Contradição

Contradição

Embora o termo máfia possa simbolizar poder, de modo geral ela é ilegal e… não é legal. A maioria dos que hoje se conhece por mafiosos, não passam de bandidos (o que é diferente de criminosos).

Apenas para esclarecer: Entendo bandido como o sujeito mau-caráter e perverso. Já criminoso é o que comete crimes, isto é, o sujeito que age contra, ou fora da lei, e que apesar disso, pode trazer consigo algum senso do que é justo, algo que falta ao bandido. Sim, eu sei, a maioria dos criminosos são bandidos, mesmo. Mas uma minoria reduzida desse grupo apenas age sob aspectos falhos da lei que não espelha de modo preciso a realidade que tenta organizar. A lei, como uma criação humana, não está acima de qualquer suspeita.

Portanto, o que segue abaixo não é uma apologia à máfia, e sim a um princípio muito importante dentro de alguns de seus grupos, essencialmente daqueles que conseguem se manter ativos, que é a…

Honra

A honra é um princípio de conduta fundamentado na coragem, na dignidade e na justiça, mesmo que uma justiça particular. São traços de comportamento considerados socialmente virtuosos. Ser honrado pressupõe também o reconhecimento e o respeito aos méritos alheios.  O homem honrado é aquele sabe qual é o seu lugar no meio a que pertence e luta por ele.

Muito justo

A máfia é conhecida por ser um grupo de pessoas inescrupulosas e impiedosas.

E é!

Porém só com quem não entende suas regras.

E a regra básica da máfia é, por mais inacreditável que possa parecer, a da JUSTIÇA.

Não evidentemente a justiça legal, esta que deveria fazer com que grupos mafiosos não precisassem existir.

A justiça de que a máfia trata é aquela do olho por olho, dente por dente.

Ou você é HOMEM, ou você não merece viver. Ou você é íntegro e respeitável e honra sua palavra, ou leva bala.

Evidentemente tirar a vida de outra pessoa, desde que merecidamente, não lhe faz menos respeitável dentro do grupo, muito pelo contrário.

O significado de “Não matarás” é que matar sem uma causa boa e honrada se torna um pecado. Nós sabemos que não é pecado enforcar um assassino.
Mario Puzo, na fala de César Bórgia, em Os Bórgias

Mas não quero aqui estimular que você saia matando seus desafetos, até porque com a atual inversão de valores que vemos no comportamento geral hoje, é possível que quem mereça levar bala é você.

Se liga! Será que você sobreviveria na Sicília com esse seu jeito insolente? ;)

Enfim, como falei no início, isso não se aplica a qualquer grupo, cuja maioria não passa de gangues de bandidos, mesmo.

Poder

Foi justamente a busca pela justiça que os Estados italianos não ofereciam, que fez com que alguns indivíduos se reunissem em grupos fechados para se fortalecer e melhor se defender, num período medieval bastante conturbado, onde os Estados eram os grandes inimigos das minorias.

Mesmo atualmente, qualquer grupo que se reúna com vista a se fortalecer diante do Estado, o qual nem sempre está lá para servir a população e mais parece estar lá para servir a si mesmo, está adotando um certo caráter mafioso.

A máfia, ou qualquer grupo organizado, legal ou ilegal, busca um único objetivo: PODER. A maior parte desse poder é usado para fins particulares e egoístas. Mas o fundamento de sua busca está num reequilíbrio da distribuição do poder na sociedade e no questionamento quanto a essa distribuição: Por que só o Estado pode ter esse poder absoluto? Por que devemos nos sujeitar ao poder de uma organização cujos interesses discordamos? Por que não nos juntamos de modo a termos mais condições, isto é, mais poder para defendermos também os nossos interesses?

Como se vê, tudo se resume à busca por justiça.

O poder em si não prova nada. É um exercício vazio da vontade de um homem sobre a de outro. E não é uma coisa virtuosa. […] Sem amor, o poder coloca os homens mais próximos dos animais do que dos anjos.
Mario Puzo, na fala de Alexandre VI, em Os Bórgias

It’s business

E o meio mais efetivo de se conseguir poder é com dinheiro. Portanto, as negociações são a base da máfia. Muitas delas são ilegais, porque na verdade as leis não espelham a realidade, e condenam negociações que são absolutamente naturais. Por exemplo, Al Capone foi fruto da Lei Seca da década de 20, nos EUA. Fossem as bebidas liberadas naquela época, não teríamos ouvido falar em seu nome hoje.

Negociações devem ser justas, certo? Se você tentar passar a perna em alguém, independente de quem for, não vai prestar pra você, cedo ou tarde. A diferença é que se você passar a perna num mafioso, não vai prestar pra você… cedo.

O aperto de mão que é realizado ao fim de uma negociação, representando a concórdia entre as partes, deve ser o ato mais importante da negociação, e não o que foi negociado.

É a sua reputação que está em jogo, e o quanto você merece ser respeitado pela sua capacidade de manter sua palavra.

Política

A política e o crime são a mesma coisa. Mario Puzo, na fala do personagem Michael Corleone

Para além das negociações comerciais, o chefe da máfia, como todo bom líder, é um mediador. Seu senso de justiça o leva, através de sua atenção e gestos, a levantar os fracos, e chamar à moderação os fortes.

Respeita e é amigo de todos. Do mais alto ao mais baixo integrante da famiglia. É cordial e se relaciona bem com todas as outras famiglias justas. E aniquila as injustas.

Reconhecimento

Aqui está o ponto chave que caracteriza um mafioso, mesmo que trabalhe dentro da lei. Esta é a qualidade que leva qualquer um longe na vida. A qualidade do verdadeiro líder, que como tal, é um profundo conhecedor da natureza humana: Reconhecimento.

Qual é sua capacidade de reconhecer o que fizeram por você? Ou você é um ingrato canalha que esqueceu o que fizeram por você e ainda acha que merece mais?

O verdadeiro mafioso é aquele que JAMAIS esquece um favor recebido e está sempre pronto para retribuí-lo.

E, igualmente, é aquele que jamais esquece um favor solicitado e saberá a hora de cobrar.

Muitos não gostam de pedir favor, para não ficar devendo favores depois. Esse ato é um tanto inevitável para qualquer um, afinal, de modo geral, todos precisamos dos outros em algum nível e, nem sempre o dinheiro resolve tudo.

Tira com uma mão, mas dá com a outra

O mafioso também sabe que o sentimento de injustiça fere profundamente a qualquer um.

Portanto, como em muitos momentos ele pode precisar ser afrontoso na obtenção de seus intentos, jamais vai tirar algo de alguém sem retribuir de alguma forma.

Primeiramente, ele sabe que tudo tem um preço, e que há ofertas que são irrecusáveis. Porque nem toda cessão é corrupção.

Para os que sofriam da pobreza, o ouro sempre fazia mais milagres do que as rezas.
Mario Puzo, na fala do Cardeal Giuliano Della Rovere, em Os Bórgias

Depois, ele sabe que presentinhos gentis despertam a estima até do homem mais rancoroso.

Sabe que todo homem não passa de uma criança grande que perdoa uma contrariedade facilmente em troca de um doce, ou do abraço apertado do pai… ou do padrinho. Sabe que o sujeito tem que ser muito forte para resistir a um elogio  sincero ou a uma lisonja pública.

Ele sabe sobretudo, que Maquiavel estava certo ao aconselhar O Príncipe que evite fazer inimigos.

E você evita muitos inimigos sendo justo.

Se tem sucesso, é mafioso, se cai, é bandido

Como dito no início, a maioria dos conhecidos por mafiosos, não passam de bandidos. Se foi morto, é porque não soube negociar a manutenção de sua posição, e porque em algum momento foi injusto e provocou o rancor de alguém. Se foi preso, fracassou.

Praticamente TODO homem muito poderoso, e que consegue SE MANTER no poder por toda a vida, é um “bom mafioso”, sem que seja sequer denominado como tal. Porque sabe lidar com autoridades, e sabe reconhecer quem o ajuda. Sabe compensar e sabe cobrar. Sabe negociar de modo a prosperar e leva prosperidade a quem influencia ou o rodeia.

É mestre no relacionamento humano e é, basicamente, um sujeito honrado.