Alienação política

Alienação política

Abaixo, alguns comentários que conseguem expressar com bastante lucidez o atual estado das manifestações e protestos no Brasil, e que conseguem demonstrar que a maior parte da população está mal informada e despreparada para agir politicamente, hasteando bandeiras bastante questionáveis, resultado da própria educação ineficiente e despolitizante das últimas décadas, muito embora suas manifestações tenham toda a dignidade possível.

Alexandre Versignassi:

A hora no Brasil é histórica. Fato. Mas nem todo mundo que está surfando nessa onda merece a sua atenção. É o caso de quem fala em fechar o Congresso, imolar a presidente, acabar com a democracia. Porque de vez em quando a democracia acaba mesmo. E o que vem no lugar é invariavelmente pior.

 

Rodrigo Esper:

O clima desse protesto era completamente diferente do que aconteceu segunda. Era plausível comparar a uma comemoração de vitória da seleção na copa do mundo. Porém considero arrogante demais achar isso um absurdo. Em um país com cultura de festas populares tão forte, e com um intervalo tão grande desde os últimos protestos desse porte, achar que o povo iria para a rua se portando como militantes focados e organizados é ingenuidade demais. É justamente pra uma evolução no senso crítico do povo que também estamos pedindo por uma melhor educação e uma mídia menos sensacionalista e transparente. Essa conquista é a longo prazo, não deve-se tirar a legitimidade dos motivos dessas pessoas estarem indo a rua.

Cada uma dessas pessoas pegou seu assunto favorito nos problemas do país, levantou sua própria bandeira, deu sua própria solução (muitas vezes absurdas), e foi pras ruas. Falta uma liderança, um manifesto, uma proposta, algo que seja o máximo independente possível, de um grupo organizado e com força midiática, que faça com que as pessoas deixem de lado seus próprios interesses. A redução dos R$0,20 não foi o suficiente, as reivindicações do MPL refletem só uma parte dos problemas do povo, e ele não vai ter calma para esperar uma solução de cada vez. Algo forte, com teor de punição a empresários e políticos, vai ter que ser apresentado logo pra unir todo mundo sob uma única bandeira, senão o movimento vai dispersar (o que, honestamente, talvez seja uma solução boa em termos organizacionais).

Os ataques são o ápice das manifestações. Na cabeça de muitos é esse o objetivo. Não há uma bandeira ou um manifesto, nada disso, os ataques ainda são a principal razão de ser, a conclusão óbvia, o que motiva muita gente. É muita raiva, é muita violência acumulada, é muito esculacho, contra a polícia, contra o Estado, contra o sistema. Cabe as lideranças darem ao povo algo maior para lutarem por, isso sim vai conter a violência.

O que mais enfraquece o movimento são as disputas internas. Há um medo enorme de que as manifestações acabem servindo interesses de um ou outro partido. E, para um povo com tão pouca educação política, os partidos são sim a representação mais próxima que tem do ‘inimigo’. As teorias de conspiração são tantas, o sistema é tão articulado e cara de pau, os escândalos são tantos, seja esquerda ou direita, que a solução mais óbvia é sim desacreditar em absoluto das bandeiras.

Agora, o que tem sido feito contra os militantes partidários, isso é de uma ignorância sem igual. O que está acontecendo no Brasil hoje está em boa parte na conta deles. Essa violência e repressão que o país está sentido hoje, já é sofrida e denunciada por eles fazem anos. Mas isso só vai se resolver com um diálogo melhor, é essa a chance de mostrar propostas, e ideias, de juntar gente a favor, não de criticar (‘reaça’) e atacar quem não conhece seu trabalho e está criticando pela associação óbvia. Cabe aos partidos e militantes conquistar a confiança, desfazer a associação, provar que são íntegros, que podem ajudar.

 

Leonardo Sakamoto:

A manifestação de segunda, gigantesca, acabou por mudar o perfil dos que estavam protestando em favor da tarifa. O chamado feito pela redes sociais trouxe as próprias redes sociais para a rua. Quem não percebeu que boa parte dos cartazes eram comentários de Facebook e Twitter?

Portanto, nem todos os que foram às ruas são exatamente progressistas. Aliás, o Brasil é bem conservador – da “elite branca” paulistana à chamada “nova classe média” que ascendeu socialmente tendo como referências símbolos de consumo (e a ausência deles como depressão). É uma população com 93% a favor da redução da maioridade penal. Que acha que a mulher não é dona de seu corpo. Que é contra o casamento gay. Que tem nojo dos imigrantes pobres da América do Sul. Que apoia o genocídio de jovens negros e pobres nas periferias das grandes cidades. Ou seja, não é porque centenas de milhares foram às ruas por uma pauta justa que a realidade mudou e vivemos agora em uma comunidade de Ursinhos Carinhosos.

Desde que o quinto ato contra as passagens foi anunciado, grupos conservadores se organizaram na internet para pegar carona no ato. Lá chegando, foram colocando as mangas de fora com suas pautas paralelas. Na convocação do sétimo ato, isso ficou bem evidente. Estavam aos milhares na Paulista e arredores, mas ainda minoria em comparação ao total de participantes. Mas uma ruidosa, chata e violenta minoria. Com um discurso superficial, que cola fácil, traz adeptos. Parte deles usava o verde-amarelo, lembrando os divertidos e emocionantes dias com os amigos em que se pode ver os jogos da Copa do Mundo.

Nesta quinta (20), esse grupo sentiu-se à vontade para agir em público exatamente da mesma forma que já fazia nas áreas de comentários de blogs e nas redes sociais, mas sob o anonimato. Com isso, parte desse pessoal começou um ataque verbal e físico a militantes de partidos e sindicalistas presentes no ato.

Engana-se, porém, quem diz que essa era uma massa fascista uniforme. Havia, sim, um pessoal dodói da ultradireita, que enxerga comunismo em ovo e estava babando de raiva e louco para derrubar um governo. Que tem saudades de 1964 e fotos de velhos generais de cueca na parede do quarto. Essa ultradireita se utiliza da violência física e da intimidação como instrumentos de pressão e que, por menos numerosos que sejam, causam estrago. Estão entre os mais pobres (neonazistas, supremacia branca e outras bobagens), mas também os mais ricos – com acesso a recursos midiáticos e dinheiro. A saída deles do armário e o seu ataque a manifestantes ligados a partidos foi bastante consciente

Mas um grupo, principalmente de jovens, precariamente informado, desaguou subitamente nas manifestações de rua, sem nenhuma formação política, mas com muita raiva e indignação, abraçando a bandeira das manifestações. A revolta destes contra quem portava uma bandeira não foi necessariamente contra partidos, mas a instituições tradicionais que representam autoridade como um todo. Os repórteres da TV Globo, por exemplo, não estão conseguindo nem usar o prisma com a marca da emissora na cobertura – e não é só por conta de militantes da esquerda. Alckmin e Haddad, que demoraram demais para tomar a decisão de revogar e frear o caldo que entornava, ajudaram a agravar a situação de descontentamento com a classe política. “Que se vão todos”, pensam esses jovens. “Não precisamos de partidos para resolver nossos problemas”, dizem outros, que não conhecem a história recente do Brasil. “Políticos são um câncer”, que colocam todo mundo no mesmo balaio de gatos.

Elas não entendem que a livre associação em partidos e a livre expressão são direitos humanos e que negá-los é equivalente a um policial militar dar um golpe de cassetete em um manifestante pacífico. Dito isso, creio que foi um erro de análise de militantes de partidos estarem presentes no ato empunhando bandeiras. Direito eles tinham, mas não era a hora.

[…]

Dentre esses indignados que foram preparados, ao longo do tempo, pela família, pela escola, pela igreja e pela mídia para tratarem o mundo de forma conservadora, sem muita reflexão, tem gente simplesmente com muita raiva de tudo e botando isso para fora. O PSDB tem culpa nisso. O PT tem culpa nisso. Pois, a questão não é só garantir emprego e objetos de consumo. Sinto que eles querem sentir que poderão ser protagonistas de seu país e de suas vidas. E vêm as classe política e as instituições que aí estão como os problemas disso.

Muitos entre os mais jovens desconhecem o valor das lutas que trouxeram a sociedade até aqui – e não fizemos questão de mostrar isso a eles. Muito menos como os mais velhos foram protagonistas dessas lutas. Eles não precisam ser mitificados (não gosto de heróis), mas também não podem ser desprezados. Pois, se daqui em diante, novos caminhos podem ser trilhados é porque alguém abriu uma estrada que nos trouxe até aqui.

[…]

Não temos uma prática de debate político público como em outros lugares. Se, de um lado, vamos ter que aprender a conviver com passeatas conservadoras sem achar que vai rolar uma nova Macha da Família com Deus pela Liberdade nos moldes daquela que nos levou à Grande Noite, de outro, os reacionários extremistas vão ter que aprender a ser portar com decência – coisa que, nas redes sociais, já provaram que são incapazes de fazer.

O desafio é que, diante de comportamentos questionáveis e pouco democráticos desses jovens conservadores, externamos o nosso desprezo e nossa raiva. Podemos ignorá-los, enquanto crescem em número. Ou podemos conquistá-los para o diálogo e não o confronto.

Até porque, precisam compreender, por exemplo, que “o povo não acordou” agora. Quem acordou foi uma parte. Outra parte nunca dormiu, afinal não tinha cama para tanto. No campo, marchas reúnem milhares de pobres entre os mais pobres, que pedem terra plantar e seus territórios ancestrais de volta – grupos que são vítimas de massacres e chacinas desde sempre. Ao mesmo tempo, feministas, negros, gays, lésbicas, sem-teto sempre denunciaram a violação de seus direitos pelos mesmos fascistas que, agora, tentam puxar a multidão para o seu lado.

[…]

Muitos desses jovens estão descontentes, mas não sabem o que querem. Sabem o que não querem. Neste momento, por mais agressivos que sejam, boa parte deles está em êxtase, alucinada com a rua e com o poder que acreditam ter nas mãos. Mas ao mesmo tempo com medo. Pois cobrados de uma resposta sobre sua insatisfação, no fundo, no fundo, conseguem perceber apenas um grande vazio.

O fato é que há um déficit de democracia participativa que vai ter que ser resolvido. Só votar e esperar quatro anos não adianta mais. Uma reforma política, que inclua ferramentas de participação popular, pode ser a saída. Lembrando que aumentar a democracia participativa não é governar por plebiscito – num país como o nosso, isso significaria que os direitos das minorias seriam esmagados feito biscoito. Como deu para ver em alguns momentos, nesta quinta, na avenida Paulista.

O momento é de respirar, ter calma, dialogar. Mas não abandonar o bom debate.