Eu não gosto de trabalhar, se o sentido da palavra for o de trocar horas de vida por dinheiro, ou energia vital (leia-se saúde) por dinheiro. Quando ouvi pela primeira vez a frase: “Se trabalho fosse bom, não seria remunerado” eu meio que vivi um momento de iluminação. E também concordo com o Dalai Lama quando diz nesta frase a ele atribuída:

Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde.
E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido.

Mas acho que talvez esteja ocorrendo um equívoco quanto ao sentido da palavra trabalho. Criar e tocar projetos pessoais também exige um esforço enorme, mas não sentimos como trabalho. A diferença entre um trabalho comum e a condução de um projeto pessoal quase sempre se revela unicamente no significado que aquela atividade tem (ou não) para quem a executa.

Auto-conhecimento – A busca luta interior por uma vocação

Talvez a questão primária sejam as pessoas que trabalham uma vida toda como escravas, ou como robôs tayloristas, por terem se deixado levar pelas circunstâncias de outrora, ou por uma mera falta de uma reflexão mais profunda sobre o que se quer, seja por um certo desinteresse ou mesmo falta de coragem de refletir e pular para uma outra atividade que tenha mais a ver com a sua vocação e que lhe signifique algo. Eu estou nessa fase de “reflexão” já há 8 anos, desde que li Dumazedier e De Masi pela primeira vez, para um trabalho de faculdade voltado ao lazer (dali pra frete a faculdade não me prestou mais). Desde então, esse tema passou a fazer parte tão inerente da minha busca que de um ponto de vista mais convencional isso meio que me “travou” profissionalmente – ou talvez impediu que eu tivesse entrado para a corrida dos ratos. De uma hora pra outra, senti que eu estava me preparando para seguir o mesmo caminho medíocre dos outros.

Devido às idéias, principalmente de Domenico de Masi – que defende o ócio criativo, conceito no qual as atividades de trabalho, estudo e jogos devem se confundir nas atividades diárias do sujeito – deu que, um tanto involuntariamente, tenho seguido exatamente por esse caminho. Trabalho em casa praticamente desde sempre. Trabalhei em locais distantes por menos de três anos. Fora isso, minha rotina é absolutamente caseira. E o grande diferencial que permite esse tipo de rotina é justamente a internet. A cada dia que passa, atualmente, tenho me visto mais e mais como um privilegiado por poder vivenciar e fazer parte desse novo tipo de rotina e trabalho, que não é só um trabalho propriamente dito, já que pela internet eu trabalho, estudo e de certa forma, me entretenho. A internet não só me permite trabalhar e estudar, como me permite justamente tocar projetos pessoais. Através deste blog, encontrei na escrita, mesmo que amadora, a única atividade a qual exerço sem a mínima sensação de peso, ou fardo. É algo intrinsecamente natural, para mim. Mas vim descobrir isso recentemente, depois de, repito, 8 anos. Nem todos podem, ou tem saco para encarar um período límbico assim. Mas é aquele tipo de atitude que, ou você toma e tenta encontrar uma paixão para a sua vida, ou vai continuar naquela vidinha medíocre de sempre, seguindo o bando.

Um sistema global de séculos não pode estar errado

As vezes acho que a bronca que algumas pessoas tem com o trabalho se deve mais a uma postura pessoal que se confrontou com idéias opressoras e contrárias. Lá está a sociedade com nossos parentes acabados de tanto trabalhar (esperando que fiquemos iguais a eles), amigos idiotas, propagandas que me consideram um idiota, o consumismo e sua corrida dos ratos, o status nos convidando a sermos quem não somos (idiotas), o meu desejo pelas coisas que não tenho, motivado pela inveja que sinto dos que trocam seu tempo de vida por algum dinheiro para poder comprar alguns brinquedinhos legais, pra fazer inveja ficar mostrando pros outros, etc, etc, etc. E eu pergunto, quem consegue tocar a vida imune a essas influências?

Pra gente sensível com forte veio artístico e idealista, o mundo é ao mesmo tempo inspiração e detração. Inspiração porque naturalmente coisas boas não inspiram nada demais. Detração porque qualquer pessoa assim se sente diminuída e oprimida num mundo prático-realista-show-me-the-money.

Por outro lado, bem, você sabe, esse mundo tem gente de todo tipo, e não temo afirmar que muita gente trabalha 15 horas por dia mas o faz com absoluto prazer e senso de propósito. Como eu já disse em texto anterior, tal atividade é “natural” para a pessoa. Ficar de bobeira na praia não passará para ela de uma grande perda de tempo. Ela não se esforça para trabalhar tantas horas, muito além do que lhe é natural. Sua energia e disposição são incríveis. Simplesmente faz sentido para elas, oras. Tem louco pra tudo nesse mundo. Se o trabalho produtivo fosse assim tão insuportável e sem sentido para todas as pessoas como é pra mim, o mundo já teria se auto-destruído há décadas atrás, e Taylor teria sido assassinado por algum funcionário renegado. Outras pessoas trabalham essas “15 horas” de bom grado porque nunca atentaram para encontrar uma ocupação melhor. Tem gente que se parar de trabalhar morre de tédio, creio eu justamente porque tem uma incapacidade inata de olhar para dentro e encontrar outros modos de olhar a vida. É preciso pré-disposição e coragem. Como eu falei, estou nessa a 8 anos e até hoje há momentos e circunstâncias que me deixam totalmente perdido. E há outros momentos que me fazem crer que estou cada vez mais próximo de encontrar o meu Santo Graal.

Também acho que não daria para o mundo inteiro começar a desenvolver projetos pessoais. O mundo precisa de operários, de mão de obra, de chefes workaholics, etc (de certa forma, justamente para ajudar a tocar projetos pessoais de quem já se dispôs a pensar em algum). Então creio que aqueles que ainda não encontraram suas vocações vão ficar por aí como mão de obra dos que já fizeram essa busca interior, ou já nasceram sabendo o que querem da vida (gente que eu muito invejo ;-) ).

Enfim, o assunto iria longe. Mas é isso. A decisão sempre vai caber a você. Acredito que vivemos a melhor das épocas, em que temos a efetiva liberdade e possibilidade de viver através dos mais diversos talentos. O único trabalho que nos é exigido é refletir, pensar, e escolher um caminho decente, usando nosso tempo de vida com algo que signifique algo, para nós.