Tenho uma familiar que morou vários anos na Espanha. Agora está morando no Brasil. Outro dia comentou que o que mais chamou a atenção dela em relação as diferenças entre lá e cá, foi a completa falta de respeito à vida no trânsito brasileiro.

Acredito que é assim mesmo. Certa vez fiquei chocado em saber que em certo bairro da minha cidade natal, Joinville, houvesse (ou talvez haja ainda) quem “toque” os carros para cima dos cachorros abandonados na rua, pra matar mesmo. Ao menos aqui onde moro, ao contrário, é fácil encontrar e perceber o zelo que as pessoas costumam expressar aos bichos abandonados. Já vi vários motoristas frearem os carros com toda a calma do mundo para os cachorros de rua atravessarem a rua. Não sei se os mesmos motoristas expressam tamanha boa vontade para com os pedestres (bípedes), contudo, ainda assim, aparentam sentirem (e manifestarem) um forte respeito pela vida.

Aí está o ponto: Respeito pela vida. Já vi a presença desse slogan em várias campanhas pela paz no trânsito. Um slogan mais digno e mais objetivo, impossível. Mas outro dia, ao ver essa mesma frase estampada no letreiro eletrônico de um semáforo, me ocorreu o seguinte:

Falta de educação é uma droga, mesmo. As pessoas, normalmente absortas em seus problemas, não entendem o que quer dizer respeito pela vida. Acho que não costumam associar “vida”, à “gente viva”, ou “bichos vivos”, enfim, seres que sentem, sofrem e por incrível que pareça, podem morrer. A questão no trânsito é muito simples, muito embora poucos a percebam: Você deve respeitar a vida dos outros, como se fosse a sua. Embora haja quem discorde ;-) a vida dos outros é tão importante quanto a sua, poxa… Cuida com essa m*rda de carro, porque por um lapso de atenção, ou por descaso de sua parte, você pode destruir uma vida, destruir uma família. Você deve cuidar do modo como dirige, de forma a “cuidar” da vida alheia, DA MESMA FORMA COMO VOCÊ ESPERA QUE OS OUTROS MOTORISTAS ZELEM PELA VIDA DE SUA MÃE, SUA ESPOSA, SEU FILHO, etc, quando eles transitam pelas ruas.

“Respeito pela vida” é uma frase bonita e nobre, porém sintética demais, o que não expõe a questão como deveria, num país em que metade da população é analfabeta funcional e portanto, incapaz de estabelecer relações mentais complexas (Por exemplo: vida = seres vivos = gente viva = pessoas = eu, meus familiares, a gente toda da rua.  Portanto respeito pela vida = respeito por eu, meus familiares, a gente toda da rua).

O que eu quero dizer é que as campanhas de trânsito poderiam ser mais detalhadas. Por exemplo, aquele rapaz apressadinho e nervosinho no trânsito deveria “respeitar a vida” entendendo que aquela senhora que ele quase atropelou por imprudência poderia ser a sua própria mãe. Deve respeitar a vida alheia, ou seja, a vida de quem poderia lhe ser estimada(o). Àquele senhor já de uma certa idade, por vezes rude e impaciente, deveria ser explicado que quando ele dá aquela incauta acelerada pra passar aind na luz amarela do semáforo, pode ser a acelerada imprudente que machucaria (ou mataria) aquele rapaz que poderia ser seu filho, sobrinho, etc.

Não é a vida pela vida (o que já é indiscutível) e sim a vida de outras pessoas como nós mesmos. Pessoas que tem família, que são estimadas por quem as conhece, que fariam falta, tanto quanto o sujeito boa gente que, dentro de um carro, se transfigura no cérebro de uma máquina mortal – o carro – plenamente dotado de ignorância, descuido e imprudência.

A causa-mor dos acidentes de trânsito

Em reportagem sobre o trânsito, do Fantástico (cujo vídeo aqui linkado foi removido), atribuem os acidentes de trânsito a cinco causas principais:

  1. Alcool
  2. Cansaço
  3. Desrespeito à Sinalização e Imprudência
  4. Excesso de velocidade
  5. Impunidade e falta de fiscalização

Mas se você refletir sobre cada uma delas, perceberá que há uma atitude subjacente comum a todas essas causas, de nossa parte que é a IMPRUDÊNCIA.

Se você ingere bebidas alcoolicas e vai dirigir, está sendo imprudente. Se você está “morto” de cansaço depois de um dia inteiro de trabalho, e ainda assim vai dirigir, está sendo imprudente e pode morrer de cansaço, literalmente. Se você ignora ou desrespeita a sinalização de trânsito, está sendo imprudente, afinal, deve haver uma boa e necessária razão para ela estar lá. Se você dirige com excesso de velocidade, agoniado pra chegar logo (quem sabe ao cemitério) ou corre por prazer, sem levar em conta a presença de outras pessoas e o risco que isso implica, está sendo imprudente.

A impunidade ou falta de fiscalização das autoridades de trânsito como causa para os acidentes de trânsito merecem uma atenção especial: Quer dizer então que você terá que matar alguém no trânsito, ser preso, julgado e punido com uma pena de vários anos de detenção PARA SÓ ENTÃO APRENDER que não se deve conduzir um veículo de forma arriscada? Ou então você deve ser autuado com uma multa bem dolorida para só então perceber que você deve respeitar a vida alheia? Se não houvessem multas (e o risco de ser multado) então poderíamos seguir com nossa direção inconsequente e irresponsável – e que se danem os outros? É isso? Pois bem… Já notou como somos mesquinhos ao respeitar as leis de trânsito mais por medo de sermos multados, do que por um autêntico e genuíno respeito à vida dos outros?

É onde as autoridades tem falhado ao tentar fazer com que respeitemos as leis de trânsito através de punições e proibições, em vez de mostrar desde cedo aos futuros motoristas (então crianças) que temos por obrigação morar dirigir correta e prudentemente em respeito ao outro. Sendo a IMPRUDÊNCIA a causas-mor para as fatalidades no trânsito, só há uma única solução efetiva, depois da  necessária fiscalização: a CONSCIENTIZAÇÃO! Ou seja, mostrar às pessoas que tragédias acontecem e que não devem esperar acontecer com elas para que comprovem por conta própria. E mostrar também que respeito pela vida significa respeitar pessoas como nós mesmos e como as que amamos.

Obs: Quem “vê” pensa que eu sou o motorista mais certinho do mundo. Não sou, e já fiz muitas das besteiras que estou criticando aqui, porém acho que nunca é tarde para corrigirmos o que está errado e tentar passar isso adiante, não concorda? ;-)