Ateísmo

Ateísmo

Eu costumo acompanhar vários blogs. São sites muito voltados para a expressão da opinião pessoal de seus autores. Todos os autores que acompanho são de uma inteligência admirável. São pessoas muito bem instruídas e informadas cujas opiniões são muitas vezes ousadas e polêmicas porque fogem do senso comum. Até aí tudo bem, é justamente por isso que leio, se fossem opiniões iguais as minhas porque haveria de acompanhar?

No início me sentia mal com algumas polêmicas criadas, tentando participar nos comentários expondo meu ponto de vista, inutilmente. Hoje apenas acompanho, também entendendo que são as polêmicas que geram visitantes a esses blogueiros. Machado de Assis já sugeria a um século atrás a nos mantermos distantes do “pugilato das idéias”, o que resumindo nas palavras de hoje, significa evitar de participar de discussões inúteis, e praticamente todas as discussões são inúteis. Até posso eventualmente convencer alguém através dos meus argumentos, mas e daí, o que muda com isso? No geral, pouca coisa.

No entanto há uma percepção recorrente que tem me surpreendido. É encontrar tantos blogueiros ateus. Assumidamente ateus. E não é nem um nem dois. São vários. A maioria dos melhores blogueiros que acompanho assumem a inexistência de Deus. Dado o meio em que me criei, confesso que isso me choca. São extremamente inteligentes e extremamente descrentes. E acho que a minha surpresa é assumirem algo de que eu tenho também comigo. Talvez não em tão alto grau. Não que eu pense que tudo isso que vemos e sabemos existir surgiu do nada. Mas minha idéia daquilo que seria Deus é muito diferente do convencional. E mesmo que eu fosse ateu “convicto” não faria muita questão de alardar. Tal posicionamento não nos coloca em posição melhor nem pior.

Atualmente está na moda ser ateu. Até surgiu uma campanha na Inglaterra para que os ateus se assumam. Já vi reportagem na Isto É, também.

Larry King perguntou uma vez a um entrevistado, nem lembro qual: “Qual será o seu último pensamento?” E o entrevistado respondeu algo assim: “Espero estar errado”. Larry afirmou que este também será o seu último pensamento em vida. Na iminência do fim, ou de uma possível passagem, preferem que suas opiniões sobre o pós-vida – para eles inexistente – estejam erradas e assumem que prefeririam “continuar”. Acho que qualquer ateu que tenha um mínimo de autoestima e prazer em viver deixará esta vida com pensamentos semelhantes.

Penso que insistir na inexistência de Deus ou da vida após a morte é um ato tão desprovido de bom senso quanto o alarde religioso exagerado é desprovido de razão. Sinto um tom subversivo e provocativo. Um tanto infantil. Alardam o que os crentes não querem ouvir, e o que seus semelhantes já sabem – que seja lá o que possa ser Deus, certamente não é um homem invisível de barbas brancas vivendo sobre as nuvens. E no fim, nenhuma dessas opções ajuda muito, penso eu. O que é melhor, termos sido criados no 6º dia ou sermos resultado de uma grande explosão?

E quem somos nós para afirmarmos se existe um Deus ou não? O que sabemos? Só o que sabemos é que nós, eu e você, existimos. Só! Sabemos que a compreensão plena do Universo foge da nossa capacidade. Portanto afirmar a inexistència de uma inteligência superior, só porque não se pode percebê-la aos sentidos, não é lá mais racional do que afirmarmos a existência de Deus só porque acreditamos. Ninguém pode provar cientificamente que exista essa força superior, bem como ninguém pode provar que não existe, ainda mais quando de repente, nós mesmos somos a prova da existência.

Se acreditamos em algum Deus é porque sentimos essa necessidade. É reconfortante diante da idéia da morte inevitável. Os ateus não precisam deste conforto. Aceitam bem a realidade como ela é, ou às vezes nem isso. Pessoas inteligentes demais tendem a ser infelizes porque são inconformadas com a imperfeição do mundo. Demonstram uma impaciência crônica para com o gênero humano. Sentem uma dificuldade imensa em aceitar a imperfeição alheia.

Luxo é ser compreendido. Ralph Waldo Emerson

É como se sentissem uma necessidade de que todos pensassem como eles. Sentem-de solitários e incompreendidos. Mas talvez o que lhes falte é justamente o exercício da compreensão.

Não digo que devemos conviver com as imperfeições alheias. São insuportáveis. É mais do que normal querermos viver em meio a semelhantes. Mas uma coisa é conviver, outra é compreender. Qualquer inteligência será inútil se não proporcionar a nós a capacidade de compreender a condição humana. A condição de seres limitados, mas com potencialidades e grande capacidade de crescimento interior. É fácil? Não, se fosse todos teríamos um nível de compreensão digno de líderes espirituais.

Atualização 28/4/2009 – Encontrei por acaso este texto que fala um pouco sobre esse aspecto de as pessoas inteligentes sentirem uma certa dificuldade em compreender a imperfeição do mundo. É de 2007 mas é interessante a reflexão do autor.

Veja também – Reportagem da Revista Época sobre Inteligência Espiritual