Fala que eu te escuto

Fala que eu te escuto

Neste Dia Mundial da Voz, quero falar um pouco deste assunto, que me é caro.

Uma vez vi uma pesquisa que indicava que deficientes visuais tendem a apresentar menos casos de depressão do que deficientes auditivos.

Infelizmente não consigo reencontrar essa pesquisa, mas lembro que as causas apontavam para o fato de o deficiente visual poder conseguir se comunicar bem uma vez inserido num grupo, apesar de sua deficiência. Já o deficiente auditivo, por também não conseguir falar, apresenta uma tendência a ter dificuldade de se entrosar num grupo, dada sua dificuldade de comunicação, que exige uma linguagem gestual própria que poucos dos não-deficientes conhecem.

É essa tendência para a dificuldade de entrosamento social que faz com que os deficientes auditivos sejam mais propensos a caírem em depressão devido à extrema solidão que podem sentir. Faz sentido na medida em que o que nos permite um bom acolhimento social é a capacidade de nos comunicarmos eficientemente e tranquilamente.

Tenho uma boa compreensão disso tudo. Nasci com fenda labial e palatina, uma doença congênita que pode resultar numa voz anasalada. A minha resultou, e me dificulta bastante a comunicação em certos contextos sociais mais agitados, portanto, sei e entendo muito bem a realidade que essa pesquisa esclarece, embora meu caso não tenha nem uma fração da gravidade de uma deficiência auditiva.

Mesmo assim, vivencio de forma recorrente esta sensação de estar sozinho mesmo estando em meio a um grupo. Estar num grupo e não conseguir participar dele ativamente, e integralmente, principalmente no calor das discussões e conversas, que é a parte mais divertida, e que é quando minha voz se mostra menos competente, é como estar lá e não estar. É como estar mas ser invisível. Você fala e não é captado. Depois, já nem fala mais.

É algo que parece pouca coisa, um exagero de quem reclama – no  caso, eu – mas só passando pelas minúcias da situação para saber a dificuldade que é. Situação esta que me permite projetar o angustiante drama de quem tem uma deficiência auditiva, e por consequência, comunicacional.

Nós não percebemos e pouco se fala disso. Mas tanto quanto nossa visão, e nossa audição, também nossa voz é uma das funções mais importantes que temos. Poder se comunicar com os outros é FUNDAMENTAL para a nossa saúde psíquica, porque somos seres sociais, e por mais difícil que seja viver em sociedade, viver (ou se sentir) sozinho é muito pior. É, de fato, um passo para a depressão.

Há um belíssimo ditado árabe que diz:

Nossa voz é nosso corpo em sopro.

Outro ditado observa:

A voz é o perfume da alma.

De modo muito particular, sei perfeitamente o que isso significa.

Thomas Edson dizia que a função do nosso corpo é levar nosso cérebro para passear. É claro que cada partezinha do nosso corpo é importantíssima. Contudo, é em nosso cérebro onde reside nossa alma, nosso ser e nossa inteligência.

E é através da nossa voz que essa miríade de matizes pessoais se expressa e chega até o outro.

O outro, que bem ou mal, tanto precisamos para nos validar.

O modo como a voz é emitida sinaliza diretamente o estado de espírito da pessoa. Ansiedade, insegurança, medo, raiva etc são perfeitamente perceptíveis para quem presta um mínimo de atenção.

E se a voz sai continuadamente debilitada, é sinal provável de que a alma também esteja há muito tempo debilitada, e que precisa de recuperação.

Terapia da voz

Normalmente os distúrbios da fala são tratados por fonoaudiólogos.

Antes dos meus 30 anos, frequentei tratamentos fonoaudiológicos por duas breves vezes. Pouquíssimo, eu sei hoje, dada a minha condição. Contribuiu para isso uma certa desinformação, uma certa ignorância, um certo comodismo e uma ausência total de uma perspectiva de uma possível melhora.

É aquela capacidade que temos de piorar o que já está ruim :)

Mas eis que nos últimos meses comecei um tratamento fonoaudiológico e é dele que eu quero falar.

Venho conseguindo alguma melhora, a qual nem imaginava ser possível.

A fonoaudiologia é basicamente uma fisioterapia voltada para o desenvolvimento ou recuperação da área corporal específica que vai da boca e nariz, passando pelos ouvidos e indo até a garganta, cuidando de tudo que mantém esse conjunto saudável, como postura corporal, uma adequada respiração e deglutição alimentar.

E como toda fisioterapia, SEMPRE há o que melhorar.

A melhor forma de saber se precisamos ou não de um tratamento fonoaudiológico, é gravando a própria voz. De preferência, não em situações artificiais, de leitura ou monólogo, e sim, em situações normais. Grave sua voz quando conversa ao telefone, ou quando está num bate-papo. E veja qual a avaliação que você tira dela mesma. Se ela lhe desagradar de algum modo, um(a) fonoaudiólogo(a) poderá certamente lhe ajudar.

Profissionais que lidam com o público tem quase que uma obrigação de manter cuidados regulares com a própria voz e procurar orientação de melhores práticas com fonoaudiólogos. É uma questão de investimento. Sem contar a possibilidade de alcançar a excelência aprendendo a utilizar todos os recursos disponíveis, através de cursos de oratória e eloquência.

Como nossa voz está intimamente ligada ao nosso ser, conforme já comentado mais acima, um tratamento fonoaudiológico competente também está muitíssimo próximo da natureza de um tratamento psicológico. Na medida em que um fonoaudiólogo está nos terapeutizando, está terapeutizando parte importante da nossa alma.

E quem tem um pezinho nessa área, como eu, acaba percebendo como boa parte das pessoas está com a alma cambaleante, condição esta percebível pelo estado da voz da pessoa. Vozes anasaladas (mesmo sem disfunções orgânicas), infantis, mimadas, distorcidas, estridentes, rasgadas, hesitantes, muito emocionais e explosivas, que falam pra dentro, que falam muito alto, que falam muito rápido, que falam muito. Todos esses casos precisariam de algum nível de terapia para que, ao se tratar a voz e a dicção, trata-se também a alma momentaneamente desequilibrada dessas pessoas.

Almas desequilibradas por ansiedade, insegurança, medo, raiva, carência etc.