Sim, temos o poder!

Sim, temos o poder!

O pior que um ser humano pode se permitir é se acostumar. Em O Mundo de Sophia – um livro que não se esquece – Jostein Gardner nos mostra que uma das primeiras e mais importantes qualidades de um filósofo é não se acostumar com as coisas. É como mantermos conosco aquele nosso olhar curioso de criança, sempre disposto a querer saber mais, para quem tudo é novidade. Olhar este que nós, os “adultos” deixamos para trás, ensimesmados contra o tédio nosso de cada dia.

No círculo no qual nós (os adultos) nos fechamos crendo sempre que as coisas poderão ficar piores, envoltos pelas paredes sem vida de nossos lares, com nossa atenção voltada para a televisão, incapazes de observar o lento deslize das nuvens num céu azul, de fechar os olhos diante do mar e nos perdemos naquele ruído reconfortante das ondas chegando à areia, ou mesmo de nos maravilharmos com a criança descobrindo, passo a passo as maravilhas da vida, enfim, deixamos de perceber o mais fascinante.

Já se disse que a arte informa por encanto, enquanto a ciência informa por desencanto. É desse desencanto que falo. Nos acostumamos de tal forma com o mundo tal qual ele se mostra, que nos tornamos incapazes de perceber as maravilhas que nos rodeiam.

Quero dizer da magia que há a nossa volta e que não vemos. Da grandeza do mundo, e da complexa e dinâmica sociedade que construímos. Da auto-regulação perfeita e equilibrada da natureza, da qual deriva o mesmo mecanismo perfeito chamado economia que faz a sociedade funcionar de forma constante e equilibrada, a despeito desse equilíbrio se fazer através de ondas com seus altos e baixos.

Temos a noção de que antigamente os feiticeiros faziam suas magias com poções e palavras mágicas. Essas mágicas permanecem ainda hoje, mas com as explicações científicas tudo passou para o status de normal. Veja comigo: Não é uma maravilha lançarmos nossa atenção ao ser do lado através de um elogio e recebermos de volta graças de igual teor embrulhados em um sorriso? Não é o elogio constituído de uma magia tal em suas palavras que proporciona a quem ouve tão agradável sensação de reconhecimento e estima? E o xingamento, não é maldição tamanha que tem poder para instigar o desentendimento e o infortúnio na vida de quem o escuta?

Já falei aqui do poder da palavra. Com poucas palavras podemos fazer a pessoa ao lado nos devolver um belo sorriso. E com outras podemos fazer a pessoa ao lado nos mandar para o inferno. Basta escolhermos! E ainda me falam em destino. Ora, basta você escolher qual palavra dirá a partir de agora. A que o levará para frente, para o bem, para o amor, amizade, compreensão. Ou a que o levará para trás, para o conflito, para o atraso, enfim. Basta escolher!

E se você diz para você mesmo, as seguintes palavras mágicas, diante do desafio: “EU POSSO”. Não haverá certamente mágica força, latente nesta afirmação, que o levará a superar-se no enfrentamento da situação? E a afirmação envolvida em firmeza, dirigida ao nosso semelhante: “VOCÊ É CAPAZ, VOCÊ CONSEGUE, TENTE!”. Não envolverá de tal forma a pessoa, transmitindo ânimo e força para a vitória?

E as poções mágicas de nossos dias? Não é uma dose de vinho mágica poção que nos proporciona agradável sensação de prazer e leveza? A começar pelo sensual formato da taça, passando pelo inebriante aroma da uva, pelo suave sabor, terminando por proporcionar em nosso corpo sensações de relaxamento, prazer e encantamento. Não estou falando aqui dos beberrões, lembre-se de que quem bebe por prazer, bebe pouco. Quem bebe demais está se envenenando e não está agindo muito diferente de quem se suicida.

Há outras “poções mágicas” em nossos dias e cada qual tem o seu “efeito”. O chocolate quente nos proporciona envolvente sensação de satisfação e aconchego, principalmente no inverno. Os sucos de frutas ao contrário, nos proporcionam no verão sensação de frescor, energia e disposição. E em se falando de disposição, o que é melhor para a disposição mental do que aquele cafezinho passado na hora?

Na medida em que precisamos de certos efeitos, e que para alcançá-los, utilizamos de certos princípios causadores, seja uma palavra ou algum item material, estamos praticando algum tipo de “alquimia”. Entretanto hoje em dia quem fala de magia é visto como esotérico e alienado da realidade. Mas a ciência nos proporciona as maiores magias, no entanto destituídas de qualquer sentido mágico. E se pudéssemos mostrar um automóvel moderno a um cidadão medieval, não poderia pensar ele que fosse a carroça dos deuses?