A arte da imagem pessoal

Viver é a arte da construção e manutenção diária de uma imagem com a qual nos relacionamos com o mundo, e que muito raramente corresponde ao que somos essencialmente.

Todo mundo é meio agente de marketing e gerente de branding quando o assunto é sua imagem pessoal. Critica-se muito que no Facebook todo mundo mostra o que tem de melhor e oculta o que tem de pior.

Agora me diga, em que outro lugar se age de forma inversa?

Falar contra a hipocrisia, isto é, contra o ato de falar uma coisa e ser outra, é falar contra a natureza humana. Para funcionarmos em sociedade de um modo são, precisamos muitas vezes falar o que os outros querem ouvir, só pra conseguirmos um pouco de paz e podermos descansar sossegados com nossas convicções não convencionais.

Me acontece muito de me ver às vezes dividido entre minhas convicções pessoais, e a imagem social que construí ao longo da vida.

Reputação

Há inclusive uma historinha interessante, que copiei do perfil de alguém no Facebook, cujo nome esqueci de anotar, demonstrando como as coisas são com, e sem, essa imagem pessoal que construímos ao longo da vida, principalmente quando essa construção é bem sucedida. Envolve um tal Lorde Kelvin e é relatada no livro “A estrutura das revoluções científicas” de Thomas Kuhn. Diz que Lorde Kelvin mandou um artigo pra uma revista científica, mas esqueceu de pôr o nome. Recusaram, na revisão por pares, dizendo que aquilo só podia ter saído da mente de um lunático, tamanho o disparate. O lorde mandou novamente o artigo, dessa vez devidamente creditado, e os editores pediram imensas desculpas, tentando não se queimar tanto – e nem ao nome da revista – com o grande cientista.

Que poder tem um nome com boa reputação no mercado, não?

Incoerência

É impressionante como as pessoas se preocupam em manter uma imagem mesmo apesar do comportamento diário não ser aquilo tudo que se alarda. Gente que faz uma imagem perfeitinha no social, mas não varre nem o chão de casa.

Compartilham dezenas de frasezinhas lindas de auto-ajuda no Facebook, mas não fazem qualquer ato de gentileza com quem tá próximo.

Elas esquecem, ou nunca perceberam, que coerência entre aparência e conteúdo ainda é o que mais revela firmeza na pessoa.

Preconceito

Essa história acima tem muito a ver com o nosso preconceito natural com as coisas. Dada a dificuldade extrema de termos que pensar e investigar tudo o tempo todo, costumamos valorizar e levar em conta, durante nossas decisões, a reputação prévia que tem pessoas e produtos. Se deixar levar pela reputação prévia de alguém ou alguma coisa nos livra dessa tarefa penosa que é pensar e analisar as coisas a cada passo.

A publicidade alcança a excelência quando consegue instalar em nossa mente preconceitos positivos a respeito dos produtos. Coca, Omo e Bombril são exemplos máximos, no Brasil, de um marketing tão bem sucedido que conseguiu fazer com que o nome da marca dos produtos simbolizasse o próprio produto. Ninguém pede refrigerante de cola, pedem Coca-cola. Ninguém vai ao mercado comprar sabão em pó, vai comprar Omo. E ninguém pede por esponja de aço, pede pelo Bombril.

No que você está pensando?

Dias atrás parei para tentar lembrar se algum dia já perguntei a alguém no que estava pensando. Acredito que não. Espero mesmo nunca ter feito essa pergunta, ao menos não dessa forma tão direta e invasiva. Talvez melhor do que perguntar “em que você está pensando” seja perguntar “aconteceu alguma coisa?” e dar a possibilidade do outro mentir dizendo que não, não aconteceu nada.

O mundo dos pensamentos é o único lugar onde temos espaço, liberdade e permissão para sermos o que somos. Se o outro está em silêncio, provavelmente está pensando em algo que não convém dizer. Não é preciso ser gênio para perceber isso.

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