O pessoal do site ThinkOlga.com criou recentemente uma campanha contra o assédio às mulheres nos espaços públicos.

Parte da campanha consiste numa interessantíssima pesquisa revelando o que as mulheres sentem ao serem abordadas nas ruas. O resultado da pesquisa está aqui. Recomendo fortemente que você leia. Se for mulher, para fins de conhecimento e formação de uma opinião clara sobre o assunto, pois provavelmente você já passou por tudo aquilo, mas muitas vezes nunca refletiu o bastante sobre o tema. Uma pesquisa como essa pode servir de voz para o que você sente sobre o assunto.

Se for homem, é bom que leia para entender finalmente o que se passa com uma mulher ao ser abordada nas ruas. Entretanto já adianto que a ampla maioria delas não se sente bem com qualquer tipo de abordagem. Então para nós, homens, conhecer esses resultados permite que entendamos que aquilo que aprendemos como normal e divertido – mexer com mulheres na rua – significa muito provavelmente desrespeito e falta de educação da nossa parte.

Refletindo sobre o tema

Esse assunto dá o que pensar.

Quem não o entende completamente se sai com pérolas como a que diz que “estão querendo assassinar a paquera”, ou que “a mulherada está neurótica demais”, ou ainda que “ao envelhecerem, as mulheres vão sentir falta das cantadas”, entre outros absurdos.

Mas não é por aí.

Elogio x Assédio

Pra começo de conversa, é preciso que entendamos o que é elogio, e o que é assédio. Resumindo, é uma questão de ocasião e intimidade. Mas o gráfico abaixo explica bem essa diferença:

Elogio x Assédio - Desenharam pra você :)

Elogio x Assédio – Desenharam pra você 🙂

Elogios são algo positivo, tanto para mulheres quanto para homens. Mas o que os homens precisam entender, é que há um contexto adequado para se elogiar uma mulher. E a rua não é esse contexto. Aliás, na rua não há contexto algum.

E o fato último, nessa questão, é que dificilmente, MUITO DIFICILMENTE, um homem vai conquistar uma mulher que não conhece dizendo o quanto ela é linda ou gostosa, na rua. Muito menos ainda dizendo que chupava ela toda. A não ser que por acaso tenha se deparado com uma maníaca sexual, essas abordagens vão assustar, ao invés de agradar.

Homens deveriam aprender a chegar numa mulher ( não que eu saiba 🙂 ). Não sabem como fazer, então fazem a primeira coisa que vem a cabeça e só o que conseguem é parecer toscos e grosseiros. O problema não é o abordar em si, mas a maneira como se aborda. E a maneira adequada, segundo os entendidos do assunto 🙂 vai pelo caminho da conversa, de puxar assuntos interessantes, de dar atenção, conquistar a confiança etc, sempre de forma amistosa, nunca de modo impositivo.

O vestuário feminino

O senso comum prega, incluindo muitas mulheres conservadoras, que se uma mulher não quiser ser abordada na rua, e se não quiser arriscar ser estuprada, deve maneirar nas roupas, preferindo peças discretas.

Também acredito nisso, mas por uma questão de prudência. Estuprador é como bandido, é descontrolado, impulsivo, doentio, desumano, criminoso. Não se pode confiar, não se pode esperar que pense racionalmente e leve em conta argumentos racionais sobre respeito e limites.

Uma comentarista no site ThinkOlga.com respondeu a um rapaz que comentou de modo favorável à moderação do vestuário feminino:

Ela tem o direito de se vestir como quiser, ela se veste como se sentir melhor, não pra te provocar.

Sim, o problema é que o “vestir-se como se sente melhor” de algumas mulheres é MUITO provocador, por mais que elas não queiram. Sem contar os “sinais” que muitas mulheres emitem, sem querer, e sem a noção do quanto esses sinais confundem.

Convenhamos que há uma minoria de mulheres com tendências exibicionistas (quem sabe sejam os 17% das entrevistadas que consideraram “cantadas” algo positivo), cuja autoestima está toda fundamentada na própria aparência e na atenção que recebem por ela, e que por chamarem mais a atenção, acabam servindo de parâmetro para os homens generalizarem todas as outras mulheres.

O que penso, é que o corpo feminino é bastante apelativo e sensual. A sexualidade humana é latente, mas muito presente e atuante. Portanto, as mulheres devem levar isso em conta em relação ao mundo tosco em que vivem, onde parte considerável dessa raça desgraçada, os homens, são doentes por sexo e ainda bastante mal educados.

Por outro lado, homens nunca tiveram que se preocupar em tirar a camisa ou sair de short na rua, muito embora o vestuário masculino seja de modo geral bastante folgado e descaracterize os contornos corporais.

A polêmica é grande. E confesso uma dificuldade de chegar a uma conclusão. Segundo o que entendo, as mulheres querem ter o direito de usar o que quiserem, roupas justas, coladas, sensuais, sem jamais serem abordadas. É isso? Esse é o mundo ideal que querem para si? Embora essa minha colocação pareça irônica, ela não é. É realmente uma dúvida que tenho, se esse cenário almejado pelas mulheres de um respeito absoluto é possível, por mais ideal que seja.

Empatia

Quando um homem pensar em abordar uma mulher em ambientes públicos, ele deve antes pensar se gostaria que aquilo fosse feito com a esposa, ou irmã, ou filha, ou com a mãe dele.

Se todo homem fizesse essa pequena reflexão antes de tomar qualquer iniciativa na direção de uma mulher, os casos de assédio praticamente deixariam de existir.

Só não deixariam de existir completamente, porque, repito, um certo grupo minoritário de homens é de fato doente e perturbado e não respeita nem as mulheres de seu próprio círculo de convívio. Não os refiro como doentes para isentá-los da responsabilidade, e sim, para lembrar que são indivíduos que exigem certa precaução na lida, e exigem essa prudência diária, já que as mulheres nunca sabem quando vão se deparar com um sujeito desses.

Veja mais sobre empatia.

Guerra dos sexos

No segmento de comentários de sites feministas, alguns homens desavisados vivem fazendo seus comentários infelizes e arrogantes. Eles já começam mal porque não estão ali pra aprender, e sim para impor seus pontos de vista, sempre machistas e egoístas.

E as mulheres que os respondem, sejam autoras ou leitoras, os escorraçam com comentários também repletos de grosseria e cinismo. Algumas reconhecem e citam as falácias utilizadas pelos homens recorrendo a outra falácia: ad-hominem. Isto é, esquecem de combater os argumentos do infeliz, para O combater como indivíduo machista.

Aí a discussão se torna uma guerra. Isso me incomoda bastante.

Incomoda pontualmente, porque, independente da questão de gêneros envolvida, não acho que será com arrogância ou grosseria que vamos conseguir as coisas de modo mais efetivo, muito pelo contrário.

Incomoda também porque essa observação me relembra uma constatação que tenho recorrentemente de que a didática feminista sempre me pareceu ineficaz. É uma abordagem vingativa, como se as mulheres tivessem o direito de responder aos homens com grosserias por tudo que os homens já fizeram de mal com as mulheres.

Não acho que seja por aí o modo mais efetivo de tornar a convivência entre homens e mulheres mais justa e respeitosa.

Brad Pitt

Achei muito engraçado vários homens comentando que se as cantadas viessem de um homem bonito como o Brad Pitt, as mesmas mulheres que agora reclamam, receberiam a cantada como galanteio.

As mulheres rejeitam esse raciocínio como uma heresia. Mas… será que não faz algum sentido?

Para facilitar, tiremos a questão “assédio” da discussão e foquemos na questão “elogio”. Ora, sabemos que dependendo de quem parte um elogio, seu valor pode multiplicar-se. A importância de um elogio se multiplica na proporção da importância que damos a quem nos concede a palavra elogiosa. Ou pelo contrário, ela se anula completamente, ou se inverte, se o elogio vier de quem não gostamos.

Uma moça postou um texto sobre o tema no Facebook com o seguinte comentário:

Eu ouvi vários “linda” na vida, e dispensaria a maioria deles.

Hum, mas não todos, não é? 😉

Enfim, é coisa pra se pensar.

Conclusão

Os homens precisam se dar conta que o maior medo de uma mulher é ser violentada. E isso começa com a compreensão do limite entre o elogio e agressão verbal, e que o que os separa é uma linha muito tênue. Muitas pessoas não sabem ainda dividir o espaço público e por isso, campanhas como esta são necessárias para provocar reflexões e discutir condutas e comportamentos, em um mundo onde respeito mútuo já deveria ser óbvio.