* O título deste texto foi criado em homenagem ao Ministério da Educação.

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Já parou pra observar que conceitos como “masculino” e “feminino” são conceitos culturais?

Sabia que quando você comenta – e a gente SEMPRE comenta – “Nossa, como o filho da fulana é efeminado, né?” ou “Aquela menina do colégio parece um menininho” está demonstrando o quanto você é sem noção pretensioso em querer afirmar que homens efeminados ou mulheres masculinizadas são seres errados, ou seja, que não precisavam existir no que seria seu mundinho ideal.

Eu entendo, pois penso exatamente como você, muito embora esteja compreendendo melhor o quanto estamos equivocados em nossos julgamentos. Pra ser honesto, a probabilidade de você estar equivocado(a) em qualquer julgamento é monstruosa. Cuidado com suas certezas!

Outro dia eu assistia a um tele-jornal e, numa reportagem sobre universidades estrangeiras, fiquei embasbacado com um entrevistado. Antes de ele abrir a boca, apareceu em várias cenas sob a narração do jornalista. Vi um rapaz normal, calça jeans, moleton, barba por fazer. Demonstrava aquele ar bem tosco que todo homem tem que demonstrar para parecer homem.  Quando foi dada voz ao rapaz, o contraste foi nítido e, confesso, chocante. Parecia uma de minhas primas falando, todo suavezinho, delicadinho, simpatiquinho, com suas expressivas caras e bocas.

Este foi meu lado preconceituoso. Porém estou comentando o modo como reagimos (ou como reagi) quando somos confrontados com o diferente, com o inesperado. Meu preconceito logo se armou para destruir o alienígena em meu mundinho perfeito, onde homens são masculinos, e por masculino entenda-se grosseiro, inexpressivo, quase estúpido com leves traços de imbecibilidade. Nesse mesmo mundinho, mulheres devem ser femininas, e por femininas entende-se delicadas, perfeitinhas, suaves, sentimentais, BONITAS, enfim, o enfeite que deixa o mundo mais bonito. Confesso que me foi difícil pensar mais ou menos assim: “Cara, ele é assim mesmo, um homem delicado(¹), muito expressivo e provavelmente MUITO INTELIGENTE, afinal, está estudando numa universidade americana.

Na luta da humanidade para encontrar ordem no caos, em busca de sua sobrevivência em meio à instável natureza, acabou estabelecendo alguns padrões que ajudaram a maioria a viver de forma melhor, o que entretanto acabou tornando a vida da minoria ainda pior por não se enquadrarem no padrão estabelecido. Padrões demonizam os despadronizados.

Um padrão muito comum, aceito e difundido na sociedade é a noção de que o azul é uma cor masculina e o rosa é uma cor feminina. Atualmente essa noção se tornou na verdade uma convenção. Todo mundo entende desse jeito, porque essa nos foi a linguagem ensinada. Mas não há nenhuma comprovação científica que homens preferem naturalmente o azul e que mulheres sentem uma simpatia intrínseca pelo rosa. Ao contrário, já vi mulheres que o odeiam justamente por esse mundo bonitinho e perfeitinho que as coisas rosas tentam transmitir associando-as às mulheres.

Segundo a Wikipedia,

“A razão desta simbologia provém, da antiguidade, atribuída à cor rosada dos lábios carnudos, seios e partes íntimas de uma mulher no ideal clássico.”
Fonte

Já a SuperInteressante afirma:

“Foi só no século 19 que o rosa ganhou alguma ligação com a feminilidade, influenciado por uma lenda européia que diz que as meninas nascem de rosas e os meninos de repolhos azuis. Esse padrão, no entanto, não se disseminou por todo o mundo. Por um bom tempo, na França, as meninas se vestiam de azul, por causa da tradição católica, que associa a cor à pureza da Virgem Maria.”
Fonte (o endereço da fonte foi removido)

Observe que na verdade ninguém sabe ao certo o porquê dessa associação de cores a gêneros.

Pretensão, nada mais que pretensão

Nessa história toda o homem erra ao tentar classificar o que é natural como certo ou errado. As mentes doentias que contribuiram para essa classificação observaram que se a maioria dos homens tem comportamento rígido, sério, objetivo, firme e um tanto rústico, então o homem que se comporta de modo suave e refinado está errado, ok?

Errado. Ele é nada mais, nada menos do que aquilo que traz em sua natureza.

Se tem alguém errado nessa história é quem o julga, nós. Nós que incorporamos um padrão comportamental pré-estabelecido sem o menor questionamento. E nos comprazemos em nos sentirmos do lado certo da história.

É fácil começar a ver as pessoas desse jeito? Não, não é. Como é difícil aceitar naturalmente as diferenças. Pra falar a verdade, de forma geral, não somos criados para isso. Nosso preconceito está tão incrustado em nossos modos e reações naturais e também nas pessoas que nos rodeiam, que pra não sermos uma voz discordante e acabar com suspeitas sobre nossa própria sexualidade, acabamos concordando com manifestações homofóbicas em geral. O que também é lamentável.

Não acho que os gays em geral sejam as únicas vítimas  com luta contra a homofobia. Particularmente, e repito, muito particularmente, creio que lhes falta, ao menos a uma parte deles, um tanto mais de discrição (pois acho que tem um lugar certo para se chamar a atenção e é sobre um palco) e compreensão da realidade da qual fazem parte. A sexualidade AINDA É um ENORME TABU entre os héteros. A falta de diálogo entre homens e mulheres é tamanha que às vezes cogito seriamente a idéia de que falam idiomas distintos. Imagine esperar que aceitem relacionamentos homossexuais de forma inteiramente natural. Desculpa, entendo que seria o ideal, mas não vai funcionar. Como esperar que os hétero entendam a homossexualidade se mal tem noção de sua própria sexualidade – dita normal? Acho que é esperar demais. Não nessa sociedade imbecil, hipócrita e atrasada conservadora na qual vivemos. Alguns segmentos da sociedade, principalmente os mais jovens parecem já estarem mais abertos à essas mudanças, mas a faixa de pessoas mais velhas (principalmente velhas de espírito) ainda é tão conservadora que vive como se estivessem nos anos 50.

Mas se você entender que a diferença existe, e que as coisas são dignas como são, por mais distantes que estejam do que você considera normal, já é alguma coisa! E, quem sabe, na próxima vez que encontrar um menino brincando de casinha com a irmãzinha, em vez de temer sua futura opção sexual (como se temer ajudasse, e como se opção sexual precisasse ser temida), prefira pensar que ao menos ele poderá ser um pai de família presente e atuante :)

(Observe aí a contradição: Mulheres tendem a esperar que seus maridos sejam homens presentes na vida doméstica, inclusive ajudando nas tarefas da casa e cuidando dos filhos, certo? Mas se os meninos brincam de casinha quando crianças e seguram uma boneca no colo, na mais inocente brincadeira, as mães vão estranhar, não vão? Me corrijam se eu estiver falando bobagens)

Ainda sobre pretensão

A pretensão humana é igual a burrice, e, ao contrário da inteligência, não tem limites. Outro exemplo a respeito das burradas culturais são as drogas. Por exemplo, plantar um pezinho de maconha no seu quintal é crime! Veja bem: Estar de posse de uma planta, um ser vivo, natural, fruto direto da criação, é crime. Aquela plantinha de folhas estreladas, verdinhas e bem bonitinhas até… é uma planta ilegal. Só porque supostamente prejudica a vida de alguns infelizes. Não sei você, mas eu acho ridículo dizer que uma planta, ou seja, um ser vivo de origem natural, seja ilegal. (É como chegar pra Natureza e dizer: “Olha dona, a sra. acertou em muitas coisas, mas essa erva aí foi uma furada e tanto hein?)

É como se o congresso do Japão decidisse que terremotos são ilegais, só porque prejudicam a vida de alguns infelizes. Como se os EUA decidissem que tornados são ilegais, afinal matam centenas por ano. Seguindo essa linha de raciocínio, não seria mau se o Brasil decidisse que políticos são ilegais, afinal prejudicam a vida de muitos alguns infelizes…

E por fim, observe outra contradição. O mesmo ser que condena como ilegal uma plantinha inocente que só quer fazer sua fotossíntese em paz, ou seja, que diz que um ser vivo, natural, é ilegal, é o mesmo que condena a homossexualidade por ser contra a natureza sexual humana, porque não entendeu ainda que a existência humana transcende sua origem biológica.

Ora essa natureza inconstante, que ora ajuda, ora atrapalha…

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1 – Escrever homem delicado me soou quase como um contra-senso nessa minha mente machista.