Meu lado brega me permitiu conhecer o trabalho do Cristiano Araújo. Tinha uns sonzinhos bons pra dançar e se divertir e usar como trilha sonora para cotovelos doloridos ;) Nada muito erudito, mas tinha força vocal e cantava melhor do que 10 MC’s juntos. …talvez 100.

Mas este comentário de Diego de Godoy mostra uma realidade de total desconhecimento de Cristiano Araújo por parte da elite cultural brasileira:

Eu também nunca tinha ouvido falar do cantor que morreu. Fiquei impressionado com seu alcance, número de seguidores etc., que mostram que, mais do que mera questão de nichos na música, o Brasil é uma Matrix de universos paralelos que convivem à revelia. Deste post insignificante a uma coluna no jornal (que se acha relevante), pregamos pra convertidos. Nossas trocas, na melhor das hipóteses, têm um alcance pífio. Os evangélicos não te escutam, o interior do país constrói seus valores, a periferia define seus gostos e discurso na mesma medida em que é ignorada e excluída.

E que equívoco chamar de periferia a grande realidade do país. Nós, tolos privilegiados, elite insensível, estamos é ilhados. Somos um Soweto invertido.

Acho isso tão trágico quanto perigoso. Não vemos as coisas boas que brotam por lá e as trevas da ignorância e do retrocesso já surpassam nossos muros. Pros dois lados.

Outros links interessantes sobre o abismo cultural que existe no Brasil:

Cristiano Araújo, o cantor que ninguém conhecia, exceto milhões

Morte de Cristiano Araújo expõe abismo cultural

Acredito que este fenômeno acontece porque apesar da web permitir uma expansão do nosso conhecimento da realidade, ela também permite a expansão do nosso narcisismo. Poderíamos conhecer muitas coisas diferentes, mas buscamos sempre o mesmo, isto é, só o que nos agrada. Só pensamos em nós, nos nossos gostos e preferências. A internet acentua também o valor do preconceito como forma de filtrar o excesso de informações a que somos expostos diariamente.

É justamente o conceito de nichos e cauda longa de Chris Anderson… Vivemos em bolhas de realidades distintamente infinitas, desde sempre. A web expandiu um pouco essas “bolhas”, mas continuamos ilhados dentro de nossos próprios mundinhos, uma vez ou outra trocando impressões com outras pessoas de realidades semelhantes.

Entretanto continuamos com a pretensiosa, mas também ilusória convicção, de que temos plena noção de toda a realidade que nos cerca.

É fato: De vez em quando nós realmente encontramos coisas muito bizarras que ~ realmente existem ~ e só demonstram que a realidade é infinitamente mais complexa do que consegue apreender a leitura que o intelecto humano faz dela, e divulga depois através da mídia.

Meio óbvio, mas sempre nos surpreendemos com isso, porque dizer que o ser humano é capaz de absolutamente tudo não é mera figura de linguagem.