Bipolaridade política: Da euforia à depressão em quatro dias

Hoje são balas de borracha, amanhã, de chumbo

Hoje são balas de borracha, amanhã, de chumbo

Comecei a acompanhar esses protestos que vem ocorrendo em toda a nação no dia 17, dia do primeiro grande protesto nacional.

Como todos, vinha achando tudo muito lindo e muito bonito.

Porém, foi tragicômico vir observando, nestes últimos dias, algumas pessoas no Facebook bem engajadas em acompanhar e compartilhar os fatos, mudando de opinião paulatinamente. Primeiro a euforia de ver o povo na rua, depois o silêncio confuso de quem já não entendia o que vinha acontecendo, e agora, um desconversar pessimista e reflexivo sobre um futuro possivelmente obscuro.

Hoje termino o dia com a impressão de que o povo está sendo (mais uma vez) usado como massa de manobra para a instalação de um golpe de Estado. Várias pessoas estão se ligando. E espero profundamente que estejamos errados.

O problema de se falar em golpe de Estado, é que gera medo e desmobiliza, e pode ser exatamente isso que estão tentando. Não acredito que há alguma conspiração orquestrando tudo isso visando um golpe, seja da esquerda, seja da direita.

Mas de uma coisa tenho certeza: O Brasil está cheio de oportunistas. E que não vão perder a oportunidade de capitalizar em cima da mobilização popular que segue as cegas, reclamando de tudo, mas sem reivindicar algo prático, claro, objetivo e factível.

A situação da política brasileira está tão desgraçada que há até quem veja num golpe a única maneira de “limpar” o país e começar do zero. A roubalheira tá demais e não sabemos nem por onde começar.  Eliane Cantanhêde detalha o porquê:

Exaustão

Condenados pelo Supremo têm mandato de deputado e, não bastasse, viram membros da Comissão de Constituição e Justiça.

Um pastor de viés racista e homofóbico assume nada mais, nada menos que a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Um político que saíra da presidência do Senado pela porta dos fundos volta pela da frente e se instala solenemente na mesma cadeira da qual havia sido destronado.

O arauto da moralidade no Senado nada mais era do que abridor de portas de um bicheiro famoso. E o Ministério Público, terror dos corruptos, é ameaçado pelo Congresso de perder o papel de investigação.

A chefe de gabinete da Presidência em SP usa o cargo e as ligações a seu bel-prazer, enquanto a ex-braço direito da Casa Civil, afastada por suspeita de tráfico de influência, monta uma casa bacana para fazer, possivelmente… tráfico de influência.

Um popular ex-presidente da República viaja em jatos de grandes empreiteiras, intermediando negócios com ditaduras sangrentas e corruptas.

Um ex-ministro demitido não apenas em um, mas em dois governos, tem voz em reuniões estratégicas do ex e da atual presidente, que “aceitaram seu pedido de demissão”.

Ministros que foram “faxinados” agora nomeiam novos ministros e até o vice de um governador tucano vira ministro da presidente petista.

Na principal capital do país, incendeiam-se dentistas, mata-se à toa. Na cidade maravilhosa, os estupros são uma rotina macabra.

Enquanto isso, os juros voltam a subir, impostos, tarifas e preços de alimentos estão de amargar. E os serviços continuam péssimos.

É por essas e outras que a irritação popular explode sem líderes, partidos, organicidade. Graças à internet e à exaustão pelo que está aí.

A primeira batalha foi ganha com o recuo dos governos do PT, do PSDB e do PMDB no preço das passagens.

Mas, claro, a guerra continua.

Tá feia a coisa, não?

Mas ainda assim, acho que um golpe seria desastroso, um retrocesso para as nossas liberdades, e a prova contundente que falhamos como democracia. Há quem pense que vivemos numa ditadura disfarçada de democracia. Não, na ditadura as balas não são de borracha.

Finalizo com um comentário que pesquei em meio à enxurrada de comentários que se encontra pelo Facebook:

“Tá na hora do gigante ir pra casa, refletir, se organizar, definir estratégias inteligentes e aprender o que é manifestar. Ir pra rua sob todas as bandeiras (e com a cara de pau de proibir outras bandeiras), sem liderança (alguém que organize, se responsabilize), bem… não é bem isso uma manifestação – Pourriel Gratuit”