Analisando umas fotos da arquitetura típica dos grandes centros da América Latina do início do século 20, em especial a (in)volução da avenida Rio Branco do Rio de Janeiro, me ocorreu que o primeiro grande fator de desordem urbana foi o surgimento do automóvel, o segundo, a publicidade. O terceiro, a fúria do movimento modernista contra a tradição arquitetônica ocidental, que destruiu tudo que pôde.

Antes do automóvel, uma avenida como a Rio Branco transmitia uma serenidade incomum. Prédios de arquitetura esmerada, exaustivamente pensada, não muito altos, a maioria chegando a resultados estéticos imponentes. O espaço das ruas servia aos únicos veículos da época, as carroças, mas era usado e pensado especialmente para os cidadãos.

Sem automóveis

Av. Rio Branco – Rio de Janeiro – Cerca de 1906

Um inacreditável Rio de Janeiro – Av. Rio Branco esquina com atual Av. Nilo Peçanha – 1906.

Com Automóveis

O caos começa a se instalar

O caos começa a se instalar

Av. Rio Branco – Rio de Janeiro – 1930

Av. Rio Branco - Rio de Janeiro - 1930

Av. Rio Branco – Rio de Janeiro – 1930

Publicidade

Há um prédio em estilo enxaimel, na cidade de Joinville, que exemplifica bem o modo como a arquitetura dos prédios antigos foi comprometida não só pela publicidade contemporânea, como pelo ritmo desenfreado de consumismo e utilitarismo sob o qual vivemos atualmente.

Casas Pernambucanas – Joinville – Antes

O prédio das Casas Pernambucanas Atualmente

Placas, letreiros, toldos e até mesmo ar-condicionados enfeiam um dos prédios mais característicos da cultura que formou Joinville.

Nada mais a fazer a não ser lamentar.

Beleza

Em qualquer tempo, entre 1750 e 1930, se pedisse a qualquer pessoa educada para descrever o objetivo da poesia, da arte e da música, eles teriam respondido: a beleza. E se você perguntasse o motivo disto, aprenderia que a beleza é um valor tão importante quanto a verdade e a bondade.

Então, no século XX, a beleza deixou de ser importante. A arte, gradativamente, se focou em perturbar e quebrar tabus morais. Não era beleza, mas originalidade, atingida por quaisquer meios e a qualquer custo moral, que ganhava os prêmios.

Não somente a arte fez um culto à feiura, como a arquitetura se tornou desalmada e estéril. E não foi somente o nosso entorno físico que se tornou feio: nossa linguagem, música e maneiras, estão ficando cada vez mais rudes, auto centradas e ofensivas, como se a beleza e o bom gosto não tivessem lugar em nossas vidas.

Roger Scruton em “Por que a Beleza Importa?” (2009) – Fonte

Sociedade Moderna, e feia

Do ponto de vista não tecnológico, mas da organização social e urbana, e da apreciação de certos valores hoje desprezados, como a beleza, não tenho mais nenhuma dúvida que nossa sociedade ocidental – e talvez mesmo, e especialmente, a sociedade brasileira – atingiu seu auge entre as décadas de 1880 e 1960.

O “velho” bonito, e o “novo” feio

Foto

E esta data de 1960 se deve especialmente porque foi a época da revolução (?) cultural, culminando em si todo o movimento modernista que se tracejou desde os idos de 1900. Aqui neste texto comento um dos muitos (des)feitos deste movimento, ocorrido em relação à demolição do majestoso Palácio Monroe, promovida especialmente pelos arquitetos modernistas brasileiros.

Por fim, um antes e depois daquela que foi indiscutivelmente a avenida mais charmosa do Brasil, agora repleta de caixotes de concreto, monótonos, sem o menor atrativo.

Comparativo Av. Rio Branco – Rio de Janeiro – 1910 – 2016

Confira aqui o último remanescente dos edifícios da primeira foto da imagem acima.

E na Europa?

Na Europa, como se vê, a situação é a mesma. Com a diferença de que por lá os caixotes são de vidro.