Esta é a segunda parte do texto. Leia a primeira aqui

TUDO ISSO por uma logomarca???

Ou…

Ah mas é só um scriptzinho!!!

No âmbito do web-design ou a atividade de desenvolver sites para a internet, área com a qual me identifico mais e estou mais focado atualmente, também é comum a noção de que a atividade em si ainda é uma atividade de “adolescente” e que não tem valor intrínseco. Assim como no design gráfico o senso comum acha caro uma logomarca a 600 reais (e olha que estou sendo generoso), no web-design também tendem a pensar que qualquer funcionalidade a mais num site é coisa de se tirar de letra, só um scriptizinho que se faz em 10 minutinhos. Este rapaz escreveu um ótimo texto sobre esse tema.

Depois de algum tempo no web-design, você também se desgasta. No início, são anos trabalhando incessantemente, aprendendo DE TUDO, levando dias para programar certas funcionalidades, sempre ganhando muito pouco. Quando você começa a vender seus próprios sites, é sempre a um valor muito abaixo do necessário para levar uma vida digna e quando se dá conta, encontra sites oferecendo websites a custos irrisórios (como estes: aqui e aqui).

Particularmente, sempre tive um nível de expectativa financeira considerável para a minha vida. Nunca quis muito pouco. Então chega num ponto em que você percebe que toda aquela dedicação e energia para resolver assuntos minuciosamente técnicos dos sites que você cria ou mantém NUNCA vai te levar onde você quer. Vê que não é coisa séria, e começa a acreditar mesmo que é coisa para adolescente se entreter. Você começa a olhar para os lados e vê muitas pessoas muito bem sucedidas e, se tiver um mínimo de ambição na vida, conclui: Preciso parar de perder tempo e energia com essa brincadeirinha de fazer sites e encontrar algo que realmente dê dinheiro.

Se eles conseguem, eu também vou conseguir, e o primeiro passo é parar de dar murro em ponta de faca.

Com um misto de intenção e sorte, consegui. Mas aí já é outra história :)

Não sou eu que vou evangelizar o bom design no Brasil

Depois do episódio (ao final do texto) da moça que “trabalha com marcas TAMBÉM”, eu decidi que queria sair fora disso, ao menos da parte gráfica. Jamais vou chegar a lugar algum na minha vida tendo que ficar explicando pra cliente porque não seria indicado utilizar a fonte Bankgothic em seus cartões de visita. Jamais qualquer um vai chegar a lugar algum tendo que convencer o cliente do porquê este trabalho vale x e não x/5. Trabalhar com design é super jóia, mas ter que se submeter a clientes que nem conhecem os critérios adequados para avaliar o serviço pelo qual estão pagando, não dá!

Eu sei! Evidentemente estou expondo aqui meu atestado de incompetência para atuar como designer. A realidade do design e a falta de uma perspectiva realmente motivadora aos poucos foi me mostrando outros motivos para partir para outros segmentos, dentre os quais noções que adquiri em livros sobre educação financeira de que se é para nos esforçarmos, é melhor nos esforçarmos num ramo que permita um crescimento desatrelado à prestação de serviços. Por exemplo, é relativamente visível a vantagem de se vender produtos, do que serviços. Se eu vendo bebidas e um cliente me pede 10.000 garrafas, eu encomendo e a fábrica me manda as 10.000 garrafas. Agora vai fazer 10.000 sites, ou 10.000 cortes de cabelo, ou 10.000 massagens, etc. No meu caso particular, me identifiquei muito com a bolsa de valores (tendência de quanto mais tiver, mais ganha, e não, não é um lugar tão perigoso quanto parece) e com a renda de publicidade online (não há limite para os acessos de um site). Talvez esses motivos sejam subterfúgios, talvez sejam consistentes, mas o fato é que a perspectiva de se viver assim me dá muito mais ânimo do que ter que ficar evangelizando clientes para que conheçam a “boa nova” do design.

Às vezes temos que nos perguntar o que realmente queremos para nossa vida.

Prestígio e valorização profissional

Um designer se vê obrigado a conhecer tantas coisas: Comunicação visual, teoria das cores, tipografia, além de ter uma ampla cultura visual. Mais os programas que permitem a criação como Ilustrator, Photoshop, Corel Draw; sem contar o meio em que trabalha, pois quem trabalha com impressões deve saber tudo sobre tabelas de cores, tipos de impressão, tipos de papéis, etc. Já quem trabalha com web deve conhecer o básico de gerenciamento de servidores, alguma linguagem de programação, javascript, html, semântica, SEO, rentabilização online, ufa!!!

E quem liga? Ninguém vê isso, ninguém valoriza. Você pode saber tudo isso acima, e muito mais (como eu sei) e ao dizer que é designer para alguém, dizem: “Ah que legal, faz o quê?”

Já um advogado pode ser um bosta de advogado, mas em qualquer lugar que ele chega e diz “eu sou advogado”, só falta lhe fazerem gestos de reverência.

E você?

Se você consegue se imaginar o resto da vida na frente de um computador criando trabalhos ótimos que boa parte dos seus clientes não saberá sequer avaliar (ou entender). Se você consegue se imaginar como uma máquina de produzir gráficos e peças bonitinhas incessantemente e ganhar uma remuneração média por isso, ou melhor, se o dinheiro por acaso não é motivação preponderante para você, vá em frente, o design é pra você, essa é a realidade que te espera.

Existe aí uma discussão questionável de que o importante é fazer o que se gosta! Depende. Muita gente estuda design porque se acha criativo e gostaria de exercer essa criatividade. Beleza! Mas há N formas de exercer sua criatividade no mundo. A remuneração de um designer empregado é mediana, principalmente fora dos grandes centros. Talvez como empresário, dono do seu próprio estúdio de design, ou como designer sênior de alguma empresa, você até poderá ganhar melhor, tendo ainda que ralar muito. E na verdade, como empreendedor ou diretor, você vai gastar seu tempo mais com atividades estratégicas e burocráticas, e aparentemente “secundárias”, como vender (muito embora vender não seja secundário, e sim, fundamental) do que criando propriamente (observação de Gilberto Strunck em seu livro Viver de Design).

Portanto, se é pra vender sua alma ao mercado e gastar toda essa energia, mais vale gastá-la num ramo profissional mais consistente e que permita um crescimento efetivo, para sua carreira, e para a sua vida. Se é para vender a alma, que seja por um bom valor, isto é, numa profissão ou atividade profissional que pague bem. Atualmente, acredito que quem tem amor-próprio e quer se ver bem na vida, deve cair fora do design, principalmente o gráfico, o mais rápido possível. Pois repito, você pode ser criativo de várias formas na vida, não só no CorelDraw ou no Ilustrator.

Tanto é assim que ainda hoje os designers medianamente “bem sucedidos” que conheço estão dando aulas em faculdades. Lá conseguem uma remuneração razoável e estável sem muito estresse de ter que conseguir clientes, dar conta da produção e resolução de “pepinos”. Porém vê-se aí uma contradição. A princípio, você estuda uma área de atuação profissional para… atuar profissionalmente. Só depois de um mínimo de experiência e êxitos adquiridos, você é chamado para compartilhar suas experiências… dando aulas.

No mundo do design, não é bem assim.

Leia a terceira parte do texto sobre a realidade do Design

Alguns links que confirmam o que eu digo

– Se você acha que estou exagerando, ou viajando, leia um texto muito interessante e bem humorado sobre as características dos designer gráficos ;-)

– Outro comentário breve mas nada empolgante de Felipe Tofani (clique e veja, ao fim da imagem), sobre a realidade do design gráfico: “Se lá nos Estados Unidos o pessoal sobrevive com outros empregos fora da área, aqui vivemos em sub empregos numa semi escravidão”

– Aqui, um cartoon do Nerdson.

– Aqui, uma resposta hilária a um anúncio de estágio em design ou aqui também.

– Veja uma sequência de cartoons do De (ath) sign confirmando muito do que eu digo (navegue no topo direito da página)

– E um link com dicas para ficar esperto trabalhando com design.

Escolhi uma profissão de merda. E agora?

– 2014 Exame: Design Gráfico, o sétimo curso com pior perspectiva de carreira nos EUA