Vuelvo al Sur

Vuelvo al Sur

Eu simpatizo com esta ideia.

Mas não acho que vai algum dia acontecer, e muito menos, que precisava ser assim tão necessária.

Esta luta não é por mero separatismo, segregação ou que tais.

É por justiça econômica. Aliás, não é nem por justiça econômica. Assim como de modo geral não nos importamos de pagar impostos, desde que eles sejam bem aplicados, o pessoal do sul não se importaria nem um pouco se parte do dinheiro de seus impostos fosse aplicada para o desenvolvimento do nordeste e da amazônia. O problema é que essa parte é usada para o desenvolvimento da vida pessoal dos coronéis do nordeste: Sarneys, Calheiros, Collors, entre outros.

As pessoas têm dificuldade de enxergar critérios. Quem simpatiza com a separação, assim o faz com base no critério político econômico e está em busca basicamente de justiça. Daí vem o pessoal com critérios sentimentais já se abraçando às lágrimas e acham o cúmulo, como se nunca mais as pessoas de ambos os lados pudessem viajar (e inclusive, morar) para um lado e outro.

E dica: O sul pode ser xenofóbico, rancoroso, discriminador e tudo mais de legal que costumam nos chamar, mas é desse mesmo sul que o “brasil do norte” dependeria, depois, tanto de oportunidades, como de mercado.

Abaixo, dois textos interessantes sobre o tema:

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27 de outubro de 2014

Vejo muitos brasileiros lamentando o “preconceito” dos sulistas em relação aos nordestinos devido à vitória mínima de Dilma, obtida sobretudo no eixo Norte-Nordeste.

É uma análise simplista, para não dizer canhestra, de quem olha para o resultado da eleição.

A queixa da metade meridional do país é mais do que compreensível: é justa.

Assim como são compreensíveis e justas as razões do voto da metade setentrional do país.

A divisão do Brasil pelo voto acontece exatamente porque o Brasil não está dividido, e deveria estar.

Você não entendeu, claro. Explico: o Brasil não é uma federação, como deveria ser.

Os Estados não têm autonomia.

A arrecadação é centralizada em Brasília.

A lei que vale para o Rio Grande do Sul é a mesma que vale para o Acre.

Trata-se de uma insanidade num país dessas dimensões.

Se cada Estado tivesse sua autonomia e sua constituição própria, se a maioria dos recursos ficasse na cidade e não fosse para o centro do país para depois voltar, se o Brasil fosse uma federação de fato, a corrupção seria menor e as necessidades de cada localidade seriam melhor atendidas.

Essa distorção, essa centralização quase criminosa, foi obra do mais solerte ditador que o Brasil teve: Getúlio Vargas.
O Brasil ainda está pagando por todos os erros e crimes cometidos na Era Vargas. Quase tudo de ruim que há no país hoje foi construído por Vargas, na sua ânsia de poder. A ditadura militar foi, de certa forma, uma consequência do governo Vargas. E a corrupção que assola o país hoje, da mesma forma.

Os Estados do Sul-Sudeste-Centro-Oeste não têm as mesmas aspirações dos do Norte-Nordeste. Não têm os mesmos problemas. E, se tivessem, as soluções teriam de ser diferentes.

David Coimbra, jornalista da RBS, de Porto Alegre.

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A divisão do Brasil e as eleições: trocando em miúdos

28 de outubro de 2014

Uma eleição para a presidência da República não deveria despertar tantas paixões.

Desperta porque o Brasil está torto administrativa e filosoficamente.

O resultado da eleição demonstra isso.

A divisão do Brasil em dois demonstra isso.

Essa divisão não é ruim. Nem boa. É natural.

É impossível que um país desse tamanho não tenha profundas diferenças entre suas regiões.

Um seringueiro do Acre tem necessidades e pleitos diferentes de um pequeno agricultor da Serra gaúcha. O sertão de Minas é diferente do litoral catarinense.

Isso não quer dizer que um seja melhor do que outro. Nem quer dizer que o país deveria ser dividido em vários países. Quer dizer, apenas, que as diferenças precisam ser respeitadas.

O Brasil não respeita as diferenças das suas diversas populações. Donde, a justa revolta de quem se vê suplantado no voto por uma pequena maioria.

As manifestações preconceituosas contra os nordestinos, os xingamentos, os insultos, tudo aquilo é bobagem. É irrelevante. Eu, aqui, quando escrevo algo com que você concorda, você me chama de gênio. Quando escrevo algo do que você discorda, você me chama de imbecil. Não posso me enfatuar quando sou chamado de gênio, nem me deprimir quando sou chamado de imbecil. Tenho de compreender que as pessoa se aferram às suas opiniões e que as defendem de todas as formas, mesmo formas que, volta e meia, não são as mais sensatas. Tenho de compreender que, neste mundo de redes sociais, todos estão expostos à sua própria tolice. Antes, só os jornalistas escancaravam sua própria tolice. Agora, ser tolo está ao alcance de todos.

Um Brasil que realmente fosse uma federação atenuaria muitos desses conflitos. O país deveria dar autonomia e liberdade para estados e municípios resolverem seus próprios problemas.

Vou dar argumentos técnicos, não políticos: os municípios arrecadam impostos, mandam dinheiro para o governo central, que devolve parte para os municípios, sobretudo em forma de programas, que é a maneira como se administra o Brasil. Não tem lógica. É burocrático, ineficiente e facilita a corrupção. Nesse caminho de ida a Brasília e retorno para o município, muito dinheiro se esvai.

Você sabe quantos programas para municípios existem no governo federal?
229.

Duzentos e vinte e nove.

Entre esses, programas como o “Arca de Letras”, “Cultura Afro-Brasileira”, “Artesanato Brasileiro”, “Feira do Peixe”, “Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil”, “Brasil Quilombola” e até um com designação muitíssimo apropriada, “Olho Vivo no Dinheiro”.

Olho vivo no dinheiro, de fato. Todos esses programas necessitam de quem os administre, mais seus assessores, secretárias, sedes, carros, material de escritório etc. São estruturas dispendiosas e muito suscetíveis à corrupção.
Então, o Brasil funciona assim: um prefeito identifica que, na sua cidade, é preciso asfaltar determinada rua. Ele vai a Brasília, ou manda um deputado aliado ir a Brasília para pedir recursos. Esses recursos, se aprovados, são enviados através de um desses programas. Só que, não raro, para que os recursos sejam liberados, o deputado se compromete a apoiar determinada demanda do governo no Congresso.

Está criada a espiral da corrupção.

Agora vou contar como funciona num país em que a federação existe de fato, em que cada estado e município tem autonomia e independência, sem que se descaracterize a união: os Estados Unidos, país tão grande e complexo quanto o Brasil.

Vamos pegar duas áreas fundamentais para o cidadão: educação e segurança pública.

Nos Estados Unidos, a educação e a segurança são municipais. A polícia de cada cidade conhece os bairros, os moradores e os seus problemas. Os moradores da cidade também conhecem os policiais, e sabem como trabalham.

Na educação, os, digamos, primeiro e segundo graus são públicos e gratuitos. As escolas públicas são ótimas, até melhores do que as privadas. Já as universidades são todas pagas, inclusive as públicas. Mas os pais não pagam as faculdades dos filhos: os filhos pagam depois de formados e só depois de já estarem empregados, com uma espécie de crédito educativo que se estende por boa parte da vida, como uma prestação de casa própria. Só que todos, ricos ou pobres, chegam às universidades com condições iguais, porque a educação básica e fundamental é excelente.

A escola do meu filho é totalmente gratuita, inclusive o material, os cadernos, lápis de cor, canetas. Pela refeição, pagamos 3 dólares por dia. Se não tivéssemos condições de pagar isso, mandaríamos uma carta para a escola e a alimentação seria gratuita. Os alunos também têm direito a assistência médica gratuita, até os 18 anos.

Outro dia, nos chamaram para falar da reforma da escola. Era uma reunião com todos os pais. Foi apresentado o orçamento já aprovado para a reforma: 98 milhões de dólares, cerca de 250 milhões de reais, bancados pelo imposto municipal.

Esse dinheiro não foi para Washington para voltar como um programa. Foi arrecadado pelo município, investido no município e será fiscalizado pela sociedade civil, pelo cidadão, pelos pais que viram para onde vai o dinheiro, como será gasto e quando.

Os programas do governo federal brasileiro parecem lindos e bem intencionados, mas são apenas instrumentos de poder do reizinho de Brasília, são mecanismos burocráticos, que aumentam os gastos públicos e facilitam a corrupção, para não dizer que a estimulam.

Todo esse sistema é terrível para o país, mas é muito caro ao governo central, porque dá poder, dá instrumentos de barganha política, de distribuição de cargos e favores. Isso é fruto do paternalismo criado lá na ditadura Vargas, que se estende filosoficamente (e administrativamente, e materialmente) até hoje no Brasil.

O Brasil não precisa de salvadores da pátria, os pobres não precisam de heróis ou de defensores, nem de um governo benevolente. Não, não, quando alguém disser que é defensor dos pobres, fuja dele. É um demagogo que só fará mal ao país. O cidadão brasileiro precisa, sim, de um Estado que proteja os mais fracos e permita que todos tenham as mesmas chances. Precisa que a independência, a iniciativa pessoal e a criatividade sejam incentivadas. Precisa de bom senso.

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Os dois textos aqui citados foram encontrados via Maristela Moura.