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A Cartinha de Amor
Enviado em 2024-08-01 23:00:54
No infeliz dia de 12 de maio de 1992, eu, ainda com 11 anos de idade, dei uma "cartinha de amor" para uma menina da escola.
De lá até aqui, dei
muita cabeçada na vida, mas nenhuma se igualou ao episódio da
cartinha de amor, em termos das consequências emocionais desastrosas.
Daquele maio para trás, uns 6 meses, na convivência diária na escola eu tive a impressão - uma óbvia ilusão - que a tal menina
gostava de mim.
E passei a
gostar dela, no que viria a ser minha primeira e mal fadada paixãozinha.
Eu não tinha a menor ideia de como chegar na menina. Veja bem, eu tinha ONZE anos de idade, ainda uma criança. Estava surgindo ali a curiosidade pelo espírito feminino, ainda sem qualquer viés sexual. Sentia apenas um apreço romântico por ela.
Ódio
Eu não sei exatamente o porquê, uma vez que foi uma simples cartinha carinhosa com uma poesia inocente, mas essa menina odiou receber a carta, e passou a me odiar desde então.
E nunca perdeu qualquer oportunidade de me humilhar.
Numa ocasião passou abraçada a outro rapazinho - do tipo que hoje seria classificado como
zé droguinha - com ele me provocando de longe. Não lembro exatamente as palavras dele, mas falava alto e gesticulava, do outro lado da avenida, algo que poderia ser: "aqui ó, tua amada, com quem ela tá!".
Em várias ocasiões, escrevia o nome dela junto do nome de outro menino dentro de corações no quadro da sala, para eu e todos verem.
Uma vez passou por mim e um amigo, conversando com outra amiga, falando palavras desdenhosas. Até hoje não tenho certeza se foram pra mim, mas meu amigo jurou que foram.
Certamente foram.
E por fim, na viagem de formatura da turma, acabou ficando com um amigo com quem eu sempre andava. Ali já faziam quase 4 anos do episódio da carta, mas não foi legal ver isso acontecer.
Depois o tempo passou, as coisas mudaram, minha vida seguiu.
Trauma
Impressionantemente, vez e outra lembro com profundo pesar do episódio da carta.
A reação inversa e desproporcional dela destruiu a autoconfiança que eu já não tinha àquela ocasião.
Sempre que eu lembro deste episódio, é com muito arrependimento e culpa de ter feito algo tão idiota e não-funcional.
Entretanto, de um ano pra cá, tive uma intuição diferente sobre esse acontecimento.
Sim, por ignorância e ingenuidade infantis justificáveis, eu errei. Errei feio. Jamais deveria ter entregue essa cartinha infeliz.
Mas um fato é notório: Ela reagiu de uma forma inesperada e desequilibrada.
Porque depois da carta entregue, ao ver a reação de desprezo da parte dela, eu nunca nem cheguei perto, não me dirigia a ela, evitava ficar perto, evitava até olhar.
Mas ela pegou ódio de mim e agiu de uma forma baixa e vil. Uma pessoa que decide humilhar outra, com motivo, já não é uma pessoa confiável, não é sensata, tem um caráter vingativo que merece cuidados.
Uma pessoa que escolhe humilhar outra SEM motivos, é uma pessoa perigosa, porque não está em seu juízo perfeito.
Sim, eu errei, mas para além do erro, tive o azar de me apaixonar por uma maluca, que reagiu com crueldade.
Ela também era uma criança de 12 anos, mas uma criança com reações claramente insanas.
Se agiu por ignorância, foi uma ignorância que hoje ganharia facilmente o adjetivo que os jovens adoram: tóxica.
Moral da História
E aqui chego a um ponto que já me perguntei muito, sempre que lembro deste assunto:
De onde foi que eu tirei, onde eu vi, quem me falou, que a melhor forma de entrar em contato com uma menina que eu via todos os dias era uma... CARTA?
Rapazes, jamais enviem cartas, ou mensagens digitais, ou flores, ou presentes, ou seja lá o que for, para quem você não conhece direito. E mesmo se conhecer direito, também não faça isso se não tiver certeza que a pessoa vai curtir. Senão ela vai sentir PENA de você...
...ou ódio.
Formas românticas de abordagem de mulheres são as piores formas. Elas vão jurar que não, mas são as piores formas.
O homem se coloca numa posição de vulnerabilidade e humilhação, que é o inverso do que uma mulher usualmente espera de um homem.
É óbvio que atualmente não se usa mais o recurso das "cartas de amor", embora volta e meia nos aparecem vídeos nas redes sociais de românticos passando vergonha, enviando flores, fazendo serenatas, pedindo em casamento e sendo rejeitados e outras cenas deploráveis do gênero.
Cartas de amor só seriam válidas se fossem com alguém já conhecido, onde haja certo envolvimento, uma óbvia distância, e que você tenha certeza que a outra pessoa
entra no clima.
Agora, mandar carta ou qualquer tipo de mensagem impessoal sem conhecer a pessoa direito, como foi o meu caso, é a certeza do fracasso e da aniquilação da sua autoestima.
E de um arrependimento permanente.
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Photo by
Jovan Vasiljević on
Unsplash Ronaud Pereira
Publicado em www.ronaud.com/amor/a-cartinha-de-amor/