Incrível a observação do Flaco Marques no PdH, a respeito do consumo:

Como o conhecimento é intragável, buscamos respostas no consumo. Agarramos os produtos com os adjetivos que desejamos para nós: único, exclusivo, estiloso, arrojado, aventureiro, alto padrão, completo, seguro, com garantia.

Como não é possível comprar adjetivos diretamente – ou alguém já viu uma loja de elogios por aí? – os adquirimos através dos produtos que os representam. Roupas, carros, eletrônicos, bebidas, serviços, enfim, tudo o que consumimos diz MUITO sobre nós mesmos. Isso me lembra até um novo slogan que rolava no curso de design, lá pelos idos de 2001 em que se propunha uma atualização do antigo lema “a forma segue a função” de Louis Sullivan, para “a forma segue a mensagem“. De fato, nada é mais contemporâneo.

É uma busca de identidade. Dessa forma, não consumimos produtos com os quais nos identificamos. Muito antes, compramos o que nos identifica e comunica essa identificação para o mundo.

É também uma busca por aprovação. De forma geral, as pessoas não valem muita coisa e sentem isso ;-) o que lhes anula a autoestima. Então, invejando a situação do vizinho, muito provavelmente também baseada em aparências, que parece estar muito bem na fita, buscam produtos que demonstrem que eles – os invejosos ;-) – também valem alguma coisa e estão bem. Até porque comprar algum brinquedo descolado que me deixa descolado é mais fácil do que ler um livro, por exemplo. Né?

E mesmo quem tem lá os seus êxitos, fica a questão: Que graça tem alcançá-los sem que os outros fiquem sabendo? Não basta ser, é preciso parecer. De qualquer forma, se alguém é competente, tem todo o direito de demonstrar isso à sociedade, afinal, muito da continuidade de suas atividades – e portanto, de sua própria competência – depende de sua reputação. Enfim, fica uma situação coerente.

Agora o que não me desce é gente que tem uma necessidade compulsiva por aparecer. Vá a algum lugar da moda e encontrará muitos desses. Principalmente entre os jovens: Cabelos esquisitos, roupas esquisitas, comportamentos esquisitos e… tudo financiado pelos pais. Lindo, não? Santa inocência, porque não percebem que, quem sabe entendê-los está ouvindo seus gritos silenciosos: “Oi, olha eu aqui, me dá um pouco de atenção?!”

Quem sabe esta seja uma questão de COERÊNCIA apenas, não? Se você é muito, pareça muito. Sem problemas. Agora, se você não é nada ainda, uma dose de “semancol” e outra de discrição são sempre recomendadas, e não tem contra-indicação ;-)

É assim, não passamos de crianças carentes e, já que ninguém fica nos paparicando pelo que somos (porque quem sabe não percebemos que não somos – ainda – lá grande coisa), esperamos que nos dêem um pouco de atenção pelo que temos, ou chamando a atenção alheia com bizarrices. Já que não me conferem o prestígio que acho que mereço (porque quem sabe não percebi ainda que pouco fiz por merecer), vou tentar que me dirijam alguma reverência com aquele novo carro de luxo, com aquele casarão no estilo americano, ou praticando algum esporte burguês como o Tennis (™ Lula).

Mas se a questão são adjetivos que nos tornam melhores e exclusivos, há quem, para tal, se apoie nos antepassados. E berra: “Meus antepassados vieram da Itália”. Ele só não completa a frase: “…em completa miséria, passando fome e dividindo a sujeira do porão do navio com ratos”. Pois é! Outros se apoiam em parentes, distribuindo carteiradas com generosidade: “Sabe com quem está falando? Com o irmão do prefeito”. Grande coisa! Seu irmão é prefeito, e você é um bosta!

Enfim, após breve reflexão é possível concluir que há tantas formas de parecer melhor do que se é, quantas são as pessoas no mundo. E pensando bem, é uma pena que não existam lojas de elogios. As coisas seriam mais simples com elas.