Encontrei dois textos bastante críticos em relação as músicas populares atuais.

O primeiro comenta sobre um compositor americano, conhecido como Dr. Luke, que produz músicas padronizadas e especialmente destinadas ao ouvinte atual:

[…] Dr. Luke, como produtor, tem 16 músicas que lideraram as paradas da “Billboard”, o que o torna o segundo nome de maior sucesso da história, atrás apenas de George Martin, produtor dos Beatles, com 23.

O sucesso de Dr. Luke pode ser explicado de uma maneira muito simples: ele faz exatamente o que seu público-alvo quer.

Esse público-alvo é o jovem de 14 a 22 anos, que começou a consumir música numa era em que CDs já eram obsoletos, só ouve “singles” e nunca discos inteiros, ouve música em fones de ouvido e tem uma capacidade de atenção menor que a de um peixe de aquário (segundo estudos recentes publicados pelo Centro Nacional de Biotecnologia dos EUA, a capacidade de atenção – o tempo em que a pessoa consegue se concentrar em algo até ter a atenção desviada para outra coisa – caiu de 12 segundos em 2003 para oito segundos em 2013, um segundo a menos que o “attention span” de um peixe).

Ou seja: a música de Dr. Luke precisa ter um “hook” (gancho) a cada sete ou oito segundos, uma qualidade sonora ribombante, para soar grandiosa em fones de ouvido (daí o uso excessivo de compressão), e não pode perder tempo até chegar ao refrão. Dr. Luke diz ser fã do tecnopop dos anos 80 de Duran Duran e Tears for Fears, mas acha que essas bandas tinham um defeito grave: “Elas demoravam muito a chegar ao refrão”.

A revista “The New Yorker” fez um perfil interessante de Dr. Luke. Ele foi um adolescente problemático e chegou a vender drogas. Começou a tocar guitarra em conservatórios e foi guitarrista da banda do programa de TV “Saturday Night Live”.

Mas sua vida mudou depois de conhecer o sueco Max Martin, que lhe ensinou os segredos para produzir uma canção de sucesso. Luke aprimorou uma técnica quase matemática de composição e produção, que inclui tabelas com os intervalos entre versos e refrões e uma maneira peculiar de escrever letras, em que essas não precisam, necessariamente, fazer sentido, contanto que todos os versos tenham não só o mesmo número de sílabas, mas uma cadência idêntica em todas as frases.

A técnica é extremamente eficaz, especialmente numa época em que o analfabetismo funcional do público chegou a níveis alarmantes. Basicamente, as pessoas leem e ouvem frases e podem decorá-las e reproduzi-las, mesmo que não façam sentido algum. Aliás, é até melhor que não façam sentido. Dá menos trabalho.

As músicas tampouco devem ter introduções longas, ou até abrir mão de introduções e já começar com um vocal.

Antigamente, as músicas pop tinham introduções mais longas, para que os DJs de rádio pudessem falar por cima delas e anunciar as canções. Hoje isso acabou. Uma recente matéria do jornal “The Wall Street Journal” mostra que, de 25 canções do topo da parada pop, apenas quatro tinham uma introdução maior que dez segundos, e oito nem introdução tinham. Já começavam com o vocal.

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E o segundo texto, esculacha de vez chamando a grande maioria brasileira que curte sertanejo universitário e funk, de burros:

Infelizmente, a constatação é óbvia: nunca vivemos em uma época em que a música popular brasileira realmente popular apresentasse um grau de burrice tão grande como nos dias atuais. A impressão generalizada é que há algum tipo de pacto de estupidez entre gente que se diz “artista” e uma imensa manada de pessoas que transformaram a palavra “plateia” em sinônimo de agrupamento de retardados.

A falta de capacidade cognitiva da grande maioria de brasileiros que consome música no Brasil gera uma total incompreensão sobre o significado poético de canções que ainda insistem em trazer letras que necessitem de uma capacidade cerebral superior a de um peixe para que possam ser apreciadas. Para esta geração, as canções de caras como Lenine, Ney Matogrosso e Gilberto Gil soam como tratados de Física Quântica musicados.

Hoje, é cada vez maior a dificuldade de prender a atenção destes milhões de verdadeiros “bagres”. Isso explica porque o sertanejo chamado de “universitário” e o funk imbecilizante se tornaram as novas coqueluches dentro do mercado nacional. […] Estes dois estilos musicais encontraram um público perfeito, desprovido de qualquer sinal de sensibilidade poética, para quem o importante é “beijar muito na balada”. Para quem achava que a “axé music” era o fundo do poço, trataram de cavar mais um pouco para checar a uma camada de “pré-sal da estupidez”. Hoje somos o país do “tche tche rerê tetê barabará bereberê”, do “vem novinha sentar no meu colo” e de outras merdas do gênero.

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Exageros à parte, convenhamos que é um assunto complexo, de difícil conclusão. Mesmo assim achei interessante vir aqui e expôr algumas observações minhas sobre o assunto.

Músicas sem alma

Eu sempre gostei muito de música. Quando adolescente, só ouvia pop-rock, incluindo aqui hard-rock (quel é diferente de metal). O tempo foi passando e meu gosto expandindo (bastante). Hoje ouço de tudo, MENOS rap e funk, e esse pop americano que toca nas rádios.

Como já comentei aqui, acho que há músicas para se encantar e inspirar, e há músicas para se divertir. Por isso mesmo não tenho problemas em ouvir um samba mais pagodeado ou mesmo, o tão questionado sertanejo universitário, desde que ambos tenham alguma MELODIA. E aqui reside o porquê de eu não conseguir ouvir rap ou funk e nem mesmo esse pop americano pasteurizado: eles simplesmente não possuem melodia – a Britney Spears parece um robozinho cantando suas últimas músicas.

O que me chamou a atenção para essa pobreza melódica do pop americano atual foi o grupo PostModern Jukebox, grupo que faz covers de “sucessos” atuais em estilo retrô, sobre o qual comentei aqui recentemente. Já ouvi sem parar praticamente todas as músicas deles. Porém o mais curioso – fato que encontrei comentado por outros fãs do grupo nos comentários dos vídeos –  é que só vim a conhecer as músicas originais dos covers deles, justamente por causa deles. E sob raras e discutíveis exceções, todos os covers deles são melhores do que as músicas originais. São versões mais ricas, trabalhadas, estilosas e em alguns casos, até mesmo mais divertidas, que as versões originais. O grupo PMJ com seus talentosos vocalistas dão alma para as composições que interpretam.

E quem quer músicas com alma?

Porém, o que o autor do segundo texto aqui citado comentou é bem verdadeiro: o nível intelectual da população realmente está raso. Talvez por não conseguirem, talvez por não terem paciência, o fato é que as pessoas simplesmente não conseguem compreender mensagens com um pouco de complexidade. Daí porque músicas mais elaboradas simplesmente não caem nas graças do povo.

A minha dúvida em relação a esta constatação não é se ela é verdadeira, porque o povo de fato é burro tem um nível de compreensão limitado, senão não era povo. Minha dúvida reside se em algum momento da história foi diferente. Será que na década de 60, com um analfabetismo de 40% da população, as pessoas compreendiam melhor mensagens musicais mais elaboradas? E na década de 40, com 56% de analfabetismo? Fonte

Acho difícil.

O horror

Eu ouço o que chamam de sertanejo universitário. Algumas músicas não só ouço como canto empolgado e dançaria, se dançar soubesse ;) Mas não me acho burro por isso. Quem quer ficar interpretando mensagens complexas que vá ler Shakespeare. Por outro lado, reconheço que existem péssimas obras desse gênero; a maioria das canções do estilo sertanejo universitário são medianas e trazem uma mensagem também mediana sobre ter dinheiro e pegar mulheres. Coisa ridícula mesmo, que gera aquela vergonha alheia por saber que alguém ouve.

Deixa o povo se divertir

Deixa o povo se divertir

Mas o povo gosta. O que se vai fazer? Proibir? Ficar criticando o gosto popularesco rancorosamente? Não né. Que se deixe. Ninguém é obrigado a ouvir nada, ao contrário, a internet mesmo permite que cada um ouça exatamente o que quer.

Acredito que o povo de meados do século passado não ouvia músicas como bará berê do Cristiano Araújo não porque tinham gosto mais apurado, e sim porque bará-berê não existia.

Talvez para a sorte deles.