantes seriam os primeiros a querer ocupar as vagas. São tarefas tão insalubres e desagradáveis que mesmo quem está ferrado na vida, não aguenta com elas por muito tempo. Justamente por isso estão sempre ali, disponíveis, nos classificados.

A verdade é que a despeito de toda a tecnologia atual, o serviço braçal está tão ou mais presente nesta nossa época quanto esteve há alguns séculos. Naquelas épocas eram executados por escravos ou mesmo pessoas “livres”, mas de pouco poder na sociedade. Lembre-se ainda que foi um sistema social baseado na mão de obra escrava que permitiu aos cidadãos gregos dedicarem-se à atividades “mais nobres” e com isso nos deixar um grande legado intelectual. Platão demonstrou esta visão: “É próprio de um homem bem-nascido desprezar o trabalho”.

Hoje, não é diferente. Mesmo uma parte dos trabalhos ditos intelectuais nada mais são do que tarefas repetitivas, chatas, maçantes e mal remuneradas. São aqueles tipos de tarefas as quais, se fosse agradável executá-las, não seriam remuneradas.

A escravidão existe ainda hoje, percebeu? Evidentemente, não como antigamente, quando era um regime desumano e cruel. Hoje a coisa evoluiu de tal forma que todos fazem questão de serem meio escravinhos do sistema. É a tal obsessão pelo emprego. A coisa melhorou um pouco, é claro. ao menos a noite podemos ir pra casa, ver a familia, etc. Mas normalmente tão cansados que só queremos descansar o que for possível, para recarregar novamente as energias para o dia seguinte.

O regime em que vivemos hoje é um tipo de semi-escravidão, ou servidão. Mas todo mundo acha absolutamente normal dispensar cerca de 11 horas (ou mais) por dia (* veja o cálculo ao fim do texto), durante 5 dias da semana (ou mais), em função de uma tarefa voltada aos outros. Ninguém questiona esse paradigma, aliás, quem questiona e consegue tocar a vida de forma alternativa (e mais humana), é visto como vagabundo (oi?). As pessoas não gostam que lhes mostre que estão erradas e, ao contrário, seguem cultuando o sacrifício como um dos únicos atos inquestionáveis que se pode adotar. Não quer ir naquela festa chata hoje a noite? Diga que vai trabalhar! Todo mundo vai respeitar e lhe ter como uma pessoa valorosa e abnegada. Pois é…

Então você pode dizer: Sim, eu passo 10 horas por dia em função do meu emprego, mas eu ganho por isso. Ok! Ganha o que? 1000, 1500, 2000 levando em conta uma média salarial nacional. Vai me dizer que você consegue fazer absolutamente tudo que quer dentro do padrão de vida que segue e ainda sobra pra poupança no fim do mês? Pode ser que você especificamente consiga, mas não é esse o consenso sobre o tema. Na verdade a maior parte do seu pagamento já está comprometida. Comida, moradia, transporte, vestuário, cultura, na verdade são necessidades básicas. O seu dinheiro já está destinado antes mesmo de o receber. Sem contar que, se você for registrado, dificilmente recebe o salário inteiro, pois lhe são descontados o INSS e outros impostos.

É assim, o trabalho braçal, ou mesmo aquela tarefa “leve” mas extenuante e esgotante, como atender gente, conferir informações, andar pra lá e pra cá, é um tipo de atividade tão xarope que dificilmente os chefes públicos e os patrões e  chefes vão querer fazer. Dessa forma, precisam que alguém faça. Preferem que seja VOCÊ.

Eles sabem que você tem algumas necessidades físicas que precisam ser atendidas para você sobreviver. E a única forma de sobreviver é oferecer algo de valor para a sociedade em troca de que ela lhe permita suprir suas necessidades. Mas se você tivesse somente de satisfazer suas necessidades naturais (comer, morar), não precisaria oferecer TANTO ASSIM em troca, não precisaria trabalhar tanto. Então o governo começou a dizer (em tempos imemoriais) que parte do que você ganha era dele (e gostaram da idéia porque ela permanece até hoje). Dessa forma, você precisava trabalhar mais ainda para poder compensar a parte que o governo lhe tira com os impostos.

Da mesma forma, a indústria descobriu que adultos são crianças grandes, e que assim como as crianças, eles ADORAM alguns brinquedinhos. E que também assim como as crianças, os adultos ficam competindo entre si pra ver quem tem o brinquedo mais mais legal. Os brinquedos? Carros, eletrônicos, celulares, roupas de moda, e tudo o mais sem o que poderiamos viver naturalmente bem. Criaram o que chamamos de padrão de vida. Agora além de comer,vestir e morar, você tem que PARECER. E quanto melhor o padrão que você quiser viver, isto é, quanto melhor quiser PARECER, mais terá que trabalhar para sustentar-se, oferecendo AINDA mais valor à sociedade em forma de mais trabalho, de forma que ela lhe retribua o padrão de vida desejado.

Isso se chama círculo vicioso. A solução de um problema aprofunda o dano provocado pelo problema.

Governo e sistema econômico formado por indústrias e comércio querem que você fique preso e submisso a eles. Estando preso, você fica vulnerável à manipulação. Quando o governo lhe tira 30% do seu ganho, você terá que trabalhar muito mais para compensar, e quanto mais tempo você dispende trabalhando, menos tempo terá para cobrar do próprio governo os benefícios prometidos em troca do imposto. Quando a mídia implora sua atenção lhe oferecendo os produtos mais fabulosos e lhe convencendo que você não viverá sem eles, você compra, compra, compra e terá que trabalhar mais, mais e mais para a própria indústria e comércio para poder continuar adquirindo seus brinquedinhos fantásticos.

Você vive numa prisão e não sabe

Bem, EU SEI QUE GENERALIZEI AS COISAS para poder explicar meu ponto de vista. Para que a sociedade possa se manter e permitir-nos uma vida minimamente decente, ela tem que funcionar assim mesmo. Chefes públicos, patrões e líderes NÃO SÃO OS ÚNICOS VILÕES. Você não pode esperar que sejam bonzinhos e cuidem de você e de seus interesses.

O vilão também é você

Foi você que se deixou levar pelos paradigmas que lhe impuseram, sem questionar. Você desconsiderou a si mesmo ao não levar seu futuro a sério. Bibliotecas, livrarias e sebos estão repletos de ÓTIMOS LIVROS com idéias fantásticas que poderiam mudar sua vida. Mas o que se pode fazer se você prefere gastar seu tempo com facebook, whatsapp, novelas, filmes americanos, bebendo, comendo.

Lamento muito por você!

E bom trabalho! 🙁

* Soma aí: meia hora pra ir até o seu trabalho, meia hora pra voltar e mais as 2 horas de almoço que, por mais que possam ser passadas fora das empresas, são vividas totalmente em função do trabalho, de forma que somam aí no mínimo 11 horas preciosas e diárias em função do trabalho.

Texto de 30 de outubro de 2010.