Acesso qualquer mídia e vejo uma sociedade louca me oferecendo freneticamente o último produto, a última inovação, a solução definitiva que daqui a pouco será substituída por outra solução definitiva, de modo que nada parece definitivo.

Mas eu sei e você sabe que tudo tem limite.

Propagandas de shampoos e pastas de dente são clássicos. Há sempre um problema novo que ninguém conhecia e que só aquele produto é capaz de solucionar magicamente. A última pasta dental que vi resolvia 12 problemas bucais.

12… isso mesmo. A fórmula da tal pasta só pode ser uma fórmula esotérica. Num outro comercial a Angélica prometia dentes brancos em 14 dias se eu usasse a tal pasta dental. Eu tentei . E é claro que não deu certo. Preferi acreditar, do que raciocinar que 30 anos de 3 cafés diários não sairiam dos meus dentes em 14 dias.

A sociedade está louca. A corrida-dos-ratos não pára e os ratos não percebem que são ratos.

Programas

A cada vez que um programa de computador é atualizado, mudam-se cores, mudam-se posições dos botões, acrescentam-se algumas funções das quais ninguém sentia falta, e a empresa tem algo “novo” pra vender e eu perco o programa com o qual estava acostumado e com o qual tinha um manuseio já otimizado pela experiência diária.

Tirando as poucas exceções, vejo que certos segmentos tecnológicos estão chegando, ou já chegaram faz tempo, no limite da inovação.

Programas ²

Um dos motivos que fez com que eu perdesse o entusiasmo pelo investimento em ações:

1° – A equipe da minha corretora trocou o programa que era utilizado para as operações online. Mudou tudo. O programa anterior era simples e fácil de entender. Este programa novo foi preenchido com firulas inúteis que atrapalharam o manuseio de todos os operadores. O programa antigo ganhou um prémio de melhor home-broker do mercado. O novo não ganhou nenhum prêmio em dois anos. Significa?

2° – A corretora inventou um programa de fidelidade que supostamente me traria “facilidades” e eu deveria utilizá-lo, caso contrario passaria a ser cobrada uma taxa de custódia que antes nem era mencionada. TODOS os investidores reclamaram no twitter e certamente por emails e telefone e a empresa teve que voltar atrás. Coisa linda de ver como gente grande também faz grandes fiascos.

Ninguém por lá conhece o ditado “Em time que está ganhando, não se mexe”.

Eu nem trabalho com endinheirados, mas sei de uma forte característica de endinheirados: Eles são conservadores. Têm HORROR a mudanças. A única mudança que gente com dinheiro gosta de ver é o seu saldo bancário mudar para mais.

Este é um dos muitos exemplos de que na ânsia de “inovar” as empresas acabam fazendo presepadas dignas de nota. Eu que elogiava minha corretora para todos que me perguntavam sobre o assunto, não tenho mais motivo pra tal.

Programas ³

A partir das últimas versões, o programa CorelDraw, que usava para resolver minhas necessidades profissionais relacionadas a imagens e gráficos, eliminou um recurso que se chamava “Livro de Recortes”. Eu usava MUITO esse recurso, porque ele facilitava o encontro de cliparts (gráficos prontos) num banco de cliparts que mantenho no meu computador e que evitavam que eu precisasse partir do zero, em muitas ocasiões. Esse recurso me fez e faz ainda tanta falta, que só posso crer que a equipe que decidiu por eliminar um recurso assim tão útil estava em crise de criatividade.

Redes Sociais

Os motivos que levaram à decadência do falecido Orkut são vários. Mas eu aposto que o principal deles foram as constantes mudanças drásticas no layout da antiga rede social. Lembro que no início o Orkut tinha um layout bastante fofinho e amigável. Isso era lá por 2005. Logo em seguida houve uma mudança drástica. Muitas funcionalidades com as quais as pessoas estavam acostumadas foram mudadas de lugar, o que tornou o uso da rede social um tanto mais complicado. Então veio uma terceira atualização que ferrou com tudo. Lembro que deu o que fazer para entender como sair dos grupos de publicação dos seus contatos que viviam publicando aquelas imagenzinhas tosquinhas fofas no nosso mural.

A verdade é que chega um ponto que encontrar certas funcionalidades nos desperta uma imensa preguiça, dado que o retorno obtido para investigar tanto e aprender a usar algo que no fim só nos toma tempo de coisas mais importantes é igual a incrível quantia de… ZERO.

Redes Sociais ²

Com o Facebook não tem sido muito diferente. A rede hoje está muito diferente do que foi em seu início e, pra variar, está muito mais complexa. Tanto é que foi justamente a complexidade dela que fez com que brasileiros demorassem a aderi-la, além, evidentemente, do apego do brasileiros ao orkut.

Recentemente, o Facebook alterou completamente a exibição do mural, transformando-o em uma linha de tempo. Muita gente reclamou, porém com o tempo todos se adaptaram. É muito provável que novas alterações surjam com o tempo, só não é provável que nós, usuários do Facebook, continuemos a nos adaptar.

Shampoo

Não é só no meio digital que essas mudanças infelizes ocorrem. No momento do banho, também :)

Sempre tive muita caspa, e finalmente, quando encontrei o shampoo que me resolvia o problema, a ponto de escrever sobre o mesmo, logo em seguida a fabricante altera completamente as embalagens e a divisão dos shampoos para os diferentes tipos de cabelo. E fiquei órfão novamente de shampoo anti-caspa, pois até hoje não encontrei uma variação do mesmo com a qual eu sentisse a mesma efetividade e segurança.

Pois é…

:(

Se manter é uma forma de inovação

Acredito que quando chegamos a excelência, precisamos rever o foco. Quando alcançamos o topo, escolhemos se vamos continuar no topo ou se vamos descer o monte. Quando uma empresa ou pessoa alcança a excelência em sua atividade, me parece bem mais razoável alterar o foco de “alcançar a excelência” para “manter a excelência”. Quando tentamos alcançar o inalcançável, perdemos o pé e tropeçamos.

Acredito que uma vez estabelecidos, sejamos nós, sejam as empresas, devemos pensar menos em inovar, e pensar mais em se adaptar. Fundamento esse meu ponto de vista num pensamento amplamente atribuído a Charles Darwin e que na realidade é de Leon C. Megginson:

Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.

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Luis Fernando Veríssimo comenta o mesmo tema aqui