Professora, não é azul, não!

Professora, não é azul, não!

Não, não estou ridicularizando a famosa frase do astronauta russo após constatar a grandeza azul do nosso planeta. É que após ler esse post criticando a atual situação do ensino brasileiro, muito real (e muito aplaudido :) ), entendi certas coisas que antes não compreendia. O autor fala do sistema de ensino atual, no qual os alunos “não podem” reprovar, com a tal da PROGRESSÃO CONTINUADA, esta mais estimulada por questões políticas do que por uma efetivação real de um novo pensamento sobre a educação. Fala também que o resultado é o que vemos por aí, pessoas consideradas analfabetas funcionais, ou seja, resumindo, não são ensinadas “a pensar”.

Eu mesmo vivenciei um pouco disso, quando entrei para a faculdade de desenho industrial, fui o primeiro colocado no vestibular, mas quando recebi o envelope com a nota confesso que mesmo assim fiquei um tanto frustrado. Eu evidentemente não morri de estudar, apenas segui o meu ritmo, confiante, até porque sempre fui interessado nos estudos e tinha um bom nível de conhecimento para conseguir um resultado razoável e entrar para a univerdade. Ou seja, estudei o suficiente para ENTRAR, nem que fosse o último, mas não para entrar em PRIMEIRO. Mas foi aí que veio a surpresa, minha nota geral foi 6,75, abaixo da média de 7 pontos, vigente à época, para ser aprovado no ensino fundamental e médio. E todos os outros 43 alunos que prestaram o mesmo vestibular e foram “aprovados” ficaram abaixo disso. Isso me deixou confuso, ao mesmo tempo em que me senti o máximo por ter ficado em primeiro, acabei sentindo que nem foi tanta vantagem assim.

Foi uma das primeiras ocasiões onde senti que levar o que os outros falam a sério é perigoso. Nos meses antecedentes ao vestibular o que eu mais temia era justamente esse bicho chamado vestibular pelo tanto que falava-se: Estude! Não é fácil! A concorrência é grande! São muitos alunos para poucas vagas! Etc. Depois que tudo passou percebi que a concorrência é grande sim, mas somente nas universidades públicas e nos cursos mais procurados. E não em todos os cursos de todas as universidades.

Outra situação em que é fácil perceber o modo como o Analfabetismo Funcional está generalizado é nessa vida digital, quando recebemos emails muitas vezes incompreensíveis, onde a pessoa deixa nítida sua impaciência, incapacidade de aplicar um pouquinho mais de atenção ou simplesmente um desconhecimento de como redigir algo compreensível.

Lembro de uma palestra da Fernanda Montenegro que tive a sorte de assistir (mesmo que pela televisão), no canal da Assembléia Legislativa de Santa Catarina. Não era bem uma palestra. Ela simplesmente divagava sobre os mais diversos assuntos, conduzida em parte pelas perguntas feitas pelos presentes. A mulher inegavelmente é uma das grandes personalidades brasileiras da atualidade, senão a maior. E numa altura da conversa discorreu sobre o ensino escolar e as deficiências do mesmo por ela percebidas. Num momento exemplificou de forma simplérrima como fazer as crianças adquirirem o hábito de pensar. Num toque ligeiro de encenação, fez-se a ler uma questão trazida por um professor, a simples afirmação provocativa: “A maçã é azul!”. Questão que para uma criança de 7 ou 9 anos de idade é digna de uma parada para se pensar e se concluir que não, ela não é azul. Enfim, minhas palavras são insuficientes para descrever a forma elegante com a qual Fernanda Montenegro colocou diante dos espectadores tão fundamental questão, a do estímulo ao hábito de pensar desde cedo na vida.

Agora fala meu lado “perverso”: Por outro lado, convenhamos que pôr a culpa do analfabetismo funcional na infra-estrutura, no governo, nos professores, na progressão continuada, não resume toda a origem do problema. É preciso assumir que uma grande parcela da população simplesmente não está nem aí para o auto-desenvolvimento cultural e intelectual. Já que na mídia, constantemente surgem aqui e lá diversos exemplos de gente que sai do nada e alcança o sucesso, devido antes de mais nada, ao próprio esforço em buscar melhores condições e lugares para desenvolver seus próprios talentos e vocações. É aquela história, quando queremos algo, conseguimos. Agora quando não queremos, arrumamos alguma desculpa qualquer.