A tendência do pobre de esperar ajudas dos outros, sobretudo do Estado, já denota sua pobreza política, mais grave que a pobreza material, porque não tem como mudar a situação. Entrega-se a soluções alheias e que muitas vezes são táticas para manter o problema da subalternidade do pobre. Assoma o fenômeno da ignorância, não no sentido educativo-cultural, já que, hermeneuticamente falando, ninguém é propriamente ignorante. Todos estão inseridos em contextos históricos prévios, culturalmente plantados, nos quais se têm linguagem comum, saberes compartidos, noções da vida e da realidade. Ninguém é, neste sentido, analfabeto. Falamos aqui da ignorância produzida socialmente como tática de manutenção da ordem vigente e que faz do pobre típica massa de manobra. Trata-se daquela ignorância que aparece no escravo que se vangloria da riqueza de seu patrão: não atina que a riqueza gerada, pelo menos em parte, lhe pertence de direito. Não é apenas alienado, sobretudo ignora que é alienado.

Pedro Demo – Brasília, UnB, julho de 1999. Retirado deste ótimo texto.

Eis um retrato do povo brasileiro. Só discordo de dois pontos:

1 – “Ninguém é, neste sentido, analfabeto”. Recurso retórico! Todos nascemos ignorantes, não? E por mais que façamos parte de uma comunidade e tenhamos noções de realidade, são completamente rudimentares para permitir a produção de um pensamento crítico e por consequência, político. Nesse sentido, a ignorância não é necessariamente produzida, e sim, perpetuada. Não é?

2 – “Ignorância produzida socialmente”. Não é preciso iniciar uma ação para produzir ignorância. Basta que não se faça nada, porque as pessoas nascem evidentemente desprovidas de qualquer informação e há uma tendência para que a maioria simplesmente não se interesse em educar-se. Mais sobre isso em: Conspiração pra quê?