Apesar do título, esse texto não é exatamente um texto astrológico.

É sobre SER alguém com Lua em Capricórnio.

A Lua muda de signo no céu a cada 2 dias e meio. Quando eu nasci, ela estava no signo de Capricórnio.

Diz o conhecimento astrológico, que esta é a pior posição de uma Lua, pois ela está oposta ao seu signo natural, Câncer, signo que eu, particularmente, ainda tenho interceptado – astrólogos entendem bem isso e, para os leigos, só adianto que não ajuda em nada.

Diz-se que se um planeta está no signo oposto ao que rege, que ele está exilado. No meu caso, portanto, estando no signo oposto ao que rege, posso dizer que “minha Lua” está em exílio.

A Lua, em nossa psique, representa nosso comportamento instintivo, emocional e reativo. Esta reação emocional ocorre diante de todos os fatos de nossa vida, sempre em busca de segurança e integridade, física e emocional.

Por representar nosso lado reativo, a Lua é considerada o ponto mais cármico em nosso mapa, ela traz consigo, junto aos outros três pontos por ela mesma gerados num mapa – Lilith, Nodo Norte e Sul, nossas memórias mais ancestrais.

Tendo-a exilada, portanto, um Lua em Capricórnio tende a ser uma pessoa profundamente insegura de si. Vive com aquela convicção íntima de que não encontrou seu lugar no mundo, e de que não precisava existir, e manifesta essa convicção mostrando-se excessivamente tímida, retraída, recolhida e emocionalmente inexpressiva.

Tirar fotos, e pior, publicar uma selfie é uma tortura psicológica.

É séria, mais por desconfiança, do que por falta de graça.

Na infância, ela é muito a própria lua.

Eu quando criança era quieto, passivo, concentrado em atividades manuais, não gostava de sair. Nas fotos, sempre sério, com um olhar ou distante, ou triste, ou apreensivo.

Morria de medo de gente, meu pai me chamava carinhosamente de bugre.

O Lua em Capricórnio quer se sentir poderoso e importante; no fundo quer se sentir validado, ou, mais especificamente, amado; o que considera uma fraqueza vergonhosa.

Quando não consegue isso, mergulha numa melancolia birrenta e suicida.

E assim foi minha interminável adolescência.

Mas aí o tempo passa, ele vai amadurecendo e se agarrando a outros aspectos de seu mapa astral pra seguir respirando acima da superfície das correntezas da vida.

Entretanto, a Lua em Capricórnio está sempre lá, se distanciando cada vez mais e congelando nesta incurável solidão íntima, construída sobre a mais e mais convicta sensação de fracasso e confusão.

Com o passar dos anos, o retraimento e a insegurança se amenizam. Ele vai percebendo, ao longo do tempo, que sempre consegue sair vivo de encontros sociais, nunca sem colecionar alguns micos a cada encontro… e até os micos vão perdendo importância na medida em que ele vai se dando conta de que modo geral as pessoas só se preocupam consigo mesmas o tempo todo e que… se alguém se dá o trabalho de reparar na vida do Lua em Capricórnio é porque pior que ele e nem merece consideração.

Daí que no lugar do retraimento, tomam espaço o extremo desconforto pessoal diante de todo sentimentalismo ou ilusão a que as pessoas se apegam.

Antes se impacientava, agora sente dó de quem dá festas que tentam parecer contos-de-fadas, ele simplesmente não consegue “comemorar” seu aniversário (comemorar o quê?), ele não entende como as pessoas se emocionam com jogos de futebol ou seus artistas “preferidos”, até um simples “bom dia” é capaz de te irritar profundamente, dependendo o momento (pois diria o romântico: nenhum dia é bom sem você, meu amor). Ele evita pessoas dramáticas como vampiros evitam a luz do sol. Dramas lhe esgotam sua escassa energia lunar. Ele faz um esforço tremendo, para ainda considerar um pouco, momentos como o Natal, porque normalmente se passa em família, essa gente cujos laços passados ainda balizam esses trajetos tortuosos, mas não sem passar por alguns calafrios quando alguém pronuncia o substantivo composto: “amigo-secreto”.

Para além disso, com seus óculos multi-dimensionais, para onde quer que olhe, ele não vê mais adultos fazendo suas coisas, e sim, crianças grandes com seus brinquedos ou atividades, querendo atenção, valorização e amor.

Antes acreditava que a vida é uma ilusão e feliz de quem pode se iludir.

Agora, nem se iludir ele quer. Se sente desconfortável ao ver os outros felizes satisfazendo as próprias fraquezas e ilusões. Fraquezas e ilusões que bem no fundo ele gostaria de estar satisfazendo.

O Lua em Capricórnio se irrita com a própria fraqueza refletida nos outros.

“Não era pra ser assim; Não faz sentido; Devo ter nascido no mundo errado” devaneia o Lua em Capricórnio.

Ele já nem sofre com suas perdas – e elas foram muitas, porque a ilusão é do tamanho da insegurança e toda ilusão está fadada a tornar-se desilusão – porque ele já enxerga longe e sabe que aquilo que ele queria iria dar um trabalho desgraçado pra manter, fora o trabalho desgraçado que deu pra ele tentar conquistar – e não conseguir.

Nada define melhor essa postura do que o meme: “Quem me dera, Deus me livre.”

Nada vale efetivamente a pena, e tudo que almejamos não passa de muletas existenciais para nos ajudar a suportar o fardo de termos pouca estima pelo que somos.

Do ponto de vista da eternidade, nossas vidas não passam de um breve piscar de olhos do universo, então para quê tanta luta? Ai mas estamos aqui para evoluir, responderia o espiritualista.

Não sei. Evoluir para quê, exatamente? Se tornar um anjo?  Ninguém me perguntou se eu queria evoluir. Eu não quero evoluir. Quero só ficar aqui quietinho sem me machucar muito, até morrer em paz.

As decepções, frustrações e fracassos vão tornando o Lua em Capricórnio, na vida, um infeliz utilitarista.

Para ele só vale a pena se mobilizar para as coisas práticas que coloquem comida na sua mesa, roupa no seu corpo e um teto sobre sua cabeça. Ele vai “passear” no Shopping ou no Camelô e sai de lá convicto de que se dependesse dele e de suas necessidades de consumo, 80% daquelas lojas iriam a falência. Boa parte das lojas atualmente não vendem produtos, nem resoluções. Vendem ILUSÕES.

Se render aos dramas e angústias existenciais costuma ser fatal, portanto, se há algo de bom em ser um Lua em Capricórnio, talvez seja a capacidade que vai lhe surgindo ao longo da vida, de tratar de temas assim tão funestos com analítica isenção, sem comover-se e sem mergulhar no abismo da melancolia. Corações mais sensíveis já teriam sucumbido sem chegar a este parágrafo.

Não estou triste, nem deprimido.

Apenas relatando a fria realidade das coisas…

…de que tudo é ilusão e que nada vale a pena.