Todos nós vivemos um padrão de vida que é o resultado objetivo e direto de nossa essência pessoal, a qual se constitui de nossos gostos pessoais, de nossas posturas e capacidades intelectuais e emocionais e também de nossas habilidades mentais e físicas.

Uma pessoa muito desenvolvida em todos os aspectos da vida, certamente está vivendo um padrão de vida elevado. Outra menos desenvolvida, que mantenha certas falhas e omissões em seu dia a dia, está vivendo uma vida mediana*.

A tendência é que o padrão de vida de uma pessoa siga uma constante, e se eleve na medida em que a pessoa desenvolve suas capacidades e habilidades – desde que sinta-se livre para agir – ou decaia na medida em que ela falhe ou se omita diante de certas questões emocionais ou materiais.

Mas há certas mudanças muito almejadas na vida, que não são realizadas e não acontecem de modo algum, embora as capacidades e habilidades da pessoa em questão ultrapassem o necessário para a mudança de vida desejada.

E não acontecem devido a uma condição psicológica que promove o que se costuma chamar de auto-sabotagem. A pessoa quer muito melhorar qualquer condição que a tornasse mais feliz e, no entanto, não consegue agir nesse sentido.

O que ocorre é que a psiquê dessa pessoa está dividida. Um lado seu, mais racional, o consciente, sabe exatamente o que quer e o que deve fazer para conseguir o que quer; se não sabe, ao menos tem uma ideia do caminho a ser percorrido. Um outro lado da personalidade, mais emocional, o subconsciente, não quer fazer o que a tornaria mais feliz, porque no fundo, sente, pelos mais diversos motivos, que a condição desejada não a tornará TÃO feliz assim, porque está apegada à várias questões atuais que tem lá suas várias vantagens.

Os evangélicos chamam esse outro lado de inimigo 🙂 Os espiritualistas de vibração baixa, ou negativismo. Terapeutas o entendem como um desvio da energia natural do corpo. Mas bem no fim, é uma situação prática mesmo, de falta de determinação em mudar, e de falta de convicção quanto à vantagem de mudar. Auto-sabotagem e indecisão estão muito relacionadas.

Quem quer mudar?

Quem quer mudar?

As pessoas se comprometem, dizem querer a sua melhora, mas, não conseguem atingir os resultados de forma permanente. Ou ainda, desistem com facilidade, não tem persistência ou tem muitas recaídas.

A auto-sabotagem está presente na vida de todo mundo. Para umas pessoas em maior em grau, para outras em menor grau. Mas é certo que todo individuo tem um lado que deseja melhorar e outro lado que o freia, que não deseja sair da zona de conforto em que se encontra. Por mais difícil que seja a situação de uma pessoa, ela está acostumada com aquela dificuldade. Mudar, mesmo que seja para melhor, causa medo e resistência. Muitas vezes preferimos ficar numa dificuldade já conhecida do que mudar para algo melhor, porém desconhecido.

André Lima

Quando uma situação ruim fica recorrente na sua vida, mas você não consegue superá-la, é provável que você esteja se sabotando. Está ruim, mas não está ruim o suficiente para que se promova alguma mudança. Você quer muito mudar, mas não quer TANTO assim. E admitir essa realidade é o primeiro passo para resolver esta situação.

Causas da Auto-sabotagem

Há duas causas principais para a auto-sabotagem: a conveniência em relação à situação em que se está, e as crenças negativas em relação à situação desejada. Embora aqui essas causas estejam divididas, na verdade, elas coexistem e se influenciam mutuamente.

1ª causa – Conveniência

No caso de problemas de saúde, é preciso notar que existem ganhos secundários quando se têm uma doença, os quais são muito convenientes, como por exemplo, ganhar mais atenção da família, não precisar trabalhar nem estudar, não precisar assumir responsabilidades etc.

Se você perguntar ao doente se ele quer melhorar, ele vai responder que sim. Mas esta resposta é o que seu lado racional está dizendo pra ele – e é o que convencionalmente se espera que se diga 🙂 No entanto, há várias barreiras emocionais que ele não enxerga, ou faz que não vê, e no fundo, uma parte dele deseja ficar exatamente daquele jeito, ou até mesmo pior.

No caso de relacionamentos e problemas conjugais, devemos perceber que a pessoa que quer mudar de relacionamento pode estar apegada às pequenas vantagens conhecidas da situação atual (raras situações são plenamente negativas, e quando o são, é mais fácil de se afastar delas, porque a convicção em relação ao afastamento é total). Ela prefere se garantir com as pequenas vantagens conhecidas, e suportar as desvantagens atuais, do que arriscar vantagens maiores que, no fundo, não passam de uma possibilidade.

Nos casos de problemas financeiros, creio que o que mais motiva ao fracasso ou à estagnação profissional é o medo ou a aversão à responsabilidade. Responsabilidades pesam, e quando fogem das possibilidades da pessoa, chega a sentir certa repugnância pelas tarefas assumidas, e quando o assunto é finanças, as tarefas podem ser muitas: Além das novas responsabilidades numa eventual promoção profissional ou empreendimento pessoal, ainda tem todo um gerenciamento necessário para maiores quantias de dinheiro, bem como todo um aprendizado sobre negócios e investimentos que muita gente não faz nenhuma questão de aprender. Querem muito dinheiro, mas não querem cuidar dele. Então não há como dar certo. Assim, inconscientemente ou não, preferem ficar como está, afinal, do jeito que está, pelo menos estão dando conta. Neste caso, ou se revê a crença que se tem sobre as responsabilidades – pois talvez não sejam tão ruins quanto fantasiamos em nossa imaginação – ou se revê a própria ambição e aceita-se que não se tem jeito ou estrutura emocional para certas posições profissionais e que o que lhe resta é viver a atual condição financeira com aceitação.

Ainda em relação à conveniência, temos a questão da opinião alheia. Quanto às questões de relacionamento e financeira, um item que pode atrasar bastante o progresso da pessoa em relação às mudanças de vida desejadas, é seu extremo apego à sua “reputação” e, por consequência, sua vulnerabilidade à opinião alheia.

Pais, mães, cônjuges e outras figuras emocionalmente importantes para ela podem ter um juízo negativo a respeito da situação nova que a mudança que almeja vai lhe proporcionar, então É CLARO que, com receio de ser julgado e rejeitado, vai adiar ou desistir da mudança.

Já escrevi mais detalhadamente sobre esse tema nos seguintes textos:

Insegurança Emocional

Maus olhados, Inveja e o Silêncio

Zona de Conforto: O Reino Sagrado da Santíssima Conveniência

Uma parte da pessoa tem desejo de melhorar, mas tem também um outro lado que fica se sabotando para que ela continue no mesmo patamar, para que não saísse da zona de conforto.

A auto-sabotagem leva você a não dar prioridade para a mudança que quer. Aparecem inúmeras desculpas que vão soar muito lógicas e plausíveis para que você decida não agir. Isso quando, de forma inconsciente, você não está buscando se envolver em situações de forma a se prejudicar.

Toda mudança, mesmo que seja pra algo melhor, gera desconforto. E a mera ideia de desconforto faz a pessoa resistir e cria uma tendência a sabotagem. E a mudança também gera a necessidade de ação e movimento, e uma tendência à preguiça pode sentir horror a essa ideia, de onde deduzimos que a preguiça é uma forte fonte de auto-sabotagem.

Mudar para um emprego melhor, para uma casa melhor ou buscar um relacionamento melhor causa medo. Da mesma forma ocorre com as mudanças pessoais. Quando se altera o emocional da pessoa, através de novas visões e percepções do mundo e das pessoas, o comportamento dela muda. Coisas que ela não enxergava antes, passa enxergar. Esse processo as vezes é doloroso, porque as relações familiares e com os amigos são modificadas. Pode ser que a pessoa deixe certas amizades. Pode ser que comece a entender que o casamento já acabou, pode ser que comece a rever a sua profissão… Tudo isso gera medos e resistências conscientes e inconscientes porque a necessidade de se mexer e enfrentar novas situações se fará urgente.

2ª causa – Crenças negativas

Saúde

Em relação à saúde, já não é mais tão novidade que boa parte das doenças são geradas pelo estresse, que é a consequência de posturas extremadas que se baseiam sobre crenças equivocadas a respeito de si, das pessoas e do mundo. A pessoa está exausta, esgotada e ao invés de diminuir o ritmo, acaba tomando atitudes inconscientes que quebram esse ritmo – assim, pelo menos, não é culpa dela.

Por trás de várias outras doenças também existem vários sentimentos negativos os quais também surgem a partir de crenças negativas a respeito das coisas do mundo com as quais lidamos. São eles a culpa, a mágoa, a raiva, a angústia etc.

Entenda melhor seus sentimentos negativos clicando aqui.

Relacionamentos

Em relação aos relacionamentos, as crenças pegam pesado. Vivemos sob um intenso moralismo social que dita as regras de como as pessoas devem se relacionar. Essa mesma sociedade usa e abusa de estereótipos a respeito dos sexos ( e do sexo ), quase sempre negativos. E é por essa negatividade toda que as pessoas balizam suas (in)decisões:

  • Casamento até o fim da vida
  • Só se casa uma vez
  • Tem que casar (com o sexo oposto)
  • Tem que ter filhos
  • homens são todos iguais
  • as mulheres não sabem o que querem
  • elas dizem preferir os românticos, mas ficam com os malas
  • nenhum relacionamento é perfeito (então vou ficar com esse mesmo)
  • etc

Leia mais sobre como lidar com os outros aqui.

Conheça a influência das crenças sobre a timidez.

Vale a pena aqui fazer um comentário específico a respeito da culpa, um dos sentimentos mais sabotadores. A culpa é um não aceitar-se bem enquanto outros estão mal. Há um sentimento constante de pena dos outros, uma atenção exagerada às diferenças de situação entre as pessoas, e um idealismo proporcionalmente exagerado quanto ao senso de justiça e ao desejo insano de que todos estejam bem. Há uma não aceitação da realidade de que o mundo é mesmo injusto e desigual e que, de modo geral, cada um colhe o que planta e que, como se diz popularmente, o plantio é opcional, mas a colheita, obrigatória – e que não temos o menor controle sobre a colheita alheia.

A culpa fundamenta-se sobre uma certa prepotência de achar-se responsável não só por si – o que já é um enorme desafio – como também pela felicidade dos outros, e também uma certa pretensão em não admitir os próprios erros, falhas, limitações e a própria impotência para lidar e resolver as questões do mundo. A pessoa que se sente muito culpada é um poço de orgulho e precisa não só rever alguns conceitos em relação à vida, como reduzir algumas expectativas sobre si mesmo.

Leia também: Você sente pena?

Finanças

Em relação ao âmbito profissional e financeiro da vida, a crença negativa básica, muito difundida e que atrapalha a vida de meio mundo (ou mais) é a crença de que o dinheiro é algo preponderantemente ruim.

Quanto a isso eu só posso dizer e concluir o seguinte:

Não é.

Já escrevi mais detalhadamente sobre dinheiro e auto-sabotagem em texto anterior. Clique aqui e leia.

O André Lima também tem um bom texto sobre crenças em relação às finanças: Por que você não pára de se sabotar?

Como identificar suas crenças negativas?

Suas DESCULPAS são suas crenças negativas.

Quem quer MESMO, encontra um jeito

Quem quer MESMO, encontra um jeito

Podemos nos sabotar nas mais diferentes áreas da vida. E é sempre fácil saber quando isso está acontecendo. Basta observar SE você está se desculpando de qualquer forma para não fazer o que tem que ser feito. As principais desculpas são:

  • Eu não sei como fazer
  • Não é para mim
  • Vou começar quando …
  • Não é o momento certo
  • Eu não tenho por que fazer

Mas as desculpas, você sabe, são infinitas:

  • eu acho que não vai funcionar comigo
  • não tenho tempo
  • Não vai dar certo
  • não tenho dinheiro
  • me dá um desanimo
  • tenho outras prioridades
  • o que é que estou fazendo aqui
  • to cheia de coisas pra fazer
  • isso não tem cura
  • é um mal casual
  • é genético
  • Eu não sirvo para nada
  • Depois eu faço
  • Eu não mereço
  • Sou azarado
  • Não estou pronto
  • Não sou bom o suficiente
  • e muito mais

Saiba mais sobre a importância das crenças na nossa vida diária clicando aqui.

Todas as desculpas acima são crenças negativas, e são variações de uma mesma e básica crença:

Se eu sou pouco, eu mereço pouco e só posso ter pouco.

Sendo assim, surgem pensamentos e hábitos auto-sabotadores de toda parte para confirmar essa visão de si; para enfim, nos deixar do exato tamanho que damos a nós mesmos.

Resultados

Procrastinação

Seja por conveniência, seja por crenças negativas ou pelos dois, a auto-sabotagem surge através da não obtenção dos resultados almejados. Em parte, devido à procrastinação, seja no campo que for:

  • Vai deixando pra depois
  • Adiando indefinidamente
  • Começa mas não continua.
  • Bate sono, preguiça
  • Sempre acontece todo tipo de imprevisto justamente no dia e horário da sessão.
  • Isso quando não se esquece deliberadamente dos compromissos

Erros e falhas

E quando o assunto é emocionalmente intenso, a pessoa é capaz de inconscientemente cometer erros banais …ou erros grandes. E também de fazer escolhas não tão boas e até mesmo de fazer péssimas escolhas na vida.

A solução para a auto-sabotagem

Eu enxergo dois caminhos, que seguem abaixo, e que começam com uma analise geral da própria situação para identificar se há alguma resistência inconsciente à mudança que você quer:

Pense na situação que gostaria de alcançar em breve: Uma cura, um desafio, uma mudança. Se imagine e se sinta na situação que tanto almeja. Depois, repare: Surge alguma voz na sua cabeça questionando essa possibilidade? Há alguma dificuldade em imaginá-la? Se há, então essa voz ou dificuldade estão gravadas no seu subconsciente, o suficiente para impedir que você aja integralmente no sentido do que quer. É uma crença que entende a situação desejada como negativa. Geralmente essa dificuldade em imaginar a situação desejada está relacionada com alguma defesa. Quando algo é visto como ruim, ou seja, perigoso para você, essa crença aciona o seu mecanismo de defesa e não deixa acontecer, nem mesmo na imaginação. É difícil de admitir, mas por mais que você queira muito algo, no fundo, não quer o suficiente.

Caso queira MESMO mudar:

Compreender o apego às conveniências da situação atual. Reforçar a convicção do benefício da mudança.

Entender que a maioria das crenças negativas são genéricas e tentam consolidar uma determinada verdade a respeito do mundo, da vida e das pessoas. MAS em se tratando do mundo, da vida e das pessoas, há uma única verdade:

TUDO É POSSÍVEL.

A frase bíblica afirma que tudo é possível ao que crê e esta é a grande verdade: Se você quer e acredita que será bom, então não só será bem possível, como será, muito provavelmente, bom.

Caso se perceba que não se quer mudar TANTO assim:

Talvez você não queira mudar sua vida. Neste caso, é preciso ser honesto consigo mesmo e admitir que o que se ambicionava não era tão desejado. Isso pode lhe trazer uma paz incomensurável. Muitas vezes alimentamos ambições que nem são nossas e sim adquiridas das convenções, quando o que se quer mesmo, é paz de espírito e sossego. Então o que resta é parar de querer tanto, e aprender a lidar com as coisas do jeito que elas são.

O discípulo suplicou ao mestre: “Mestre, eu quero paz“. E o Mestre respondeu: Tire o eu (egoísmo), depois tire o quero (desejos), e você ficará com a paz.

Será, neste caso, uma questão de pé no chão e aceitação.

Nenhum dos dois caminhos é errado. Não é errado querer melhorar, e não é errado querer deixar tudo como está. Não há certo nem errado na vida. Há atos e consequências. E a escolha da consequência com a qual mais nos identificamos.

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* A linha de pensamento contemporâneo, sustentada por intelectuais politicamente corretos, não admite essas diferenças entre as pessoas. Mas a vida é assim mesmo, ainda que um certo grupo não admita a natureza desigual da existência e brigue por seu ideal de igualdade.

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Veja também

Série de posts sobre auto-sabotagem