A geração de empregos é daqueles tipos de argumentos irrefutáveis, porque mexe com o lado emocional das pessoas. Se você for empreender algum projeto que vai degradar o meio ambiente, diga que ele vai gerar emprego, renda e impostos. Se quiser esculachar, diga que as pessoas não comem nem cascas de árvores, nem insetos, nem mato, mas que precisam de empregos e renda para comprar o leite para as crianças. E todos vão ficar quietinhos.

Mas não sei se é por aí! Empregos e renda são importantes sim, mas da mesma forma como o dinheiro não compra vida, emprego e renda não quer dizer felicidade instantânea.

Esse questionamento ao paradigma econômico comentado acima me surgiu ao ler esta reportagem sobre uma manifestação contra a instalação do estaleiro da OSX em Biguaçu, na área apontada na imagem abaixo:

Área do Estaleiro da OSX vista da BR 101

Área do Estaleiro da OSX vista da BR 101

Foto: Thiago Dickmann (passei por este local hoje e lembrei de comentar aqui)

Na reportagem o pescador Miguel de Governador Celso Ramos diz: “trabalho desde os 12 anos com a pesca, não quero agora virar empregado, ficar limpando escritório e os banheiros do estaleiro (…)”

Concordo com ele. A tal “geração de emprego e renda” tem que ter a ver com a vocação da comunidade onde o empreendimento será instalado. Não tem emprego industrial ou renda que pague a vida livre de um pescador. Quem nasceu pra viver no mar não vai nunca se sentir bem num escritório ou galpão fechado, nem com o melhor dos ar-condicionados.

Certamente o pescador acima mudaria de idéia caso pudesse instantaneamente ganhar um bom salário trocando de atividade. Contudo sabemos que os salários mais altos de um estaleiro não serão dos pescadores da comunidade local, simplesmente porque eles não têm a alta qualificação necessária para se encaixar no padrão de renda oferecido por um estaleiro daquele porte. É evidente que os empregados mais bem pagos deste estaleiro viriam de outras regiões.

Esse assunto é discutível, eu sei. Só queria registrar aqui que toda vez que passo naquela região (moro a 80km de lá) e sinto a atmosfera do local, com seu mar ainda limpo e sua vegetação vicejante ainda intacta – tão alardada pela indústria turística de Santa Catarina – enfim, sempre que eu passo por lá, entendo perfeitamente o que o pescador Miguel quis dizer.