A roda do karma - bonitinha mas ordinária

A roda do karma – bonitinha mas ordinária

Quando você se depara com as injustiças do mundo ou convive com injustiças pessoais, sente uma necessidade inevitável de tentar entender o porquê dessas injustiças. E nesta busca por respostas, acabará apelando para o mundo espiritual, pois se você se basear pelo materialismo filosófico, terá que conviver com a ideia de que o mundo talvez seja de fato injusto, o que pode lhe soar insuportável.

Porém mesmo nesse vasto campo do conhecimento espiritual, vai perceber que nem todas as crenças podem ajudar de fato. Veja o cristianismo, por exemplo. É o sistema de ideias espirituais sob o qual a maioria de nós foi criado, mas de modo geral não oferece explicações razoáveis para as tais injustiças, limitando-se a soluções como “é a vontade de Deus”.

Então eventualmente você conhecerá algo sobre o espiritismo ou sobre o budismo e com eles ficará conhecendo os conceitos de Carma ou da “lei de causa e efeito”. Simplificando, esses conceitos explicam que tudo tem uma causa, e que as causas para nossos problemas bem como para a nossa felicidade podem transcender, e transcendem, as fronteiras da morte ressurgindo em um possível renascimento de nossa essência espiritual em outro corpo, em outro tempo. Isto explicaria o porquê de algumas pessoas nascerem sob tanto sofrimento, e outras nascerem envolvidas por tanto amor e atenção. Pois tais condições dependeriam exclusivamente da própria pessoa e da trajetória que ela trilhou e criou ao longo de suas existências.

Quando você conhece esses conceitos, passa a enxergar com maior aceitação a vida e as injustiças do mundo. Entendemos que possivelmente os outros não são culpados por nossas mazelas e que muito provavelmente a causa de nossas dificuldades está em nós mesmos e em nosso interior quase sempre completamente desconhecido. Daí a importância do auto-conhecimento.

Mesmo assim, os mais céticos  ainda tem dificuldade de aceitar – porque na verdade têm dificuldade de IMAGINAR – que aquele sujeito bonzinho assassinado injustamente assassinou alguém numa vida passada. Mas não é tão difícil assim. Basta imaginar que o assassino mais cruel já foi um neném frágil e fofinho. As aparências não só enganam como mentem descaradamente. Além de que nossas posturas dependem muito das circunstâncias que nos rodeiam. É muito fácil sermos cidadãos exemplares, otimistas, tranquilos, sossegados, pacientes, simpáticos, compreensivos, bonzinhos, etc quando estamos sem problemas. Ora, é justamente nas horas críticas que realmente sabemos do que somos capazes. Qualquer um faria coisas terríveis sob opressão. É complicado ficar julgando assim, entretanto, acredito que as explicações para os fatos tendem a ser mais complexas do que simples, e que estamos longe, muito longe de conseguirmos enxergar todos os poréns de cada tragédia.

Os céticos tem igual dificuldade de IMAGINAR que aquela criança que sofre hoje de câncer prematuramente está eventualmente trazendo algum resgate de uma vida passada. Até porque a dificuldade está até mesmo em compreender o que é um resgate. Nem todo resgate é um castigo por más atitudes no passado. Doenças de modo geral não são castigos, e sim problemas emocionais não resolvidos, nem que esses problemas emocionais não resolvidos tenham sido trazidos em nossa essência espiritual de lá de nossas vidas passadas. Quase sempre somos nossos maiores algozes.

Muito dessa dificuldade se deve ao desconhecimento da diferença entre Carma e Trauma, diferença esta que vim a conhecer/perceber recentemente após uma palestra do terapeuta e hipnólogo Celso Noronha. De modo geral, me parece que Carma é para fora, tem a ver com influenciar, atingir e prejudicar os outros. Trauma é pra dentro, tem a ver com ser atingido ou prejudicar a si mesmo, por não saber lidar com os outros. Posso até estar equivocado quanto a esta definição, muito embora ela faça bastante sentido. A algumas pessoas excede o impulso para influenciar os outros, enquanto para outras, lhes falta a auto-afirmação suficiente para manterem a própria integridade física e espiritual.

Porém aqui neste texto, pretendo deixar de lado as questões traumáticas e focar na questão do Carma:

Plantar é opcional, colher é obrigatório

Será?

Eu mesmo já citei este ditado por aqui, porém o mesmo é a prova de que alguns ditados populares podem ser grandes bobagens. Duas observações relativamente recentes me mostraram algo que eu relutava em aceitar. Três, aliás:

Primeiramente as igrejas evangélicas, para as quais nenhum “carma” é mais forte do que o amor de Jesus. Dramático, mas talvez muito verdadeiro. É bem verdade que se as Igrejas deixassem de oferecer soluções milagrosas e imediatas para os nossos problemas, perderiam 90% de seus fiéis. Mas, né? E se estiverem certas?

Posteriormente, há alguns meses atrás encontrei na internet o livro A Magia do Poder Extra-sensorial de Joseph Murphy, o qual possui um último capítulo destinado a comentar a relação entre vidas sucessivas, carma e nosso poder espiritual. No fim deste capítulo está este trecho:

 O Carma, ou colheita do que você semeou, resulta ser inexorável APENAS enquanto não oramos ou meditamos sobre as verdades de Deus. Apenas oramos, elevamo-nos acima do Carma, e as conseqüências desagradáveis de erros passados começam a apagar-se. Por mais horrível que seja o crime — seja assassinato ou qualquer outro delito hediondo — pode ser apagado da mente juntamente com todo o castigo que ordinariamente se seguiria. Uma profunda fome e sede de amor e graça de Deus, mais um intenso desejo de se transformar, são essenciais para apagar o castigo que de outro modo se seguirá ao pensamento negativo e destrutivo.

Essa passagem realmente me chamou a atenção por contrariar um conceito que para mim era sólido e até muito lógico, já que me servia de justificativa (ou consolo, vai saber) para o que chamamos de injustiças do mundo. A possibilidade da Reencarnação associada à ideia de que aqui se faz, aqui se paga, aqui se planta, aqui se colhe, nem que seja numa próxima vida, realmente ajuda a entender muita coisa nesse mundo louco. Mas… e se a reencarnação e carma não forem os conceitos definitivos nessa questão prática?

Então nos últimos dias, durante uma palestra espírita, o palestrante exibiu a seguinte citação de Joanna de Ângelis em seu slide:

A resolução para ser feliz rompe as amarras de um carma negativo, face ao ensejo de conquistar mérito através das ações benéficas e construtivas, objetivando a si mesmo, o próximo e a sociedade.

Pois é, parece que o conceito de carma definitivamente não é o conceito final quando o assunto é a compreensão das desigualdades na condição humana. Para quem está mais preocupado em entender do que em ser feliz, o conceito de carma é um prato cheio. Porém para quem está mais disposto a viver a vida e curtir o que ela oferece de bom, a ideia de viver uma vida inteira para zerar o carma resultante de alguma grandiosa bobagem que tenhamos feito numa vida passada não é nada animadora.

E esses três pontos de vista que eu citei agora realmente demonstram que é bem possível que o amor de Deus seja algo definitivamente infinito, ao qual podemos recorrer a fim de renovar nossa vida e renovar nossa visão dela. E para essa renovação, o BEM autêntico dirigido a si mesmo e aos outros parece ser a senha de entrada, o preço a ser pago pela redução do carma.

A graça divina pode suplantar o carma. A graça divina é a intervenção sagrada, uma mão amorosa descendo do céu em nosso auxílio, para diminuir nossas dificuldades e sofrimentos. Uma vez que tenhamos aprendido a lição, não há mais necessidade de sofrimento, mesmo que o débito cármico não tenha sido integralmente pago. Estamos aqui para aprender, e não para sofrer. Brian Weiss

Continuo certo de que romper as amarras de um carma negativo não seja tão simples quanto se alega. Nem todos sentirão a profunda fome e sede de amor e graça de Deus sugeridas por Joseph Murphy. E tampouco sentirão o intenso desejo de se transformar que Murphy alega ser necessário para se zerar o próprio carma. E neste caso sim, para estas pessoas que ainda não alcançaram essa renovação na postura e na visão da vida, o carma será implacável, até a sua última medida.

O Fator Aladin

Não gosto de gente que não sabe o que quer

Não gosto de gente que não sabe o que quer

Sim, não bastasse toda essa complicação de eventualmente termos resgates de vidas passadas a se fazer, sejam resgates cármicos, sejam resgates traumáticos, ainda há outras complicações:

Não sabermos o que queremos
e
sabermos o que desejamos e não querermos

Você entende?

A primeira é simples, não é difícil perceber que a maioria das pessoas sequer sabe o que quer da vida, constituindo para elas uma grande e importante missão para esta vida: Descobrir o que se quer.

Algumas outras até sabem o que querem, e para outras em especial, aquelas atingidas por problemas cármicos ou traumáticos, saber o que se quer é algo muito óbvio, que é livrar-se do problema que lhes tolhe a liberdade.

Ou seja, sabem que têm uma limitação, sofrem com isso, sonham como seria bom se não tivessem essas limitações e no entanto…

…passam uma vida inteira sofrendo e não fazem nada, ou muito pouco, para melhorar. Por algum motivo, sequer acreditam que merecem uma condição melhor.

Por isso o subtítulo desta seção: O Fator Aladin ( termo cunhado por Jack Canfield ). Aqueles que sabem o que querem, DEVEM QUERER, desejar, almejar, PEDIR, buscar e tentar chegar lá. Não espere que Deus olhe por você! Coloque-se no lugar dele: Não deve ser nada fácil gerenciar o carma de 7 bilhões de pessoas 🙂

Sabemos que há coisas que estão fora do nosso alcance e destas realmente devemos nos desapegar. Porém há várias e várias coisas que nós mesmos podemos fazer, com humildade e com os recursos que nos estiverem disponíveis. E para estas, não devemos perder tempo com a dúvida se devemos ou não. Se por algum motivo se está debilitado, sempre há algo que pode ser tentado, por menor que seja. VOCÊ MERECE SIM SER FELIZ HOJE!

Se o que lhe ajudaria a viver melhor for a cura de algum problema, querer ser curado ajuda muito, porque o que vemos é situações onde algumas pessoas se comprazem em estar doentes, seja por mero comodismo, seja pela atenção e solidariedade que recebe dos que lhes rodeiam.

Mas é preciso deixar o comodismo, o costume e a preguiça de lado, e ir buscar a condição pessoal que se deseja.

Texto de 29 de outubro de 2011.