Este texto pode ser considerado uma continuação deste texto sobre casamento.

Pois é!

Pois é!

O ritual do casamento, tal qual conhecemos, tem origem histórica motivada pela estrutura da sociedade quando à época de seu surgimento. Os homens tinham muito menos informação do que hoje e talvez tendessem naturalmente a serem muito menos responsáveis e muito mais displicentes.

Era preciso um rito marcante para tornar claro aos noivos as suas responsabilidades diante um do outro e diante dos filhos. Numa época em que a sobrevivência era muito mais difícil do que hoje, era preciso pensar duas vezes antes de fazer qualquer bobagem. O casamento era algo sério porque nele estava implícita a sobrevivência. E pra reforçar o medo, inventaram que “Deus estava vendo” e que anotava todas as promessas feitas sobre o altar.

Com o tempo, o casamento que sempre foi um desafio, foi maquiado com as fábulas do romantismo. A incompletude natural do ser humano – fonte de nossa democrática insegurança emocional – encontrou convincente fundamentação para figuras de linguagem comuns tais como a alma-gêmea, a metade da laranja, a tampa da panela, o calçado velho pro pé descalço, etc.

Junta-se à nossa ansiosa insegurança, as idéias profusas de encantamento, de companheirismo fiel; e a isso tudo junta-se ainda a química invencível da paixão, e pronto! Estão plantadas as sementes da decepção.

Decepção para quem espera demais da união entre duas pessoas. Porque quem tem uma noção mais apurada das coisas da vida, não demora em perceber que o casamento é um desafio!

Nada mais, nada menos.

Em troca de uma improvável estabilidade – porque num mundo onde tudo é transitório, também a estabilidade é uma ilusão – e enlevados pela promessa de um amor eterno, vamos aceitando os desafios de um relacionamento permeado por um encantamento que se esvai com o tempo. Por isso se diz que por amor devemos suportar as agruras da convivênciaembora eu discorde bastante. No fundo somos meio vendidos. Iludidos, pensamos pagar um preço barato por um grande valor. Mas o grande valor – a segurança – é uma miragem e o preço que pagamos é que se torna o grande valor adquirido: o crescimento pessoal obtido sob o enfrentamento do desafio de manter um relacionamento.

O casamento é um desafio espiritual. Essa coisa de amor é só um subterfúgio, ou um álibi, ou um suborno da natureza para permanecermos casados e enfrentarmos o desafio. Somos a criança que aceita uma tarefa sem graça em troca de alguns doces no fim do dia.

Texto de 4 de outubro de 2010