Atualização em 19/09/2013: Uma notícia interessante: Vi pelo Facebook o site www.transempregos.com.br, o qual cataloga empresas que oferecem empregos para transexuais. Eis uma ideia de uma nobreza sem igual. Fico na torcida que prospere, para que menos pessoas precisem recorrer ao suicídio por falta de oportunidades, como a que foi comentada no texto abaixo.

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Alguns fatos me sensibilizam muito.

É o caso do suicídio recente da transsexual Gabriela Monelli (saiba mais aqui e aqui).

Fuzilamento moral

Fuzilamento moral

Ela se suicidou pela falta de perspectiva. Tendo que apelar para a prostituição para sobreviver, já que a sociedade não prevê espaço para pessoas como ela, acabou se expondo demais (e a falta de apoio e orientação só pioram as coisas). Não suportou a pressão de familiares e vizinhos. Se matou. Que drama triste ela deve ter vivido.

Embora a responsabilidade de ter tirado a própria vida foi dela, a gente sabe que esse foi um assassinato coletivo. Todo mundo que de alguma forma a rejeitou em vida, a matou um pouquinho.

TODO. MUNDO.

Dedo apontado - uma arma invisível

Dedo apontado – uma arma invisível

Eu não me isento dessa culpa. Embora eu nunca tenha sido indiscreto ou de apontar gente na rua, pois sempre prezei pelo respeito, se a visse na rua (ou a qualquer outra pessoa com alguma “diferença”), ou a ouvisse com sua voz certamente mais grave, por um descuido poderia tê-la olhado com estranheza. É o que basta pra estragar o dia de alguém que já vive um drama diário e penoso.

O nosso despreparo para lidar com o diferente é total e vergonhoso. Ainda julgamos antes de conhecer. E julgamos depois de conhecer, quando o certo é não julgar nunca.

Preconceito mata

Vivemos vendo estatísticas sobre o quanto o fumo, a bebida, o trânsito matam. Mas ninguém fez nenhuma pesquisa até hoje para demonstrar o quanto o preconceito mata. Mata muito mais. Mata por dentro. Transforma o indivíduo alvo do preconceito num zumbi. Um corpo que anda sem vida. Quando esse corpo se enforca ou dá um tiro na cabeça, só terminou de fazer o que a sociedade começou e deu continuidade há muito tempo.

Não tem graça

A ironia nos tiraniza. David Foster Wallace

Hoje em dia fala-se muito sobre o politicamente correto. É certo que há uma patrulha das pessoas de tendências politicamente corretas (dentro das quais eu me incluo mais e mais a cada dia).

Pois por um lado, os humoristas politicamente incorretos, e que defendem essa postura, só revelam de si mesmos o quanto são apáticos, cínicos e mal-educados, além, é claro, de incompetentes, já que não sabem fazer humor sem ofender certos grupos.

Por outro lado, nós, que nos auto-enquadramos dentro do pensamento politicamente correto, precisamos aprender a ponderar, e a relevar certas idiotices, e a não nos levarmos tão a sério, e também a não levarmos aquilo que defendemos, no caso, grupos minoritários, tão a sério. Seria prudente ao menos aprendermos a rir de nós mesmos. É saudável para a mente, e evita muito estresse por questões que nunca terão solução. O mundo sempre terá idiotas. SEMPRE.

Infelizmente.

Mesmo assim, não é de hoje que percebo o quanto a ironia tiraniza o sujeito que a profere. Quantas e quantas vezes estou eu lá fazendo algum comentário sobre algo que acredito ou achei interessante, e vejo o interlocutor se sair com uma piadinha. Foi engraçado. Descontraiu. Eu ri. Mas gastei energia a toa. E eles, os interlocutores, em boa parte das ocasiões, foram mal educados. Quando ironizamos uma fala, a tornamos menos importante. Por isso se chama “irreverência”, isto é, ausência de reverência, cujo significado principal é… RESPEITO.

Gosto muito de gente divertida. Eu mesmo gostaria de ter mais predisposição para a graça. Mas esse respeito profundo que sinto pelas pessoas não me deixa (além, é claro, de uma inabilidade natural, penso muito devagar rs). Eu me recuso a ironizar aquilo que percebo como importante para quem está falando comigo. E praticamente tudo que as pessoas falam é importante para elas. Enfim, uma piadinha ou outra durante uma conversa é legal, mas gente que faz piadinha com tudo o tempo todo me cansa. Sério.

Mas a coisa ainda piora. Desde criança todos nós ouvimos aquelas piadinhas sobre gays, negros, japoneses, gagos, etc. Em muitas ocasiões, eu ri dessas piadas. Em outras, apenas demonstrava simpatia pelo piadista, pra não perder o amigo. Mas em TODAS as vezes, eu sentia dó do alvo da piada. Até hoje rio dessas piadas para não ser o chato, e tal. Mas também até hoje eu me sensibilizo com o sujeito que serviu de alvo pra piada.

Que situação miserável a vida reservou para certos indivíduos e grupos ao serem alvo da ironia de gente tola que se sente (ou tem certeza de que é) superior.

Acho até que tá na hora de parar de rir dessas coisas. Melhor começar a mudar de assunto.

Porque sempre que um gay ou travesti se vê obrigado a adentrar ao mundo da prostituição, ou se suicida; sempre que um negro é assassinado numa favela, sempre que uma mulher é assassinada por um marido ciumento que se pensa dono dela; é porque antes essas pessoas foram alvo das nossas risadas. Ao rirmos deles, nós os diminuímos, nós os separamos de nós, nós os isolamos, nós os matamos.