Quando você não se encaixa no padrão esperado pelas pessoas com as quais convive – seja por uma limitação, uma deficiência ou simplesmente por pensar de forma diferente da maioria – você começa a enxergar tudo de modo mais fiel à realidade. A lucidez, que permite que consigamos enxergar a realidade com mais precisão, tem muito a ver com o quanto somos conscientes, e consciência, você deve saber, só adquirimos quando passamos por grandes choques ou traumas.

A humilhação lhe deixa desprovido de graça. Então você enxerga as coisas sem graça. Nada tem encanto, nada vale a pena. E então vemos que a realidade é mesmo dura. Porque você sabe. Você olha para eles ali, se divertindo, se expressando, extravasando. Mas você sabe que se tivessem algum tipo de limitação ou deficiência, a chama que alimenta aquela alegria toda estaria apagada. Prefeririam ficar em casa e se esconder. E se obrigados são a comparecer, ficam no canto do salão, não querem chamar atenção.

O peixe não percebe a água

Já era

Já era

A vida é uma ilusão e feliz daquele que pode se iludir. Mas quem não pode se iludir perde a paciência com os iludidos. As ilusões alheias não passam para o desiludido de frescuras (num miserável, ressentido e invejoso auto-consolo, já que o desiludido possivelmente não pode dispor dessas “frescuras”). E ele vê as vidas dos outros imersas num mar de futilidade. Vê se encastelarem em meio ao conforto para não enxergarem o quanto a vida pode ser dura lá fora. Vê que o indivíduo “normal” não percebe o quanto é fútil e como desperdiça suas forças em tarefas estéreis mais ou menos como o ratinho corre girando a roda sem fim. Vê que a pessoa normal acha tudo que faz vaidosamente importante e solenemente digno de ser feito e notado. E é… até tropeçar. Ela só vai perceber a superficialidade com a qual vinha se conduzindo quando perde algo vital, ou seja, quando perde algo REALMENTE IMPORTANTE. E eis que a água se fez perceber ao peixe pela sua ausência.

Ou como disse o Shrek muito sabiamente a milhões de crianças e adultos mundo afora:

Eu fui saber o que eu tinha, quando eu perdi!