Anos atrás, comentei aqui sobre o perdão e seus significados.

Era um entendimento então recente, onde comentava que perdoar é aceitar a realidade como ela é; que mágoa acontece quando a realidade – na forma de pessoas, fatos e circunstâncias – não corresponde ao que imaginávamos ou esperávamos (ou mais precisamente, ao que queríamos).

Então aconteceu, de um ano pra cá, que descobri que temos NÍVEIS de aceitação: Até certo ponto, conseguimos aceitar muitas coisas – e perdoá-las, de fato; situações que nos machucam muito, inclusive, já que, pois bem, acabamos por compreendê-las e aceitá-las, aprendendo a conviver com elas.

Mas eis que pode acontecer, E ACONTECE, da vida nos mostrar outras situações, muito piores, as quais nos é impossível aceitar.

Então me vi não conseguindo (não querendo, quem sabe…) perdoar certas coisas. Me dispus a não admitir certos absurdos. Me peguei pela primeira vez na vida atormentado (além do normal) por circunstâncias inaceitáveis.

E já antes dessas situações explodirem (porque já se prenunciavam), vinha percebendo que a dificuldade de aceitá-las estava minando minha energia, tirando minha paz, bloqueando meus caminhos.

Essa dificuldade tem alguns nomes, como mágoa, rancor, ressentimento… são realmente sentimentos negativos e venenosos que contaminam seu sangue e sua alma. E a manutenção desses sentimentos por muito tempo cria uma resistência espiritual que emperra sua vida (a qual, sem eles, já não estaria grande coisa rs).

Conclusão: Não perdoar é um atraso – literal – de vida.

Ilusão e desilusão

Não conseguir perdoar, por não aceitar certas coisas, é fruto de uma grande desilusão, daquela que vai além dos nossos níveis normais de aceitação, como comentei acima.

A ilusão se caracteriza pela crença convicta num cenário que só existia na sua cabeça de jerico visão das coisas. Mais cedo ou mais tarde essa ilusão, que é mais ou menos como uma redoma de vidro a sua volta, se torna insustentável e quebra. E os estilhaços caindo no chão lhe assusta, lhe deixa em choque. E o que você vê para além da redoma é bem desagradável.

Mas sempre esteve lá. E se chama realidade.

A não aceitação da realidade como ela é, é que cria a mágoa. É uma negação. E como é essa realidade? Dura, crua, impiedosa… um lugar onde pessoas amadas frustram nossa confiança, onde fatos alheios a nossa vontade mudam tudo, onde aprendemos a não esperar muito de Deus. O ceticismo que surge após a amargura da desilusão vem como uma resposta às perdas (de coisas que só existiam na nossa imaginação), vem enfim, como uma lição para não repetirmos mais o mesmo fiasco.

Por um lado, é bom que surja mesmo, não? Já tá na hora de aprender!

Uma floresta... amazônica

Uma floresta… amazônica

Mas por outro, a desilusão, que por si já é uma tragédia pessoal, só não é maior do que permanecer desiludido(a) e amargurado(a), não conseguindo catalisar essa amargura num ceticismo, mais aberto e razoável. Porque o fato é que os sentimentos que alimentam essa amargura, como o ressentimento, o rancor, e a mágoa, são nomes “adultos” para sentimentos que, para as crianças, chamamos por outro nome: birra.

E a birra, sabemos, é um sentimento narcisista fundamentado numa auto-importância exagerada, que nos dá razão para batermos o pezinho e nos sentirmos no direito de nos vingarmos, se possível for.

Mas alimentar essa birra não é inteligente, é na verdade, infantil, com a diferença de que nas crianças ela raramente passa de poucas horas. Já nos adultos, pode durar (e atrasar) o resto da vida.

Eu até entendo essa amargura birrenta: Enfrentar a realidade pós desilusão significa admitir que não somos tão especiais assim, que não merecemos as coisas como queríamos, que a vida não está nem aí para nós, que falhamos miseravelmente em algum ponto (bingo!) o que pode resultar num insuportável sentimento de culpa.

Já manter a mágoa e o ressentimento significa sustentar a ideia de que somos sim especiais, e que merecemos sim tudo que desejamos, e que a falha (ou culpa) não foi nossa, e sim, veja só… dele, dela, do pai, da mãe, do chefe, do governo, de deus, do azar… Ah esse mundo cruel que não nos compreende e não nos trata como merecemos.

Homer Simpson sabe há tempos que se a culpa é dele, ele pode transferi-la para quem quiser. A culpa de fato é um fardo pesado e desconfortável e assumi-la é um ato dilacerante; porém coloca-la nos outros é aliviante e confortador.

Uma visitinha desagradável

Algumas palavras de Luiz Gasparetto sobre o assunto, retiradas de uma transcrição de uma palestra dele – os parênteses são meus:

“Eu sonhei que…”
“Eu lutei por…”
E, FINALMENTE, naquele dia, eu vi que…

ESTE  foi o dia em que a VERDADE lhe visitou. Foi a ilusão que causou o desgosto, o sofrimento, não a verdade.

“Eu sofri porque perdi o …”

Quantas perdas você vai ter que sofrer na vida para aprender que está (vivendo) na ilusão? Você acha a realidade cruel, mas (o problema) é a sua ilusão (estar mentindo para si mesmo). Todo seu ódio é orgulho ferido (não admitir que vivia sob ilusão).

[…]

Não vamos aqui falar de perdão para desatar nós, pois ele não existe, existe APENAS o seu orgulho e a sua má vontade para deixar a ilusão. Nós somos péssimos para lidar com a realidade.

[…]

Duas coisas importantes para você ficar bem:
1 – ACABAR com as ilusões
2 – NÃO CRIAR novas ilusões
BENEFÍCIO: NÃO SOFRER MAIS

[…]

Quando vê que a situação não vai mesmo de jeito nenhum, jogue fora e ilusão, e pare com a teimosia!

Luiz Gasparetto

Perdoar é libertar

Perdoar é libertar

Generosidade

Qualquer ato generoso é um ato que tira o foco de nós mesmos e o desloca para o bem alheio. Perdoar, no sentido de anular a birra e aceitar que as coisas serão diferentes do que idealizáramos, é um ato deveras generoso, de cordial sujeição e racional resignação aos limites da vida, que ao libertar os outros, liberta-nos em medida até maior.

A etimologia da palavra perdão confirma:

Perdão vem do Latim perdonare, onde per significa “total, completo”, e donare significa “dar, entregar, doar”.

Perdoar, segundo meu entendimento, é libertar(-se).

É a autêntica prova de amor que deseja o bem estar do outro, mesmo que longe. É entregar tudo que foge do nosso controle para Deus. É evitar julgar, e tentar aceitar o outro incondicionalmente, e aceitar as circunstâncias com sobriedade. É enxergar a divindade em todos. É presumir um propósito divino em tudo o que acontece. É admitir as próprias limitações e acolher a vontade divina do jeito que ela se manifesta.

Como saber se perdoei?

Essa resposta esta aí, bem dentro de você.

Perdoar não significa esquecer, e sim, lembrar sem sofrer.

Portanto, uma maneira de saber se você perdoou, é tentar lembrar da situação e prestar atenção ao que sente.

Se conseguir olhar para o ocorrido com leveza, identificando a lição aprendida, desejando que o outro seja feliz e siga seu caminho em paz, sentindo seu coração leve, tendo a sensação de que tudo ficou para trás, são fortes indícios de que você perdoou.

Assunto complicado…

!

!

Porque normalmente a ilusão é fundamentada por uma forte esperança e crença numa situação melhor, dado que muitos de nós têm fortes dificuldades quanto a própria autoestima ou amor-próprio ou ainda, quanto à própria realidade, que muitas vezes é uma grande b*sta. Quando você se desilude, fica tão abalado porque muito além de uma ilusão, perdeu a esperança de uma condição melhor e sonhada; porque se verá de novo obrigado(a) a enfrentar a própria realidade de novo. A mágoa é uma negação desse enfrentamento com a verdade.

A verdade é dura, crua e dolorida, mesmo.

Chego a pensar: Se devemos cuidar para não andarmos por aí desiludidos e amargurados, ou seja, de mãos dadas com a realidade que é sempre sem graça e amarga, melhor será que encontremos outra ilusão para nos agarrarmos e continuarmos tocando a vida, fingindo que está tudo bem e que vai dar tudo certo?

Estarei eu realmente certo quando grito e repito aos quatro ventos que a vida é uma grande ilusão e feliz daquele que pode se iludir?

Ser feliz é (ter a sorte de) poder se iludir?