Agora dá licença, que eu vou sumir

Agora dá licença, que eu vou sumir

Faz algum tempo que quero, e preciso escrever sobre certos assuntos, porém sem ter algo muito conclusivo, e muito menos coerente, para expor.

Por isso o que segue são anotações desconexas, que giram em torno de temas como a dificuldade de se encontrar um sentido para a vida (já tratado de forma mais positiva aqui, e de forma mais pessimista aqui.), sobre ceticismo, desencanto, responsabilidades etc.

Portanto, se você tá legal, não recomendo a leitura.

Deus

A existência humana é de fato um grande, e o maior dos mistérios.

A princípio, é certo que ela não deveria existir.

Mas existe.

E só o fato de existirmos, nos leva a deduzir que houve – e há – um princípio criador de caráter inteligente e divino por trás deste fenômeno. Na verdade este é o melhor argumento a favor da existência de Deus.

E também o único.

Ceticismo

A ciência, desde o seu surgimento, se desenvolveu com base na matemática e na lógica. E tem obtido muito sucesso desde então desenvolvendo e melhorando nossa precária existência. A ciência foi infalível na tarefa de melhorar a qualidade de vida do ser humano. E também é infalível quando usa a lógica como forma de interpretar a realidade.

Porém nessa interpretação, se sai absolutamente pessimista. Porque não encontra qualquer sentido razoável para a nossa existência, nem qualquer vestígio razoável da existência de entidades divinas que tenham algum sentido para a vida, escondidos nas suas divinas mangas.

Mas na mesma medida em que usufruímos todas as benesses tecnológicas que a ciência nos trouxe, rejeitamos de pronto esta interpretação científica – absolutamente cética – da realidade, por ser angustiante demais.

Nestas questões, nos agarramos às religiões, filosofias e esoterismos místicos, cada qual com sua explicação fantasiosa sobre a criação do universo, a origem da vida, o surgimento do ser humano e o seu fim.

Eu não sou pessimista, o mundo é que é péssimo. Saramago

É preciso ter coragem para ser cético. Porque o ceticismo nega todas essas fantasias, e reconhece-as como fantasias.

Porque são, de fato, fantasias.

Viver para quê?

Ora, qualquer aprofundamento nas respostas religiosas vai nos levar a um beco sem saída.

Por exemplo, para a pergunta fatídica: Por que há sofrimento?

Responderia o cristão: Castigo, provação, salvação

Ou o budista: iluminação, correções karmicas, evolução, reencarnação

Hum, vamos adiante:

– Para quê precisamos ser castigados, provados, sermos salvos?

– Para quê precisamos nos iluminar ou evoluir?

Evoluir para quê? Salvar-se de quê? Se fomos criados supostamente, e justamente, por um Deus PERFEITO?

Um Deus PERFEITO, que cria seres imperfeitos.

Por diversão? Para se entreter em meio ao tédio cósmico?

É evidente que essa questões não possuem respostas.

Um sentido sem graça

O único sentido plausível e evidente da vida, é que fazemos parte de uma corrente de vida que vem desde o primórdio dos tempos. E como elos desta corrente, trazemos a tendência de nascer, desenvolver, sobreviver (quase sempre através de lutas árduas), procriar, encaminhar as crias, e morrer, além de sofrer bastante durante este trajeto…

…a não ser que você tenha sido o sorteado na loteria espiritual e tenha obtido a sorte / privilégio de viver durante sua breve e inútil existência aquilo que chamamos de…

…Felicidade

O que tenho enxergado ultimamente é que o sofrimento físico faz parte da existência porque faz parte da natureza precária da qual fazemos parte.

Mas em especial, o sofrimento moral – isto é, a dor das perdas, agonias, dramas e angústias da vida – são fruto da decepção decorrente da falsa promessa que nos é incutida desde pequenos, principalmente nessa era midiática sob a qual vivemos, enfim, à mentirosa promessa de que poderemos algum dia ser felizes.

Ou à promessa mais vil ainda, de que MERECEMOS ser felizes.

Nunca houve esta promessa. Você não tem obrigação, nem dever, talvez nem merecimento, e talvez nem possibilidade de ser integralmente feliz algum dia.

(desculpa lembrar)

Veja bem:

TALVEZ… Por algum tempo…. Você possa se sentir feliz, completo e realizado. E se isso acontecer, dê graças ao acaso. Não dê graças a Deus, nem se considere estimado ou escolhido por ele, porque assim como ele dá, ele tira. Porque assim como ele lhe permite uma vida razoável, não está nem aí com aquele imigrante sírio que não tem mais nem casa, nem família, nem nada…

...nem vida

…nem vida

Não dê graças a Deus, porque, numa instância além, ele não está nem aí pelo que acontece ou deixa de acontecer na sua vida; porque, em última instância, ele não existe.

Quem sabe, na melhor das hipóteses, você tenha por merecer tudo que tem, com base nesta e em suas existências passadas. E também tenha por merecer suas derrotas, fracassos e perdas porque nunca construiu nada de efetivo para você ou pior, só destruiu a vida dos outros.

Na pior das hipóteses, o que você tem ou deixa de ter nada mais é do que fruto do mais intransigente acaso, pelo que deve se sentir-se no mínimo, privilegiado(a).

Perfeição

Quem me conhece ou lê meus textos, sabe que sempre tive a tendência a compreender o mundo e a existência através da visão espírita / budista, as quais levam em conta conceitos como carma e vidas sucessivas, cujo objetivo é a evolução.

Normalmente, quando entramos em contato com esses conhecimentos, e chegamos até o conceito de evolução como explicação para as infinitas tretas que enfrentamos na vida, nos contentamos e paramos por aí.

Mas o que aconteceu comigo foi que – infelizmente – fui motivado a pensar sobre essa tal de evolução.

E percebi que o conceito de evolução espiritual exclui o conceito de um Deus perfeito, amoroso e misericordioso. (sempre lembrando que podemos estar sendo agraciados com sua divina misericórdia e nem estejamos percebendo, nós, os ingratos).

Um Deus perfeito, se existisse, não criaria seres imperfeitos para:

– Fazê-los sofrer, aprender duras lições de realismo e cinismo, até evoluírem e alcançarem um patamar de evolução espiritual igual ao de seu criador…

…ou…

– Fazê-los sofrer para pagar por pecados feitos quase sempre por inconsciência, fraqueza e impulso, temendo queimar eternamente num inferno qualquer dessas esquinas do universo.

Um Deus perfeito criaria seres perfeitos. Se somos assim tão imperfeitos e dignos de decepções, frustrações, perdas, amargores existenciais e dores físicas, então temos muito o que evoluir. E se temos que evoluir, é porque fomos criados por algo imperfeito, tipo, quem sabe, o próprio universo.

Leia mais: O universo moral

Reencarnação

Eu já li o suficiente sobre o tema para crer com certa convicção de que reencarnação já não é um tema esotérico e sim, um tema evidente. Eu realmente acho que é um fenômeno claro e evidente (mas é preciso estudar sobre o que se tem descoberto sobre o tema, que já deixou o  campo das crenças para o campo da evidência).

PORÉM…

…mesmo acreditando que a reencarnação é uma probabilidade forte, ainda assim tenho um pé atrás com ela. O fenômeno da reencarnação me parece muito provável, porém dentro da evolução do próprio universo, e não como um instrumento divino para a evolução das almas.

Me parece mais razoável que nossas consciências, em constante evolução, surgiram da evolução do próprio universo, da matéria, e possuem a propriedade de transmigrarem de corpo em corpo.

Muito mais do que terem uma natureza divina.

Precariedade espiritual

Há muitos anos, quando eu ainda tinha alguma esperança de ser feliz na vida, lia muitos livros espíritas e da seicho-no-ie. A mensagem geral deles é que há um mundo espiritual absolutamente perfeito por trás dessa realidade física, o qual cuida para que tudo transcorra na mais perfeita justiça. E eu acreditava…

Seria aliviante se assim fosse. Mas também lembro que numa oportunidade, lendo um desses livros, dizia-se que quando os brasileiros morrem, iriam para uma tal cidade espiritual – talvez estivesse fazendo referência mesmo ao Nosso Lar – que havia sido fundada (esta cidade espiritual) por portugueses há muito tempo desencarnados.

Por. tu. gue. ses.

(Tipo assim, nada contra os portugueses, que possuem um pais bem mais organizado que o Brasil. Mesmo se dissessem que esta suposta cidade espiritual tivesse sido fundada por ingleses ou alemães, eu continuaria com uma pulga atrás da orelha)

Por mais perfeitos e evoluídos que sejam esses tais portugueses do além, a ideia de ir para uma cidade espiritual fundada por qualquer tipo de ser humano desencarnado, depois da minha morte, não me atrai nem um pouco e não me inspira qualquer confiança.

Justiça

Essas minhas divagações sobre esses supostos mundos espirituais, que antes eram perfeitos, agora são até mesmo humanos, me fazem desacreditar em algo que sempre apostei minha confiança:

De que as coisas aconteçam nesse mundo com base em alguma justiça, por mais que não a percebamos num primeiro momento.

Talvez não haja justiça divina, talvez você seja um grande azarado, e aquele outro um grande sortudo.

Ou talvez a justiça divina, ou universal, nada tenha a ver com nossa ideia de justiça.

Ou seja, sabe aquele brinquedo que te tomaram quando você era criança e você ficou dias chorando? Pois é, talvez para o resto da história universal, ele nunca te seja devolvido, e muito menos terá você a chance de tomar um brinquedo igual de alguém, só para sentir o gostinho da vingança.

Nem no paraíso. Nem na próxima vida.

Muito menos no inferno.

Já era.

Baixa a cabeça e segue pra frente.

O Peso

Eu entendo perfeitamente… PERFEITAMENTE, porque as pessoas usam drogas.

Álcool, tabaco, marijuana, pó…

PERFEITAMENTE.

A vida não merece ser encarada de frente.

Aliás, ela é muito curta e muito traiçoeira para ser levada a sério.

Embriague-se o quanto puder, o tanto que puder, seja do que for.

Se o que motiva o uso de drogas é uma fuga, para anestesiar a própria consciência do enfrentamento constante com a realidade dura e intransigente, então eu entendo, e sou condescendente.

Também consumo minha droga, que é o álcool. Vinho, cerveja, conhaque, whisky (por enquanto) em quantidades moderadas.

Lembrando que há outras drogas, para as quais as pessoas rumam quando não sabem o que fazer consigo mesmas e com os problemas que têm: comida, exercícios, trabalho, casamento…