Tenho passado umas noites com meu pai no hospital. Ele precisou de uma intervenção rápida, que já foi realizada, e agora aguardamos a alta.

Para mim, um hospital é um dos ambientes mais emocionalmente insalubres que tem, perdendo somente para presídios.

No catolicismo, e  também no espiritismo, há uma ideia de purgatório. O purgatório é visto como um lugar sombrio, para onde vão as almas dos mortos que não optaram por uma existência mais amorosa, que ignoraram Deus a vida toda etc. No purgatório, as almas se arrastam num ambiente árido, estéril, murmurando suas angústias e gemendo suas dores. Segundo essa visão, são capazes de ficar por lá o equivalente a anos e anos terrenos, até que algum dia admitam sua impotência e clamem por socorro aos céus. Donde então anjos de luz surgem e resgatam essas almas sofridas para um lugar melhor, mais acolhedor e iluminado.

Nessas últimas noites me dei conta que os hospitais não passam de verdadeiros purgatórios aqui mesmo, na Terra.

Especialmente nos pronto-socorros, onde as pessoas chegam desesperadas. No pronto-socorro vi uma senhorinha com Alzheimer, outro jovem gravemente enfermo, um senhor de meia idade com início de AVC, outro com AVC já ocorrido, não conseguindo mais falar, outro jovem com perna quebrada porque caiu do telhado, outro com calcanhar quebrado por queda de moto, outro recém-descoberto um câncer no estômago, outra senhora com varizes estouradas, outro desgraçado que vomitou na enfermaria por 3 vezes, outro com tuberculose, outro que gemia alto longamente até conseguir expelir qualquer coisa do pulmão pela boca etc… etc…

e dezenas de outros etcs a cada maldita noite de hospital.

Já na terceira noite, no andar de cima, onde um senhorzinho cuja longa lista de males me escapa da memória, pernoitou com meu pai, vi este senhorzinho passar uma (de muitas noites) numa angústia infindável, entre uma ansiedade por ir embora, um clamor repetitivo por alguns nomes da família, e já no fim da madrugada, um repetir sem fim de um delírio onde suplicava, imerso em seus devaneios: “abre essa porta, pelo amor de deus, abre essa porta, pelo amor de Deus… abre essa porta, PELO AMOR DE DEUS”.

Com exceção desse senhorzinho delirante, daquela trupe toda do pronto-socorro, não vi qualquer vestígio de busca por algo transcendental que lhes tirasse daquela angústia. Para não dizer que não ouvi o nome de Deus ser sequer brevemente suspirado, lembro da senhorinha com Alzheimer já lá pelas 3 e pouco da manhã, encontrar certa brecha em sua falta de memória, para, em meio a uma dificuldade desumana para respirar, clamar num sofrido suspiro:

“Ai Jesus…”

Pelo que não pude conter o riso, nesta experiência imersiva na irônica tragédia da desgraça humana.

Missão – Enfermeiro

Enfermeiros são seres iluminados, designados pelas divindades para, na maioria das vezes amenizar o sofrimento humano, muito embora em certas ocasiões a medicina atual mais se preocupe em prolongá-lo.

Enfermeiros são, na verdade pessoas dotadas de um sentimento fortemente humanitário, que fazem dos cuidados aos outros sua causa e seu propósito de vida. Propósito este consistindo do sacrifício de se conviver com refugos humanos: velhos, doentes, caducos, decadentes, decrépitos, às vezes, massas humanas disformes e asquerosas, mas ainda assim, humanas.

Não há explicação. Como é que, na juventude, com tantas profissões disponíveis, o sujeito num certo momento estala os dedos e decide:

“Já sei. Serei enfermeiro, irei cuidar de doentes e estropiados e conviver com que houver de pior em termos de sofrimento humano, diariamente.”

Se isso não for missão de Deus, não sei mais o que poderá ser.

Sensibilidade

Para nós, desabituados ao sofrimento humano, sensibilizados demais por uma mensagem midiática sentimental, em que até um vídeo de um cachorro remexendo seu amiguinho morto na rua nos faz chorar, as primeiras experiências envolvendo algum ente querido num hospital são pavorosas, emotivas e desgastantes. E nestas ocasiões não entendemos a frieza de alguns enfermeiros.

Entretanto quando você passa a conviver com este cenário diariamente, seu coração se endurece na justa medida de sua sanidade mental e emocional. Se o enfermeiro e outros profissionais da medicina se envolvem demais com os pacientes, acabarão morrendo primeiro que eles, porque o desgaste emocional pode não ser suportável.

Meu pai está já há 6 anos em situação de estar recorrendo aos serviços hospitalares. Na terceira noite em que passei com ele, já não estava nem aí para o sofrimento humano. Entendi que, por uma razão difícil de explicar, as coisas são assim mesmo. Todo ser animal vai morrer e antes de isso acontecer, provavelmente vai sofrer bastante. O sofrimento sempre existiu, existe e sempre vai existir, muito embora o avanço tecnológico ocorrido nos últimos 100 anos, especialmente o médico, permitiu grande redução desse sofrimento. O fato último é que o que o Universo quer de nós, nesta nossa inusitada e improvável existência, é EVOLUÇÃO, e nesta demanda, ele nos será implacável e impiedoso.

O sofrimento continua existindo e recomendarei sempre que me for possível que você aceite que é da natureza da existência animal e humana que o sofrimento exista e que, sensibilizar-se demais com isso poderá lhe causar muitos danos psicológicos e intelectuais.

Assim como a pele caleja para suportar as pressões constantes, um certo nível de calejamento em nosso coração também é salutar para vivermos em paz nesse mundo-cão.

Angústia existencial

As angústias humanas podem ser físicas e também espirituais, você sabe. O que não costumamos atentar é para o fato de que quase sempre o sofrimento físico é consequência direta do desleixo espiritual da pessoa.

Há várias definições para espiritualidade. Uma delas é aquela bem prática, da qual gosto muito, que sugere amar o próximo como a si mesmo. Nesta sugestão, muitas vezes lembramos só de amar o próximo e esquecemos de amar a si mesmo. E amar a si mesmo é cuidar de si, cuidando da própria saúde física, do próprio equilíbrio psico-mental.

No hospital você vê que boa parte das pessoas esquece dessa segunda parte. As pessoas não se amam, não se respeitam, se largam na vida de qualquer jeito, e depois o corpo cobra o preço, e não entendem o porquê.

Estas breves porém reflexivas noites no hospital me fizeram lembrar demais das bem-aventuranças de Cristo:

3  Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;

4  Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;

5  Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;

6  Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;

7  Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;

8  Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus;

9  Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;

10  Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus;

11  Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo, falarem todo mal contra vós por minha causa.

12  Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.

13  Vós sois o sal da terra; e se o sal se tornar insípido, com que se há de salgar? para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.

14  Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte,

15  Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa.

16  Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.

Mateus 5:3–16

Jesus, seja lá quem tenha sido, seja lá quem tenha dito as palavras acima – e cabe aqui dizer que acredito piamente que foi Jesus Cristo, MESMO que as tenha dito – tinha uma empatia incomum para a época. O olhar que ele lançou sobre a angústia humana e traduziu nas tocantes palavras acima não era qualquer olhar. Era o olhar de um humanista, de um homem sensível à dor alheia, de um salvador.

Importante destacar, no trecho acima, da missão que ele nos dá de levar essa luz, esse entendimento, essa sabedoria, esse consolo, esse olhar de atenção ao outro e essa visão de salvação, para os ignorantes.

Porque, se há uma coisa que eu vi nesses dias, ou melhor dito, nessas noites de hospital, é que o povo é muito ignorante e é vítima direta e diária dessa ignorância.

Ignorância de si mesmo, das coisas da vida, e principalmente, das coisas do espírito.

E que é de bom tom que as trevas sejam iluminadas.

E que a candeia que as iluminam somos nós.

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Imagem: El Purgatorio. Iglesia Nuestra Señora de Altagracia (Caracas-Venezuela)