Não briguem, crianças

Não briguem, crianças

Quem me conhece sabe que ODEIO brincadeirinhas bestas de homens complexados tentando parecer superiores as mulheres, e também o contrário, mulheres complexadas não conseguindo esconder suas sensações de superioridade em relação aos seus parceiros. Acho que gente elegante dispensa esses tipo de brincadeira e sabe fazer graça de forma mais inteligente, que não seja diminuindo os outros.

Me desagradam essas brincadeirinhas porque na realidade não são brincadeiras. São valores pessoais, disfarçados de brincadeiras para serem atiradas em quem se quer atingir. Não gosto delas essencialmente porque, enxergando valores pessoais onde deveria encontrar brincadeiras, vejo esses valores pessoais se confrontando com um forte valor pessoal meu, muito, muito particular, na qual vejo cada ser humano com dificuldades próprias, independente das capacidades que cada um já tem. Quanto maior o barco, mais longe poderá ir, e maiores serão as dificuldades da viagem. Lembrando que isso vale invariavelmente para mulheres também.

A respeito desse tema, encontrei dias atrás, por acaso o seguinte trecho da Regina Navarro em seu twitter:

Quanto à relação do homem com a mulher, há sinais de grandes mudanças. O sistema patriarcal – que se apoiou durante 5 mil anos em cima do controle da fecundidade da mulher – começou a desmoronar com a pílula anticoncepcional, na década de 60. Estamos no meio desse processo.

Quando as mulheres começaram a lutar pela emancipação, pela igualdade de direitos, os homens cruzaram os braços acreditando que somente elas tinham do que se libertar. Algumas décadas depois, caiu a ficha e muitos se deram conta de que os homens também são oprimidos, porque corresponder ao ideal masculino da cultura patriarcal – força, sucesso, poder – não é nada fácil.

As fronteiras entre o masculino e o feminino estão se dissolvendo. Não há mais nada que interesse a uma mulher e não interesse ao homem, e vice-versa. Isso é pré-requisito para uma sociedade de parceria entre homens e mulheres. Acredito que estejamos caminhando nesse sentido, principalmente, porque muitos homens já estão se libertando do mito da masculinidade.

Fonte: twitlonger.com/show/a2cdl9 – Outro trecho semelhante: twitlonger.com/show/ae82je

O parágrafo grifado me chamou muita atenção. Sempre fiquei quieto a respeito disso por vários motivos. Um deles é que para feministas, homens brancos da classe média são pessoas que não podem reclamar. Porque segundo as próprias, a sociedade foi construída por eles, e para eles. Já ser mulher é muito mais difícil por, além de n motivos, viverem numa sociedade que não foi feita para elas. Agora… encontrar uma grande estudiosa do assunto resumindo em poucas palavras algo que eu sentia há tempos foi uma aliviante surpresa.

Não vou negar que após a leitura de vários textos de feministas minha visão sobre o tema se esclareceu bastante, até porque antes disso eu era daqueles que, além de não dar a mínima para o tema, achava que machismo é o oposto de feminismo. Não é! Feminismo é um movimento social que enfrenta o desajuste social resultante do comportamento generalizado na sociedade que é denominado machismo.

Mas… e sempre tem um MAS, em todas as minhas leituras, discordava de alguns pontos sem conseguir explicar ao certo de que forma. Porém o trecho grifado acima, na citação de Regina Navarro, conseguiu sintetizar bem o que eu sentia. Ou seja, que apesar de a vida de um homem ser “mais fácil” do que a de uma mulher de mesmo nível social e econômico, ainda assim, o homem enfrenta certas cobranças e pressões muitas vezes difíceis de serem enfrentadas, quando o próprio não tem a predisposição inata para atender às expectativas que a sociedade criou sobre ele.

Fragilidades

Uma delas é não poder demonstrar fragilidades. É preciso muita coragem pra demonstrarmos nossas fragilidades… mais fácil é manter uma fachada de intransponibilidade! A esposa aqui até hoje estranha ao me ver comovido – evidentemente com lágrimas nos olhos – quando vejo alguma cena que me toca, seja na televisão, seja na “vida real”. Ou seja, às vezes eu preciso ficar disfarçando, segurando. Tenho que interpretar o machão que não chora.

Veja que não estou criticando minha própria esposa. Muito antes, critico a sociedade QUE AINDA NOS ENSINA que homens não choram. Que homens devem ser o lastro de estabilidade emocional da casa. Critico a sociedade que ainda me faz morrer de vergonha das lembranças de momentos em que não me contive e caí na choradeira na frente dos outros. E foram vários momentos assim até hoje ;-)

TEM QUE chegar longe

Tenho um conhecido que sucumbiu à pressão. Com uma irmã Juíza, e outra Engenheira, o coitado, sem uma vocação clara, e sem motivação real pra seguir algum caminho, sob as cobranças e comparações da família, acabou no psiquiatra. A família preferiu ficar com uma pessoa debilitada dentro de casa, do que dar a ele espaço e tempo para se encontrar na vida. <sarcasmo>Porque né, homens TEM QUE ser fortes, decididos, persistentes, firmes, e chegar longe na vida, de preferência, mais longe que as irmãs. Caso contrário, é um banana!</sarcasmo>

Ou seja, numa comparação entre níveis de dificuldades (que na verdade nem deveriam ser comparados, enfim), se uma mulher está no nível 1 e tem dificuldades para chegar no nível 5, que já é uma condição lastimável per se, o homem que hipoteticamente, sob vantagem, começa do nível 5, tem a obrigação moral de chegar no 10. E se ele não chega, é um banana, um fraco, um vagabundo, etc. E se for de caráter fraco e partir para o crime para conseguir o dinheiro que a sociedade espera que ele consiga, pode acabar atrás das grades, isso quando o pior não acontecer e acabar baleado no meio do caminho.

***

Sei que mulheres estão sujeitas um nível básico de problema que ataca sua dignidade e sobrevivência, como más condições de saúde, estupros, mortes. Problemas graves e que devem ser resolvidos, os quais não podem ser comparados com os problemas “masculinos”  lembrados acima.

A intenção aqui é chamar a atenção para o fato de que o machismo, de alguma forma, também prejudica a vida de muitos homens, o que, mesmo sendo um problema menor, deve também ser observado e, se possível, solucionado com uma renovação quanto à visão de homens e mulheres sobre seus papéis na sociedade.