<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Crônicas &#8211; RONAUD.com</title>
	<atom:link href="https://www.ronaud.com/tag/cronicas-e-contos/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://www.ronaud.com</link>
	<description>Textos e Mensagens para Reflexão</description>
	<lastBuildDate>Thu, 19 Jun 2025 01:18:18 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=7.0.2</generator>
	<item>
		<title>De Mais Ninguém</title>
		<link>https://www.ronaud.com/musica/de-mais-ninguem/</link>
					<comments>https://www.ronaud.com/musica/de-mais-ninguem/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ronaud Pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Oct 2024 16:33:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Bom gosto]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Músicas]]></category>
		<category><![CDATA[Vídeos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.ronaud.com/?p=29757</guid>

					<description><![CDATA[Ali pelos idos de 2002, eu estava estacionado na frente do bloco administrativo da Univali &#8211; Campus de Itajaí, na Rua Uruguai. Porta do motorista aberta, eu de pé, com os braços apoiados sobre o carro. Aguardava uma namoradinha, aluna do Curso de Letras, para um dos nossos esparsos encontros. No cd-player do carro, tocava [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/zbS_QFjGE8w?si=iv6PdJmM9j7dMJl_" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p>Ali pelos idos de 2002, eu estava estacionado na frente do bloco administrativo da Univali &#8211; Campus de Itajaí, na Rua Uruguai.</p>
<p>Porta do motorista aberta, eu de pé, com os braços apoiados sobre o carro.</p>
<p>Aguardava uma <em>namoradinha</em>, aluna do Curso de Letras, para um dos nossos esparsos encontros.</p>
<p>No cd-player do carro, tocava esta música acima, num volume baixo.</p>
<p><em>De Mais Ninguém</em>, de <ins>Marisa Monte/Arnaldo Antunes</ins> <del>(e que acreditava ser de Paulinho da Viola)</del>, um chorinho cantado magistralmente por Marisa Monte, acompanhada do grupo Época de Ouro.</p>
<p>Enquanto a aguardava, um senhor se aproximou, para entrar no seu carro, estacionado ao lado do meu.</p>
<p>Magro, cabelos lisos, grisalhos, aparentava ser, ou algum professor, ou administrador da Univali.</p>
<p>Simpático, olhou para mim e, com palavras que já não lembro, me parabenizou pelo &#8220;bom gosto&#8221; musical.</p>
<p>Desde então, vinte e poucos anos se passaram, sempre que ouço esta música, melancólica sim, porém um retrato do sentimentalismo brasileiro, lembro daquele senhor.</p>
<p>Nunca mais o vi, não sei sequer o seu nome, entretanto, sua gentil aprovação musical ecoa até hoje na minha mente.</p>
<p>E ele nem sabe disso. Por causa dele, tenho grande gosto pelo <em>Chorinho</em>, o mais autêntico estilo musical brasileiro.</p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/1BQmRIMyJBg?si=TupSxDSQ18PVSU1F" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p>E lamento ao perceber que os jovens brasileiros de hoje sequer sabem que existiu um estilo chamado <em>chorinho</em>.</p>
<p>Mas tudo bem.</p>
<p>Nós não temos a dimensão do poder de um elogio sincero, autêntico, feito no momento certo.</p>
<p><a href="https://www.ronaud.com/atitude/o-poder-das-palavras-elogios-e-gestos-de-reconhecimento/">Que sejamos mais generosos em nossos elogios</a>, especialmente com os jovens.</p>
<p>Esses elogios podem redirecionar certas posturas pelo resto da vida.</p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/qRZ_GStnku4?si=hpIRkSnSeKzrTG8U" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://www.ronaud.com/musica/de-mais-ninguem/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Música &#8211; Uma máquina do tempo</title>
		<link>https://www.ronaud.com/amor/musica-uma-maquina-do-tempo/</link>
					<comments>https://www.ronaud.com/amor/musica-uma-maquina-do-tempo/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ronaud Pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Jan 2023 02:47:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Músicas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.ronaud.com/?p=28348</guid>

					<description><![CDATA[Música, uma máquina do tempo &#8211; Crônica Os vizinhos faziam churrasco, as crianças corriam pra lá e pra cá, gritando e rindo. No ar uma sequência de músicas sertanejas, muito antigas, quase caipiras, as quais seguiram-se algumas músicas também muito antigas da dupla Zezé di Camargo e Luciano. Ele tinha algumas dessas músicas em mp3 [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Música, uma máquina do tempo &#8211; Crônica</h3>
<p>Os vizinhos faziam churrasco, as crianças corriam pra lá e pra cá, gritando e rindo.</p>
<p>No ar uma sequência de músicas sertanejas, muito antigas, quase caipiras, as quais seguiram-se algumas músicas também muito antigas da dupla Zezé di Camargo e Luciano.</p>
<p>Ele tinha algumas dessas músicas em <em>mp3</em> e, instigado pela lembrança de músicas tão antigas, procurou-as no notebook, para ouvi-las novamente. Enquanto procurava, na lista, surgiu alguns nomes da dupla Roxette, que fez muito sucesso entre as décadas de 80/90.</p>
<p>Desistiu do Zezé di Camargo e colocou esses sons do Roxette pra tocar.</p>
<p>A cada faixa, voltava mais e mais no tempo, lá pro começo da década de 90, quando entrava para a <a href="https://www.ronaud.com/espiritualidade/lua-em-capricornio/">adolescência reclusa que marcaria sua vida</a>, por mais que tal período se faça ausente de suas memórias, talvez até por uma amnésia voluntária, que vem poupar a psique de algumas lembranças doloridas, e já desnecessárias.</p>
<p>Que viagem! Para a época em que ficava isolado no seu quarto, com seu rádio, seu gravador <em>cassette</em> e passava os dias à espera de suas músicas favoritas, para gravá-las nas fitas. Jovens desta década não conseguirão jamais imaginar que o rádio era o melhor e ás vezes, <em>único</em> companheiro das pessoas antes do surgimento do computador e, logo depois, da internet.</p>
<p>Logo depois, encontrou as músicas de <a href="https://www.ronaud.com/musica/toque-de-midas/">Zezé di Camargo e Luciano</a>, também do final da década de 90 e início dos anos 2000. Que belas canções, profundas, melódicas! Quantas lembranças! Uma viagem no tempo.</p>
<p>Inevitável! Música vai, música vem, lembrou da grande paixão de sua vida. Aquela que, como não poderia deixar de ser, <a href="https://www.ronaud.com/amor/sofrer-por-amor/">não deu certo</a>. Abriu sua foto no <em>instagram</em>. Ficou olhando por alguns segundos. Lamentou muito não ter dado certo.</p>
<p>Poderia ter dado certo, se os deuses colaborassem minimamente, mas devem ter tido maiores preocupações na época. E tudo que poderia ter dado errado, que não tenha ultrapassado o <em>status</em> de tragédia, deu errado. Tudo deu tão miseravelmente errado que hoje ele pegou aversão à história, à pessoa, aos tantos impiedosos episódios que atrapalharam aquele que poderia ter sido um grande amor, aquele vivido nos épicos.</p>
<p>Os anos passaram e ele foi esquecendo tudo, ou, talvez não esquecendo, mas realmente deixando para trás. A não ser nesses momentos, ao ouvir essas verdadeiras máquinas do tempo que são essas melódicas e tristes canções, como as da dupla Roxette ou da dupla Zezé di Camargo e Luciano.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://www.ronaud.com/amor/musica-uma-maquina-do-tempo/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Pastéis e Recomeços</title>
		<link>https://www.ronaud.com/vida/pasteis-e-recomecos/</link>
					<comments>https://www.ronaud.com/vida/pasteis-e-recomecos/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ronaud Pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Nov 2022 20:29:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Vida]]></category>
		<category><![CDATA[Atenção]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Cura]]></category>
		<category><![CDATA[Renovação]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.ronaud.com/?p=28217</guid>

					<description><![CDATA[Pastéis e Recomeços &#8211; Crônica Eu sou o doido dos pastéis e coxinhas. Não posso ver uma lanchonete que paro para comer esses lanches tipicamente brasileiros. Em Itajaí, onde vou a cada passo cuidar de um prédio de aluguéis, havia uma pastelaria excelente, no bairro São João. Quem cuidava era uma Senhora, que aparentava ter passado [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_28221" style="width: 310px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-28221" class="wp-image-28221 size-medium" src="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2022/11/P_20210720_143101-300x238.jpg" alt="Pastel é vida" width="300" height="238" srcset="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2022/11/P_20210720_143101-300x238.jpg 300w, https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2022/11/P_20210720_143101-1024x811.jpg 1024w, https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2022/11/P_20210720_143101-768x608.jpg 768w, https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2022/11/P_20210720_143101-1536x1217.jpg 1536w, https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2022/11/P_20210720_143101-2048x1622.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /><p id="caption-attachment-28221" class="wp-caption-text">Pastel é vida</p></div>
<h3>Pastéis e Recomeços &#8211; Crônica</h3>
<p>Eu sou o doido dos pastéis e coxinhas.</p>
<p>Não posso ver uma lanchonete que paro para comer esses lanches tipicamente brasileiros.</p>
<p>Em Itajaí, onde vou a cada passo cuidar de um prédio de aluguéis, havia uma pastelaria excelente, no bairro São João.</p>
<p>Quem cuidava era uma Senhora, que aparentava ter passado dos 50 anos.</p>
<p>Os pastéis eram excelentes, e nos últimos tempos, lanche e café eram servidos em pratos e xícaras ornamentados, dando ao momento um ar de botequim dos anos 50.</p>
<p>Até que um dia, ao chegar lá, havia uns homens jogando sinuca numa sala posterior, um senhor de pé com uma pinga na mão, e um sujeito meio esquisito atendendo no balcão. Cheiro de cerveja secando vindo dos engradados de garrafas vazias. Havia um ar de boteco no espaço. Não gostei.</p>
<p>Pedi o pastel e café de sempre, mas o que recebi foi um pastel velho e mole, e um café morno. Comi com dificuldade.</p>
<p>Ao pagar, a esposa do senhor do balcão, de aspecto mais simpático também estava lá. Vi que iniciavam novas atividades no espaço.</p>
<p>Perguntei sobre a antiga dona do estabelecimento, se tinha vendido o ponto, e disseram que ela precisou se desfazer do negócio, porque estava com câncer e precisava se tratar.</p>
<p>Foi uma tristeza. Além de ver o local que melhor me atendia deixar de funcionar, a responsável pelos detalhes que tornavam o local especial, estava muito doente, a ponto de abandonar tudo para se cuidar.</p>
<p>E assim ficou.</p>
<p>Nas proximidades do meu <a href="https://kitnetitajai.com.br/">predinho de kitnets</a>, montaram uma pequena padaria, num prediozinho antigo de esquina há mais ou menos um ano, talvez um pouco menos. Já havia uma padaria ali muito antes, mas tinha fechado e o local vinha desocupado.</p>
<p>Era bom também, atendimento, lanches, espaço. Até o preço das coisas era bom, tudo muito barato. E talvez por isso mesmo, não sobreviveram.</p>
<p>Ô tristeza. Há um mês passei lá e já estava fechado.</p>
<p>Eu tenho mesmo um certo azar com isso. Eventualmente algum estabelecimento ou prestador de serviço com o qual me identifico acaba fechando, sumindo.</p>
<p>Mas logo depois, vi que estavam pintando a fachada novamente, e que no letreiro pintaram o mesmo nome daquela pastelaria do São João que eu frequentei muitas vezes.</p>
<p>Ontem, estava aberta. E fui lá comprar aquele lanchinho de sempre.</p>
<p>Eis que quem me atende, era aquela Senhora que havia ficado doente.</p>
<p>Ela me reconheceu. Trocamos algumas palavras.</p>
<p>Fiquei muito, muito, muito feliz de vê-la voltando às suas atividades novamente, agora até mais próximo do meu endereço na cidade.</p>
<p>Havia algo diferente nela. Naqueles tempos atrás, ela andava pra lá e pra cá trabalhando, parecia meio anestesiada, no automático.</p>
<p>Desta vez, ela parecia mais jovem, mais lúcida, mais presente.</p>
<p>Parecia estar realmente prestando atenção ao que fazia.</p>
<p>A inconsciência parece ser o mais imperdoável dos pecados.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://www.ronaud.com/vida/pasteis-e-recomecos/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A Crônica da Casa Brasileira</title>
		<link>https://www.ronaud.com/pensamentos/a-cronica-da-casa-brasileira/</link>
					<comments>https://www.ronaud.com/pensamentos/a-cronica-da-casa-brasileira/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ronaud Pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 May 2022 01:22:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.ronaud.com/?p=27885</guid>

					<description><![CDATA[O quintal revirado O mato crescendo Os cocôs do cachorro As tranqueiras na garagem O gato subiu pela cortina O varão da cortina soltou da parede A cortina desbotou com o sol, e do nada, rasgou O sofá manchou, depois rasgou, depois quebrou A pia entupiu O MDF da pia molhou, e estufou O arroz [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O quintal revirado<br />
O mato crescendo<br />
Os cocôs do cachorro<br />
As tranqueiras na garagem<br />
O gato subiu pela cortina<br />
O varão da cortina soltou da parede<br />
A cortina desbotou com o sol,<br />
e do nada, rasgou<br />
O sofá manchou,<br />
depois rasgou,<br />
depois quebrou<br />
A pia entupiu<br />
O MDF da pia molhou,<br />
e estufou<br />
O arroz queimou<br />
O sal derrubado,<br />
deu azar<br />
O açúcar do café,<br />
derrubado na mesa<br />
O café pingou na blusa&#8230;<br />
branca<br />
A taça quebrou<br />
A cerveja congelou<br />
O gás acabou<br />
O vaso entupiu<br />
A fossa transbordou<br />
A resistência do chuveiro queimou<br />
A água acabou<br />
Entrou ar no cano,<br />
a água não desce mais<br />
A lâmpada queimou<br />
A planta secou<br />
A cadela deu cria,<br />
9 filhotes, quer um pra você?<br />
A energia caiu<br />
O modem queimou<br />
O varal arrebentou<br />
O vidro da janela <em>tá</em> sujo<br />
A casa não pára limpa!<br />
A criança riscou a parede<br />
Tocaram a campainha,<br />
saíram correndo.<br />
A parede mofou<br />
O reboco caiu<br />
A pintura do muro manchou<br />
A tinta descascou<br />
A torneira goteja<br />
A conta encarece<br />
Conta atrasada<br />
A goteira da chuva<br />
A telha quebrada<br />
O vendaval destelhou<br />
A calha transbordou<br />
Tem que limpar a calha<br />
O Blindex quebrou<br />
O cupim corroeu a madeira<br />
O ranger da porta<br />
A chave quebrou<br />
O barulho, da mola, do colchão,<br />
indiscreto<br />
O som alto do vizinho<br />
Os gemidos da vizinha<br />
Os gatos se acasalando<br />
O cigarro do vizinho<br />
A <em>cannabis</em> da rapaziada<br />
O vizinho bêbado<br />
Os cachorros reviraram o lixo<br />
O mato crescendo na calçada<br />
O portão eletrônico estragou<br />
O condomínio atrasado<br />
O IPTU atrasado<br />
Meu Deus, vão tomar minha casa!<br />
<em>Minha Casa, Minha Vida</em><br />
E a casa nem é minha,<br />
é da Caixa Econômica.</p>
<p>/ Ronaud /</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://www.ronaud.com/pensamentos/a-cronica-da-casa-brasileira/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Noite de Festa &#8211; Virgínia Woolf</title>
		<link>https://www.ronaud.com/arte/noite-de-festa-virginia-woolf/</link>
					<comments>https://www.ronaud.com/arte/noite-de-festa-virginia-woolf/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ronaud Pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Oct 2021 03:22:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Festas]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Sensibilidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.ronaud.com/?p=25822</guid>

					<description><![CDATA[Todos nós já fomos em festas; alguns mais, outros menos. Aniversários, Comunhões, Formaturas, Casamentos, Festas Juninas, Churrascos entre amigos ou família, bailes ou baladas. As sensações vão se somando, influenciando nosso humor, quase sempre no sentido da alegria, da diversão, do encanto. Chega um momento, especialmente os que bebem, que já não sabem ao certo [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Todos nós já fomos em festas; alguns mais, outros menos. Aniversários, Comunhões, Formaturas, Casamentos, Festas Juninas, Churrascos entre amigos ou família, bailes ou baladas.</p>
<p>As sensações vão se somando, influenciando nosso humor, quase sempre no sentido da alegria, da diversão, do encanto. Chega um momento, especialmente os que bebem, que já não sabem ao certo quem são, onde estão, por que estão, ou o que será deles dali pra frente.</p>
<p>Poucos de nós temos a sensibilidade de notar essas sensações: cores, cheiros, sons, luzes, conversas, palavras, sabores e outras influências que performam os ingredientes que fazem com que cada festa seja única.</p>
<p>A autora Virgínia Woolf escreveu um conto com essa sequência de cenas de uma noite de festa, que a princípio parecem sem sentido, mas que, se refletirmos, não são muito diferentes das nossas noites de festa.</p>
<blockquote><p>Pois que uma festa torna as coisas, pensou, ou muito mais ou muito menos reais; (O vestido novo)</p></blockquote>
<h3>Noite de Festa &#8211; Conto de Virgínia Woolf</h3>
<p>Ah, mas vamos esperar um pouco! — A lua está no alto; o céu, aberto; e lá, erguendo-se numa elevação contra o céu, com árvores por cima, está a terra. As nuvens prateadas e fluidas contemplam ondas do Atlântico. Na esquina da rua, o vento sopra de leve e me levanta o casaco, estendendo-o delicadamente no ar antes de o deixar curvar-se e cair, como o mar que agora engrossa para rebentar nos rochedos e depois se afasta de novo. — A rua está quase vazia; as venezianas das janelas estão fechadas; as vidraças amarelas e vermelhas dos navios lançam por um momento um reflexo sobre o azul flutuante. Doce é o ar da noite. As criadas deixam-se ficar ao redor da caixa de correio ou namoram na sombra da parede onde a árvore derrama sua chuvarada escura de flores. Tal como na casca da macieira as mariposas tremem sugando açúcar pelo longo filamento negro da probóscide. Onde estamos? Que casa pode ser a casa da festa? Todas essas são pouco comunicativas, com suas janelas cor-de-rosa e amarelas. Ah — dobrando a esquina, ali no meio, lá onde a porta está aberta —, espere um momento. Vamos observar as pessoas, uma, duas, três, que se precipitam na luz como as mariposas vão de encontro ao vidro de uma lanterna que ficou no chão da floresta. Eis um táxi que passa depressa para o mesmo local. Dele desce uma dama volumosa e pálida, que entra na casa; um senhor vestido para a noite, em preto e branco, paga ao chofer e a segue, como se ele também estivesse muito apressado. Venha, porque senão nos atrasamos.</p>
<p>Sobre todas as cadeiras há almofadinhas macias; nesgas tênues de gaze enroscam-se por sobre sedas brilhantes; velas vertem chamas periformes nos dois lados do espelho oval; há escovas de fino casco de tartaruga; frascos talhados com lavores de prata. Pode isto ter sempre esta aparência — não é isto a essência — o espírito? Alguma coisa dissolveu meu rosto. Coisa que aliás mal aparece em meio à névoa prateada da luz das velas. Pessoas passam por mim sem me ver. Como têm rostos, as estrelas parecem cintilar em seus rostos, através da rósea coloração da carne. A sala está repleta de figuras vívidas, contudo insubstanciais, que se postam eretas à frente de prateleiras listadas por inumeráveis volumezinhos; cabeças e ombros maculam quinas de molduras quadradas com douração; e a massa de seus corpos, lisos como estátuas de pedra, conglutina-se contra uma coisa cinzenta, tumultuosa, brilhante também, como que tendo água dentro, além das janelas sem cortinas. “Venha para o canto e vamos conversar.”</p>
<p>“Maravilhosos! Maravilhosos seres humanos! Espiritualizados e maravilhosos!”</p>
<p>“Porém eles não existem. Você não está vendo o lago, pela cabeça do Professor? Não está vendo o cisne nadar, pela saia de Mary?”</p>
<p>“Posso imaginar umas rosinhas de fogo espalhadas em torno deles.”</p>
<p>“As rosinhas de fogo não são senão como os vaga-lumes que vimos juntos em Florença dispersos pela glicínia, átomos flutuantes de fogo, que vão queimando enquanto voam — queimando, não pensando.”</p>
<p>“Queimando, não pensando. E assim todos os livros por trás de nós. Aqui está Shelley — aqui está Blake. Basta jogá-los no ar para ver seus poemas descerem como paraquedas dourados que rodopiam e brilham e vão deixando cair sua chuva de florações em forma de estrelas.”</p>
<p>“Quer que eu lhe cite Shelley? ‘Vamos! faz escuro no matagal sob a lua&#8230;’”</p>
<p>“Espere, espere! Não condense nossa atmosfera tão fina em gotas de chuva salpicando a calçada. Vamos respirar mais um pouco no pó de fogo.”</p>
<p>“Vaga-lumes na glicínia.”</p>
<p>“Bem cruel, reconheço; mas veja como as grandes floradas surgem diante de nós; vastos candelabros de ouro e roxo fosco pendentes dos céus. Você não sente como a bela douradura nos tinge as coxas, quando entramos, e como as paredes cor de ardósia oscilam pegajosamente sobre nós, quando nos arremessamos, cada vez mais fundo, pelas pétalas, ou então se esticam como tambores?”</p>
<p>“O professor se agiganta sobre nós.”</p>
<p>“Diga-nos, Professor&#8230;”</p>
<p>“Madame?”</p>
<p>“Em sua opinião é necessário escrever gramáticas? E a pontuação? A questão das vírgulas de Shelley interessa-me profundamente.”</p>
<p>“Vamos sentar. Para dizer a verdade abrir janelas após o pôr-do-sol — eu de pé com as minhas costas — conversa todavia agradável — Sua pergunta, sobre as vírgulas de Shelley. Questão de certa importância. Ali, um pouco para a sua direita. A edição da Oxford. Meus óculos! O castigo dos trajes de noite! Não me aventuro a ler&#8230; Além do mais vírgulas&#8230; O tipo moderno é execrável. Concebido para corresponder à exiguidade moderna; pois eu confesso que encontro pouco de admirável nos modernos.”</p>
<p>“Nisso eu concordo inteiramente com o senhor.”</p>
<p>“Ah, é? Pois eu temia oposição. Na sua idade, nos seus — trajes.”</p>
<p>“Professor, eu encontro pouco de admirável nos antigos. Estes clássicos — Shelley, Keats; Browne; Gibbon; haverá uma página que o senhor possa citar inteira, um parágrafo perfeito, uma frase mesmo que não se possa ver emendada pela pena de Deus ou do homem?”</p>
<p>“Xi, Madame! Sua objeção tem peso, mas falta-lhe sobriedade. Além do mais a sua escolha de nomes&#8230; Em que câmara do espírito pode a senhora consorciar Shelley e Gibbon? A não ser de fato pelo ateísmo de ambos — Mas vamos ao ponto. O parágrafo perfeito, a frase perfeita; hum! — minha memória — e depois meus óculos, que eu larguei lá por trás, no parapeito da lareira. Garanto. Mas a sua crítica aplica-se à própria vida.”</p>
<p>“Certamente esta noite&#8230;”</p>
<p>“A pena do homem, imagino, poderia ter pouco trabalho para reescrever isso. A janela aberta — de pé na corrente de ar — e, permitam-me sussurrá-lo, a conversa destas senhoras, compenetradas e benevolentes, com opiniões exaltadas sobre o destino do negro que está neste momento mourejando sob chicote para extrair borracha para alguns dos nossos amigos envolvidos em amenas conversações aqui. Para desfrutar da perfeição da senhora&#8230;”</p>
<p>“Concordo com o senhor. Há que excluir.”</p>
<p>“A maior parte de tudo.”</p>
<p>“Mas, para demonstrar corretamente isso, temos de descer à raiz das coisas; pois temo que sua crença seja apenas um desses amores-perfeitos que são comprados e plantados para uma noite de festa e de manhã já estão murchos. O senhor mantém a exclusão de Shakespeare?”</p>
<p>“Madame, eu não mantenho nada. Estas senhoras me deixaram fora de mim.”</p>
<p>“São mulheres benevolentes, que armaram seu acampamento à margem de um dos riachos tributários de onde, colhendo ali caniços para flechas e mergulhando-os bem em veneno, com o cabelo entrançado e a pele pintada de amarelo, elas saem de vez em quando para plantá-los nos flancos do conforto; tais são as mulheres benevolentes.”</p>
<p>“Os dardos que elas atiram ardem. Isso, somado ao reumatismo&#8230;”</p>
<p>“O professor já se foi? Coitado do velho!”</p>
<p>“Mas, na idade dele, como ainda poderia ter o que, na nossa, nós já estamos perdendo? Quero dizer&#8230;”</p>
<p>“O quê?”</p>
<p>“Você não se lembra, bem na infância, quando, em conversa ou brincadeira, se a gente pisava no atoleiro ou alcançava uma janela ao cair, uma espécie de choque imperceptível congelava o universo numa sólida bola de cristal que se tinha um instante em mãos? Tenho certa crença mística de que todo o tempo passado e o futuro também, as lágrimas e cinzas das gerações, coagularam-se numa bola; éramos então absolutos e inteiros; nada então era excluído; e uma coisa era certa — felicidade. Mais tarde porém, quando a gente os segura, esses globos de cristal se dissolvem: há alguém falando sobre negros. Vê no que dá tentar dizer o que se tem em mente? Em contrassenso.”</p>
<p>“Precisamente. Porém que coisa triste é o bom senso! Que vasta renúncia ele representa! Ouça um instante. Distinga uma das vozes. Agora. ‘Tão frio deve parecer depois da Índia. Sete anos também. Mas o hábito é tudo.’ Isso é bom senso. É acordo tácito. Todos fixaram os olhos em alguma coisa visível para cada um. Não tentam mais olhar para a centelha de luz, a pequena sombra roxa que pode ser terra fértil no horizonte, ou apenas um brilho esvoaçante na água. É tudo compromisso — tudo segurança, o modo mais comum de relações entre seres humanos. Por isso não descobrimos nada; nós paramos de explorar; paramos de acreditar que há alguma coisa para descobrir. ‘Contrassenso’, você diz; querendo dizer que eu não verei seu globo de cristal; e me envergonho um pouco de o tentar.”</p>
<p>“A fala é uma rede velha e rasgada, pela qual os peixes escapam quando é jogada neles. O silêncio talvez seja melhor. Venha até a janela, vamos tentar.”</p>
<p>“Coisa estranha é o silêncio. A mente se torna como uma noite sem estrelas; mas de repente um meteoro desliza, esplêndido, atravessando a escuridão, e se extingue. Por essa diversão, nunca dizemos suficientemente obrigado.”</p>
<p>“Ah, somos uma raça ingrata! Quando olho para minha mão no peitoril da janela e penso no prazer que ela já me deu, como tocou em seda e cerâmica, em paredes quentes, como se espalmou na grama úmida ou banhada de sol, deixou o Atlântico esguichar por seus dedos, apoderou-se de jacintos e narcisos, colheu ameixas maduras, nunca por um segundo desde que eu nasci deixou de me falar de quente e frio, molhado ou seco, espanta-me que eu use esta maravilhosa composição de carne e nervos para escrever invectivas à vida. No entanto é isso o que fazemos. Pense bem a esse respeito, a literatura é o registro do nosso descontentamento.”</p>
<p>“Nossa insígnia de superioridade; nossa ambição de honrarias. Você há de admitir que gosta mais das pessoas descontentes.”</p>
<p>“Gosto do som melancólico do mar distante.”</p>
<p>“Que história é essa de falar de melancolia em minha festa? É claro que, se vocês ficarem cochichando num canto&#8230; Mas venham e deixem-me apresentá-las. Este é Mr. Nevill, que aprecia seus escritos.”</p>
<p>“Nesse caso — boa noite.”</p>
<p>“Nalgum lugar, esqueci o nome do jornal — qualquer coisa de sua autoria — esqueço agora o título do artigo — ou era um conto? Você escreve contos? Não é poesia que você escreve? São tantos os amigos da gente, e depois todo dia está saindo alguma coisa que&#8230; que&#8230;”</p>
<p>“Que a gente não lê.”</p>
<p>“Bem, para ser honesto, por desagradável que possa parecer, ocupado como estou o dia todo com assuntos de natureza odiosa, ou melhor, fatigante — o tempo que eu tenho para a literatura eu dedico a&#8230;”</p>
<p>“Aos mortos.”</p>
<p>“Detecto ironia na sua correção.”</p>
<p>“Inveja, não ironia. A morte é da maior importância. Como os franceses, os mortos escrevem muito bem, e, por alguma razão, podemos respeitá-los e sentir, enquanto iguais, que são mais velhos e sábios, como nossos pais; o relacionamento entre vivos e mortos é certamente dos mais nobres.”</p>
<p>“Ah, se você pensa assim, vamos falar dos mortos. Lamb, Sófocles, de Quincey, Sir Thomas Browne.”</p>
<p>“Sir Walter Scott, Milton, Marlowe.”</p>
<p>“Pater, Tennyson.”</p>
<p>“Agora, agora, agora.”</p>
<p>“Tennyson, Pater.”</p>
<p>“Feche a porta; puxe as cortinas para que eu veja apenas seus olhos. Eu me ponho de joelhos. Cubro o rosto com as mãos. Adoro Pater. Venero Tennyson.”</p>
<p>“Prossiga, filha.”</p>
<p>“É fácil confessar nossos erros. Mas que escuridão é tão fechada para ocultar nossas virtudes? Eu amo, adoro — não, não consigo lhe dizer como minha alma é uma rosa de devoção por — o nome treme em meus lábios — Shakespeare.”</p>
<p>“Concedo-lhe absolvição.”</p>
<p>“No entanto, com que frequência se lê Shakespeare?”</p>
<p>“Com que frequência é a noite de verão impecável, a lua perfeita, os espaços entre as estrelas profundos como o Atlântico? Com que frequência as rosas mostram branco no escuro? Amente, antes de ler Shakespeare&#8230;”</p>
<p>“A noite de verão. Oh, isto sim é que é maneira de ler!”</p>
<p>“Rosas que ondulam&#8230;”</p>
<p>“Ondas quebrando&#8230;”</p>
<p>“Ares singulares da aurora vindos pelos campos afora para forçar as portas da casa sem surtir efeito&#8230;”</p>
<p>“Deitando então para dormir, a cama é&#8230;”</p>
<p>“Um barco! Um barco! A noite inteira no mar&#8230;”</p>
<p>“Com estrelas que se postam a prumo&#8230;”</p>
<p>“E lá no meio do oceano nosso barquinho flutuando sozinho, isolado mas sustentado, atraído pela compulsão das luzes nórdicas, seguro, cercado, dissipa-se onde a noite repousa sobre a água; lá diminui e desaparece, e nós, já submersos, lacrados na frieza das pedras lisas, abrimos nossos olhos de novo; traço, batida, ponto, salpico, mobília de quarto, e a barulhada da cortina no trilho. — Eu ganho a vida. — Apresente-me! Oh, ele conheceu o meu irmão em Oxford.”</p>
<p>“E você também. Venha para o meio da sala. Tem alguém aqui que se lembra de você.”</p>
<p>“Em criança, querida. Você usava um vestidinho cor-de-rosa.”</p>
<p>“O cachorro me mordeu.”</p>
<p>“Ficar jogando paus no mar, já pensou que perigo? Mas sua mãe&#8230;”</p>
<p>“Na praia, na barraca&#8230;”</p>
<p>“Sorria sentada. Ela adorava cachorros. — Você conhece a minha filha? Este é o marido dela. — Era Tray que ele chamava? o grande, o amarronzado, porque havia um outro, o menor, que mordeu o carteiro. Posso ver isso agora. Ah, as coisas de que a gente se lembra! Mas estou impedindo&#8230;”</p>
<p>“Oh, por favor (Sim, sim, eu escrevi, estou indo). Por favor, por favor. — Pro inferno, Helen, interrompendo! E lá vai ela, nunca mais — abrindo caminho entre as pessoas, ajeitando seu xale, descendo lentamente os degraus: foi-se! O passado! o passado!&#8230;”</p>
<p>“Ah, mas ouça. Diga-me; estou com medo; tantos estranhos; alguns barbudos; outros tão bonitos; ela esbarrou na peônia; caíram todas as pétalas. E feroz — a mulher com aqueles olhos. Os armênios morreram. E os trabalhos forçados. Por quê? Tanta tagarelice também; a não ser agora — cochichos — todos nós devemos cochichar — nós estamos ouvindo — esperando — mas então o quê? A lanterna acender! Cuidado com sua gaze! Certa vez uma mulher morreu. Dizem que isso acordou o cisne.”</p>
<p>“Helen está com medo. Essas lanternas de papel acendendo e as janelas abertas deixando a brisa entrar levantam nossos babados. Mas eu não estou com medo das chamas, sabe. É o jardim — quero dizer, o mundo. Que me assusta. Aquelas pequenas luzes lá longe, cada qual com um círculo de terra por baixo — cidades e morros; e depois as sombras; os movimentos do lilás. Não fique conversando. Vamos sair. Pelo jardim; sua mão na minha.”</p>
<p>“Vamos. Faz escuro no matagal sob a lua. Vamos, haveremos de enfrentá- las, essas ondas de escuridão coroadas pelas árvores, que se erguem para sempre, solitárias, trevosas. As luzes se levantam e caem; a água é rala como o ar; por trás dela está a lua. Você afunda? Ou você se levanta? Você enxerga as ilhas? Sozinha comigo.”</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://www.ronaud.com/arte/noite-de-festa-virginia-woolf/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Sonhei com você</title>
		<link>https://www.ronaud.com/amor/sonhei-com-voce/</link>
					<comments>https://www.ronaud.com/amor/sonhei-com-voce/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ronaud Pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Apr 2021 03:05:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Amor impossível]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.ronaud.com/?p=26413</guid>

					<description><![CDATA[Sonhei com você &#8211; Crônica Hoje acordei sonhando com você. Eu que raramente sonho com alguém. Andava de carro por uma rua, vi seus cabelos dourados e encaracolados. Você me viu, dei a volta na quadra, você correu e me fez parar, me deu um beijo assim mesmo pela janela do carro, entrou no carro [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Sonhei com você &#8211; Crônica</h3>
<p>Hoje acordei sonhando com você.</p>
<p>Eu que raramente sonho com alguém.</p>
<p><em>Andava de carro por uma rua, vi seus cabelos dourados e encaracolados. Você me viu, dei a volta na quadra, você correu e me fez parar, me deu um beijo assim mesmo pela janela do carro, entrou no carro e saímos juntos&#8230;</em> para onde?</p>
<p>Acordei e não sei.</p>
<p>Acordei e fui te procurar no Instagram. Vi que você desfez o contato, de modo que eu não te seguia mais.</p>
<p>Há anos não nos falamos, e mesmo quando nos falamos há alguns meses pelo <em>whatsapp</em>, foi de um jeito pontuado, formal, frio.</p>
<p>Ao mesmo tempo em que eu queria esquentar a conversa, não queria te ferir ainda mais.</p>
<p>Mais do que você mesma se feriu esperando por mim.</p>
<p>Queria te mandar fotos da praia que você ama, queria discutir sobre o quanto seus <em>stories</em> estavam &#8220;errados&#8221;, queria até te ajudar a enfrentar suas dificuldades&#8230;</p>
<p>&#8230;como se eu não tivesse minhas <em>dificuldades de estimação</em>; como se fosse exímio em resolvê-las.</p>
<p>Mas sei que essas coisas te trariam esperanças, e que o passar do tempo sem a atitude esperada te machucariam&#8230; de novo.</p>
<p>Motivos de vida, de responsabilidade, de prudência e também, de ceticismo, de pessimismo, de descrença me impedem de ser quem o seu amor tão puro e bonito espera que eu seja.</p>
<p><em>Você me viu, me fez parar, me deu um beijo assim mesmo pela janela do carro, entrou no carro e saímos juntos&#8230;</em></p>
<p>Para onde?</p>
<p>Certamente viver no mundo ilimitado dos sonhos, tudo que muito provavelmente não conseguiremos viver nesta vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://www.ronaud.com/amor/sonhei-com-voce/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A Praia</title>
		<link>https://www.ronaud.com/lugares/a-praia/</link>
					<comments>https://www.ronaud.com/lugares/a-praia/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ronaud Pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Mar 2021 03:07:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Lugares]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Praia]]></category>
		<category><![CDATA[Viagens]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.ronaud.com/?p=26374</guid>

					<description><![CDATA[A Praia &#8211; Crônica Se eu morasse no litoral ia todo dia na praia” é a maior ilusão de quem não mora no litoral. Jacqueline Poli As pessoas vão longe para pegar uma praia&#8230; &#8230;porque elas não tem convívio constante com uma. No longo prazo da ida constante à praia você começa a notar e [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_26392" style="width: 680px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2021/03/P_20200608_112301_editada_2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-26392" class="size-full wp-image-26392" src="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2021/03/P_20200608_112301_editada_2.jpg" alt="Maravilhosa é a praia... ...assim, na foto" width="670" height="390" srcset="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2021/03/P_20200608_112301_editada_2.jpg 670w, https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2021/03/P_20200608_112301_editada_2-300x175.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 670px) 100vw, 670px" /></a><p id="caption-attachment-26392" class="wp-caption-text">Maravilhosa é a praia&#8230; &#8230;assim, na foto. Foto: Praia Brava Itajaí &#8211; Ronaud Pereira</p></div>
<h2>A Praia &#8211; Crônica</h2>
<blockquote><p>Se eu morasse no litoral ia todo dia na praia” é a maior ilusão de quem não mora no litoral. <a href="https://twitter.com/ajacquelinepoli/status/1365731958513405952">Jacqueline Poli</a></p></blockquote>
<p>As pessoas vão longe para <em>pegar uma praia</em>&#8230;</p>
<p>&#8230;porque elas não tem convívio constante com uma.</p>
<p>No longo prazo da ida constante à praia você começa a notar e somar alguns desconfortos que o deslumbramento de visitas esporádicas acaba encobrindo.</p>
<p>Praia, pra mim, só se for para <em><strong>apreciar a paisagem</strong></em>, do alto de um belo apartamento à beira-mar, de dentro de um barzinho pé-na-areia BEM CONFORTÁVEL com uma caipirinha à frente, ou espairecendo diante do belo cenário praiano ao longo de uma caminhada leve.</p>
<p>Afora estas poucas situações possíveis, o termo <em>pegar uma praia</em> não faz lá assim <em>taaaanto</em> sentido.</p>
<p>O sol escaldante bombardeando luz e calor faz a gente suar, a areia grudar, a pele torrar (e arder, e dias depois, descascar), cegar os olhos, obrigar a se encapsular sob protetor, óculos, boné, guarda-sol.</p>
<p>A cadeira de praia é desconfortável, e se deita na areia, o vento joga areia na cara, e leva o guarda-sol voando longe.</p>
<p>A água, o sal, o sol e o vento ressecam e desordenam o cabelo.</p>
<p>No meio dia a areia queima o pé, tem que usar calçado, ou no final da tarde aquela areia úmida onde já pisaram mil pés te oferece uma bandeja cheia de micoses e bichos-de-pé.</p>
<p>A água do mar, se é calma, é suja, se é limpa, é agitada; às vezes tem algas mortas, ou águas-vivas, em alguns lugares, até tubarão; quando entra na água, ela tá fria, quando sai, o vento tá frio.</p>
<p>A bebida esquenta, não tem banheiro perto. A bolinha do frescobol sempre escapa pra longe, e passamos mais tempo buscando a bola do que jogando; a bola do futebol, do vôlei, idem.</p>
<p>O povo em volta é feio, suado, molambento, com suas caixas de som alto, e péssimo gosto. Às vezes você não sabe se <em>a onda</em> que está sentindo é do mar ou da <em>cannabis</em> do vizinho ao lado.</p>
<p>Pra voltar, você ganha de brinde um maravilhoso trânsito que atrasa sua volta em 2 horas.</p>
<p>O horror!</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://www.ronaud.com/lugares/a-praia/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Bate-papo no Bar</title>
		<link>https://www.ronaud.com/amor/bate-papo-no-bar/</link>
					<comments>https://www.ronaud.com/amor/bate-papo-no-bar/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ronaud Pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 16 Jan 2021 03:27:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Timidez]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.ronaud.com/?p=25861</guid>

					<description><![CDATA[Bate-papo no Bar &#8211; Conto Ele não acreditou que tivera tanta coragem. Encontrou-a por acaso&#8230; (depois relembrado como um lindo acaso, um gostoso acaso, um feliz acaso. Um acaso pelo qual ergueria as mãos aos céus. Tímidos entenderão.). Por acaso encontrou-a no supermercado. Nem era comum isso acontecer, mas se reconheceram, se cumprimentaram, e começaram [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Bate-papo no Bar &#8211; Conto</h3>
<p>Ele não acreditou que tivera tanta coragem.</p>
<p>Encontrou-a por acaso&#8230; (depois relembrado como um lindo acaso, um gostoso acaso, um feliz acaso. Um acaso pelo qual ergueria as mãos aos céus. Tímidos entenderão.).</p>
<p>Por acaso encontrou-a no supermercado. Nem era comum isso acontecer, mas se reconheceram, se cumprimentaram, e começaram a conversar assuntos que vinham.</p>
<p>Para ele, assuntos eram um problema. Mas sabia por sua experiência prévia de atendimento ao público, que uma parte das pessoas se pudesse preferiria nunca dirigir-nos a palavra, mas que outra parte sente uma afinidade tão inesperada pela nossa pessoa, que até aos tímidos, se têm algum bom senso, só lhes resta&#8230; conversar.</p>
<p>Eis que ali no supermercado, o bate-papo se estendeu mais que o razoável &#8211; seu juiz interno era obcecado por razoabilidade &#8211; e como se fosse o homem despojado que gostaria de ser, soltou essas palavras:</p>
<p>&#8211; ah, vamos tomar uma cerveja no Bier Haus na sexta. Conversa boa assim tem que continuar&#8230;</p>
<p>&#8211; Vamos sim! Anota meu número. E anotaram seus celulares, e na sexta, confirmariam o encontro.</p>
<p>Ainda na sequência das compras, ele remoía-se.</p>
<p>&#8211; &#8220;<em>ain vamos tomar uma cerveja&#8230; </em>nem sabe se ela bebe, seu idiota. nem sei como ela foi aceitar&#8221;</p>
<p>Na sexta-feira, passou o dia todo tenso.</p>
<p>&#8211; &#8220;Será que vai dar certo. Será que vai ser bom. Será que ela vai gostar. Eu deveria inventar uma desculpa qualquer e desmarcar&#8221; &#8211; perguntava-se mentalmente, em um <em>looping</em> de angústia sem fim.</p>
<p>As coisas nunca deram muito certo para ele, e mesmo assim, ao invés de se fechar em seu mundo particular, costumava se colocar a disposição dos fatos, por sugestão de um psicólogo na adolescência, e também pela desesperada esperança de que alguma tentativa iria, ou teria, algum dia, que dar certo.</p>
<p>Nem que o preço dessa esperança fosse a infinidade de <em>vergonhas</em> e <em>micos</em> que já pagou na vida.</p>
<p>O improvável às vezes brinca com nossas expectativas e eis que, enfim, ele estava ali, sentado à mesa do Bier Haus, diante daquela linda mulher.</p>
<p>Haviam estudado juntos durante os anos do 2º grau. A timidez adolescente nunca os ajudou em qualquer aproximação, mas agora, passados alguns anos, conseguiram engatilhar uma conversa casual, como se fossem velhos amigos.</p>
<p>Agora, frente a frente, ele amaldiçoava mentalmente sua insegurança e hesitação, enquanto fingia presença. Mas não havia por que fingir, porque ela mesma tinha um jeito particular de tornar os momentos espontâneos, e as pessoas à sua volta, à vontade.</p>
<p>Era como se ele tivesse esquecido justamente o que mais o atraía nela, esse espírito, essa presença, essa energia pessoal que faz tudo parecer bem e tranquilo, ao contrário dele, em que tudo era motivo para inseguranças e dúvidas.</p>
<p>Em poucos minutos a conversa engrenou de tal maneira que, num breve surto de consciência em meio aos graus etílicos que se somavam, cogitou que se pudesse morava para sempre naquela mesa, naquela cena: Ele e ela sentados um de frente pro outro, ali no deck do bar, diante do lago conversando sobre a vida e o mundo, experimentando drinques e petiscos.</p>
<p>Ela tinha aquela exata qualidade que nem ele sabia exatamente que apreciava a não ser ali agora diante da própria expressão daquela virtude, que é a da pessoa que sabe a hora de ouvir, e sabe a hora de falar; virtude também conhecida como <em>educação</em>. Que fala na justa medida, e no tempo certo, pára para ouvir o outro. Via nela eventualmente a mesma contenção que dava a si mesmo quando, empolgado com algum assunto, censurava a si mesmo, dando gentil espaço para ela falar de suas experiências, vivências, dores e sentimentos.</p>
<p>E como era lindo vê-la falar. E observar os traços de seu rosto se ajustando a cada sentimento, ora feliz, ora sentida, ora exultante, ora debochada; ora sexy&#8230; Essas expressões faciais que os jovens do nosso século conhecem mais pelos <em>emojis</em> do que pela experiência direta; pobres dos nossos jovens.</p>
<p>A frente do bar, estacionou um carro. O vidro baixou lentamente; à medida em que o vulto no interior do veículo se mostrava, o rosto dela resplandeceu num sorriso feliz:</p>
<p>&#8211; Meu namorado veio me buscar. &#8211; E ajeitando suas coisas, continuou. &#8211; Muito obrigado pela tarde, pelas risadas, foi muito bom resgatar nossa amizade. Vou indo porque ainda tenho que me ajeitar para a formatura que temos hoje a noite.</p>
<p>Surpreso, incrédulo, porém fingindo naturalidade, se despediu.</p>
<p>E se amaldiçoou o resto do dia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://www.ronaud.com/amor/bate-papo-no-bar/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Assim eram as Tardes de Verão</title>
		<link>https://www.ronaud.com/saude/assim-eram-as-tardes-de-verao/</link>
					<comments>https://www.ronaud.com/saude/assim-eram-as-tardes-de-verao/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ronaud Pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Dec 2020 04:29:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.ronaud.com/?p=25982</guid>

					<description><![CDATA[Há muitos anos atrás precisei ir na Celesc, a empresa fornecedora de energia elétrica de Santa Catarina, para resolver algum problema burocrático qualquer. Muito ironicamente, naquele dia, por aquelas horas, houve queda no fornecimento, e o escritório da Companhia de Energia Elétrica do Estado estava&#8230; SEM energia elétrica! Era uma tarde de verão, o clima estava [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_25991" style="width: 296px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/verao-calor-antigamente.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-25991" class="size-medium wp-image-25991" src="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/verao-calor-antigamente-286x300.jpg" alt="A dama e seus leques" width="286" height="300" srcset="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/verao-calor-antigamente-286x300.jpg 286w, https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/verao-calor-antigamente.jpg 564w" sizes="auto, (max-width: 286px) 100vw, 286px" /></a><p id="caption-attachment-25991" class="wp-caption-text">A dama e seus leques</p></div>
<p>Há muitos anos atrás precisei ir na Celesc, a empresa fornecedora de energia elétrica de Santa Catarina, para resolver algum problema burocrático qualquer.</p>
<p>Muito ironicamente, naquele dia, por aquelas horas, houve queda no fornecimento, e o escritório da Companhia de Energia Elétrica do Estado estava&#8230; <em>SEM</em> energia elétrica!</p>
<p>Era uma tarde de verão, o clima estava abafado.</p>
<p>Era aquela tarde típica de fevereiro, em que ventiladores, se houvesse ali energia que lhes impulsionasse, ventilariam o próprio ar quente.</p>
<p>Uma funcionária saiu de seu lugar e abriu todas as janelas. As longas e brancas cortinas, no entanto, permaneciam caídas.</p>
<p>Nenhum vento.</p>
<p>Muito esparsamente um lufar de uma brisa morna e cansada movimentava as cortinas, inflando-as sem vontade.</p>
<p>Nós, os clientes aguardando atendimento, derretíamos em suor e esmorecíamos sob o cansaço que só o calor consegue impingir sem que tenhamos dado um passo sequer.</p>
<div id="attachment_26017" style="width: 199px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/mulher-com-sombrinha.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-26017" class="size-medium wp-image-26017" src="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/mulher-com-sombrinha-189x300.jpg" alt="O sol envelhece e torna a vida indigna" width="189" height="300" srcset="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/mulher-com-sombrinha-189x300.jpg 189w, https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/mulher-com-sombrinha.jpg 442w" sizes="auto, (max-width: 189px) 100vw, 189px" /></a><p id="caption-attachment-26017" class="wp-caption-text">O sol envelhece e torna a vida indigna</p></div>
<p>A energia elétrica nos afastou da natureza ao ponto em que nos desabituamos a certas condições mais extremas. A raça humana enfrenta verões escaldantes há milênios, porém basta menos de um século com as facilidades elétricas, para <em>desistirmos da vida</em> quando elas falham.</p>
<p>Aqui onde moro, as quedas de energia são frequentes, e às vezes, prolongadas; quase sempre a noite. E é nessas horas de escuridão total que vizinhos que nunca se olham enfim se reúnem na rua, conversando, rindo, se apoiando, sentindo-se quase amigos. Exatamente, veja só, como nossos ancestrais fizeram por milênios, passando as noites em volta das fogueiras.</p>
<p>Ali, na sala da Celesc, depois de juntar todas as suas forças, o vento entrou numa rajada quente pela sala com as portas e janelas escancaradas, e movimentou vagarosamente uma porta entreaberta daquele interior.</p>
<p>O ranger vagaroso da porta me levou até alguma tarde qualquer de algum verão da minha infância, na casa do meu avô, na <em>infernal</em> cidade de Joinville.</p>
<p>Joinville, assim como as escaldantes cidades do Rio de Janeiro e Porto Alegre, também se espreme entre uma baía &#8211; a baía da Babitonga &#8211; e a cadeia de montanhas da Serra Dona Francisca, que por ali segura todo o calor.</p>
<div id="attachment_26029" style="width: 310px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/veneziana-janela-antiga.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-26029" class="size-medium wp-image-26029" src="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/veneziana-janela-antiga-300x244.jpg" alt="Tecnologia antiga contra o calor" width="300" height="244" srcset="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/veneziana-janela-antiga-300x244.jpg 300w, https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/veneziana-janela-antiga-1024x831.jpg 1024w, https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/veneziana-janela-antiga-768x623.jpg 768w, https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/veneziana-janela-antiga.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a><p id="caption-attachment-26029" class="wp-caption-text">Tecnologia antiga contra o calor</p></div>
<p>Lembro de alguns dias de verão passados na casa dos meus avós, casa antiga, de madeira, sem ar-condicionado &#8211; que era artigo de luxo na década de 80 &#8211; com as portas e janelas escancaradas, de dia e de noite, suplicantes por um gentil refresco de um vento qualquer.</p>
<p>Em alguns momentos, os ventos se animavam e convidavam as cortinas para dançar, enquanto as portas, apáticas, murmuravam seus infortúnios rangendo pra lá e pra cá, conforme as brisas mornas e indecisas iam e vinham.</p>
<p>Eu não suporto calor, dias quentes, o próprio verão; com exceção talvez de suas noites, as noites de verão, certamente porque nesse período as temperaturas ficam agradáveis; as brisas noturnas refrescam e compartilham um tipo de alegria que dá impressão &#8211; em pleno verão &#8211; <em>que vale a pena viver</em>. Se <em>a noite é uma criança</em>, então essa noite é de verão, porque, reconheço, as noites de inverno nos afundam em desolação.</p>
<p>Mas durante os dias, além de suar demais, o calor me atinge algum ponto vital, que em dias quentes eu não consigo <em>nem pensar direito</em>; ar-condicionado para mim é item vital, de primeira necessidade, em casa e no carro.</p>
<p><iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/i_WONtJ3GVQ?start=74" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen" data-mce-fragment="1"></iframe></p>
<p>Depois de ler o livro <em>O Grande Gatsby</em>, e re-assistir ao filme por várias vezes, notei que a estória se desenrola num verão; que para uma cidade fria como Nova York (e toda a Europa), o verão tem uma conotação ainda mais positiva do que nos trópicos, embora propicie algumas tragédias, como Fitzgerald nos ilustra em sua triste estória.</p>
<p>Vendo e revendo esta cena acima em que Nick reencontra Daisy em uma tarde de verão de 1922, em sua sala repleta de cortinas esvoaçantes em janelas altas e abertas para receber todo o vento possível, passei a observar com frequência como eram os verões anteriores à era dos ares-condicionados. Como no episódio da Celesc &#8211; o qual não sei por que ficou em minha memória, talvez porque aquele cenário de irremediável calor me relembrou justamente minhas tardes de infância na casa de meu avô, em que, apesar de criança, já notava os prenúncios da minha constante dificuldade com temperaturas altas.</p>
<div id="attachment_26015" style="width: 310px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/casarao-antigo-rio-de-janeiro.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-26015" class="size-medium wp-image-26015" src="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/casarao-antigo-rio-de-janeiro-300x225.jpg" alt="Pé-direito alto e Saídas de ar sobre as portas dos casarões antigos" width="300" height="225" srcset="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/casarao-antigo-rio-de-janeiro-300x225.jpg 300w, https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/casarao-antigo-rio-de-janeiro-1024x768.jpg 1024w, https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/casarao-antigo-rio-de-janeiro-768x576.jpg 768w, https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/casarao-antigo-rio-de-janeiro-1536x1152.jpg 1536w, https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/casarao-antigo-rio-de-janeiro.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a><p id="caption-attachment-26015" class="wp-caption-text">Pé-direito alto, Saídas de ar sobre as portas e Toldos</p></div>
<p>Algo, no entanto, me atrai no calor, seja na cena do filme, seja nas minhas memórias. É a letargia, o ritmo lento de uma tarde de verão. Naquelas épocas não nos restava nada a não ser suportar a atmosfera escaldante daquelas tardes, com janelas abertas, ventiladores soprando ar quente, e antes ainda, com leques e uma arquitetura autenticamente brasileira, especialmente designada para o nosso clima, com pé-direito, portas e janelas altos, às vezes com aberturas na parte superior permanentemente abertas protegidas por grades, para o ar quente do interior ir saindo espontaneamente, além dos toldos e venezianas utilizados para bloquear o sol dos edifícios, e das sombrinhas para proteger a pele das moças.</p>
<div id="attachment_26016" style="width: 310px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/pe-direito-e-portas-altas-casarao-rio-de-janeiro.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-26016" class="size-medium wp-image-26016" src="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/pe-direito-e-portas-altas-casarao-rio-de-janeiro-300x200.jpg" alt="Pé-direito alto e Saídas de ar sobre as portas dos casarões antigos" width="300" height="200" srcset="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/pe-direito-e-portas-altas-casarao-rio-de-janeiro-300x200.jpg 300w, https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/12/pe-direito-e-portas-altas-casarao-rio-de-janeiro.jpg 448w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a><p id="caption-attachment-26016" class="wp-caption-text">Pé-direito alto e Saídas de ar sobre as portas dos casarões antigos</p></div>
<p>A eletricidade, o ar-condicionado, as comunicações instantâneas, aliados a uma arquitetura moderna que se desadaptou às leis naturais do calor, nos isolaram em cubículos, nos mantendo permanentemente ligados, ansiosos.</p>
<p>Não por acaso as férias costumam acontecer, desde sempre, nos verões. <strong>Verão é feito pra descansar; para sermos menos formigas, e mais cigarras</strong>.</p>
<p>O cansaço emocional decorrente desta pandemia &#8211; virótica e histérica &#8211; soma-se ao já natural desgaste costumeiro com o qual chegamos em todo fim de ano. Para nossa sanidade mental, especialmente neste verão que se avizinha, além de eventualmente desligarmos o celular, talvez devêssemos também desligar o ar-condicionado e sair &#8211; pra varanda, pra sacada, para o parque, para a praia &#8211; e sucumbirmos deliberadamente ao relaxante torpor das tardes tórridas que teremos pela frente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://www.ronaud.com/saude/assim-eram-as-tardes-de-verao/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Microconto: Coca-Cola Zero</title>
		<link>https://www.ronaud.com/saude/microconto-coca-cola-zero/</link>
					<comments>https://www.ronaud.com/saude/microconto-coca-cola-zero/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ronaud Pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Nov 2020 02:44:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.ronaud.com/?p=25869</guid>

					<description><![CDATA[Coca-cola Zero &#8211; Microconto Demorou-se por minutos diante do freezer do mercadinho da esquina, analisando o teor de açúcares nos rótulos dos refrigerantes. Queria o guaraná Kuat. Vinha optando por esta bebida depois que percebeu sua quantia de carboidratos menor que dos outros refrigerantes. Não encontrou. Decidiu pela Coca-Cola Zero Açúcar. Já no caixa, a [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_25910" style="width: 295px" class="wp-caption alignright"><a href="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/11/cronica-coca-cola-zero.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-25910" class="size-full wp-image-25910" src="https://www.ronaud.com/wp-content/uploads/2020/11/cronica-coca-cola-zero.jpg" alt="Diabetes ou Câncer" width="285" height="177" /></a><p id="caption-attachment-25910" class="wp-caption-text">Diabetes ou Câncer</p></div>
<h3>Coca-cola Zero &#8211; Microconto</h3>
<p>Demorou-se por minutos diante do <em>freezer</em> do <em>mercadinho da esquina</em>, analisando o teor de açúcares nos rótulos dos refrigerantes.</p>
<p>Queria o guaraná <em>Kuat</em>. Vinha optando por esta bebida depois que percebeu sua quantia de carboidratos menor que dos outros refrigerantes. Não encontrou.</p>
<p>Decidiu pela <em>Coca-Cola Zero Açúcar.</em></p>
<p>Já no caixa, a menina alertou, para que o cliente não se confundisse:</p>
<p>&#8211; Essa é a Coca <em>sem açúcar</em>.</p>
<p>&#8211; Sim, é essa mesmo que eu quero! &#8211; Retrucou com aquela certeza rara de quem sabe o que quer. E continuou: &#8211; Outro dia bebi meia garrafa de <i>guaraná com whisky </i>durante a noite e acordei com <em>um quilo</em> a mais ao me pesar na balança que tenho no quarto. Nesse ritmo, hoje acordo com um quilo a mais, amanhã acordo com <em>diabete</em>.</p>
<p>E detalhou para ela, em tom de bate-papo, o quanto os carboidratos, em especial o açúcar, são os vilões do sobrepeso. A atendente ouvia com real interesse, uma vez que sua aparência denotava prováveis batalhas invencíveis contra a balança.</p>
<p>&#8211; Nossa, não sabia, vou passar a observar essas informações nos rótulos também. &#8211; Disse ela. E continuou em tom temeroso: &#8211; Mas você sabia que a Coca-zero tem <em>Aspartame</em>? Dizem que provoca <em>câncer</em>.</p>
<p>&#8211; Verdade, eu já sabia&#8230; Mas é assim, né moça, morrer todo mundo vai. &#8211; Hesitou, e emendou:</p>
<p>&#8211; A gente só escolhe <em>pelo quê</em> vai morrer.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://www.ronaud.com/saude/microconto-coca-cola-zero/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
