A humanidade está dividida entre os que se julgam infelizes porque não se casaram, e outros que maldizem a sorte porque se casaram. Padre Antonio Vieira, autor de “O verbo amar e suas complicações”

Ou em linguagem popular:

“Casamento: Quem tá fora quer entrar, quem tá dentro quer sair” ;-)

Se você é uma pessoa de mente aberta, bem informada, de opiniões contemporâneas, positiva, bola pra frente, o que digo a seguir não lhe será novo. Escrevo aqui especialmente à quem convive, como eu, em meio a umas certas mentes provincianas; gente que não quer enxergar a realidade como ela é e PREFERE adotar certos idealismos como regra moral, dentre os quais, o mais pertinente a este texto: A idéia de que o correto é que todo e qualquer casamento deve iniciar formalmente através de rituais públicos e seguir até o fim da vida dos cônjuges, independentemente da qualidade que o relacionamento vier a apresentar ao longo dos anos. Acredito sobretudo na independência das pessoas; na sua autonomia, em sua liberdade fundamental. Este outro texto pode ser considerado uma introdução a este que segue.

Até que a morte os separe???

Esse conceito já destruiu muitas vidas. Num mundo onde tudo é sabidamente transitório, como pôde alguém “inventar” que uma união deveria ser permanente? E porque as pessoas acreditaram nessa impossibilidade? E porque se sujeitam a prometer na frente de todo mundo e de Deus tal improbabilidade? A indiscrição é a essência de uma cerimônia de casamento, afinal tudo está sendo exposto ao público (coisas às quais, na minha opinião muito particular, absolutamente NINGUÉM deveria sequer saber) e a exposição é tamanha, que depois, quando as coisas já não vão bem, o casal permanece junto meramente com medo do que os outros vão dizer caso se separem! É ou não é? Afinal, onde está aquele ânimo e encanto todo daquela “festona”? Essas crianças que não sabem onde se metem… :-)

Para mim o casamento sempre, sempre mesmo, se mostrou sob o conceito de auto-aprisionamento. No sentido de que chega uma idade em que as pessoas não sabem o que fazer consigo mesmas e… se casam! Em meio ao mar de incertezas que é a vida, ancoram suas expectativas na ilha de estabilidade que se espera que seja o casamento, como se algum aspecto qualquer de nossa natureza humana pudesse ser mesmo estável. Se casam para fugir de muitas das cobranças e desafios que a sociedade nos impõe e no fim percebem que as cobranças e desafios apenas mudam de cara.

Não vejo absolutamente nada de mal em que, você conhecendo um parceiro legal, decida viver junto com ele. Muito ao contrário, acho super gostoso conviver com quem você dá certo, além de que isso é absolutamente natural. E foi exatamente o que eu fiz, e até que eu e esta moça temos ido bem ;-)

Mas algumas coisas me incomodam profundamente na idéia comum de casamento. Primeiro, a idéia tradicional e ainda popular de que o casamento é algo tão especial que merece uma cerimônia pública para mostrar à sociedade a nova união (ou status dos noivos) e consagrar a união (credo!!!) diante de Deus. Como sempre digo, Deus “tem muito mais o que fazer” do que, por exemplo, ficar consagrando uniões de quem nem sabe direito o que tá fazendo e anotando promessas de quem não tem a mínima idéia de como será o futuro.

Outro aspecto normalmente associado à idéia comum de casamento que me incomoda bastante (ai sujeito incomodado ;-) ) é a obrigação subentendida de que o casamento deve, para ser válido, durar até o fim da vida. Há um certo tradicionalismo medieval nisso. É até compreensível que em outras épocas o mais recomendado fosse uma convivência permanente, afinal os tempos eram difíceis e a sociedade oferecia outra estrutura em que a mulher era considerada objeto de posse do homem e não tinha como se sustentar decentemente mesmo que ansiasse pela liberdade (e muitas mulheres morreram ansiando por ela).

Mas pensar HOJE como se pensava de 50 anos para trás, não dá!

Em todo e qualquer livro, revista, entrevistas, etc, sugerindo dicas de convivência para cônjuges, o direcionamento sempre segue no sentido de se SALVAR O CASAMENTO, e nunca no sentido de que ninguém nasceu grudado no outro e pode sim seguir uma vida aberta a novas possibilidades; no sentido do desprendimento sem culpa e sem esse remorso bobo por não conseguirmos sustentar o insustentável. A convivência pode estar desgastada, um não suportando mais os defeitos do outro (nessas horas só conseguimos enxergar os defeitos, nunca as qualidades pelas quais nos atraímos inicialmente) e enfim, a união está explicitamente FALIDA e vem terapeutas e psicólogos de casais tentando ajudar a SALVAR o que não tem mais salvação, como se a separação fosse um sacrilégio, uma perdição que deve ser evitada a todo custo. É preciso enxergar que o que define um afastamento é a dor. Quando a dor de ficar perto ultrapassar a dor de ficar longe, o afastamento ocorre. Por outro lado, por mais raro que seja, enquanto subsistir algum prazer na convivência, a união permanecerá indefinidamente, e que seja até o fim da vida, mas então sim, naturalmente. Que mal pernicioso atribuíram ao simples ato de seguirmos nossa natureza quando ela não segue na direção das expectativas alheias, não?

De onde surgiu a idéia de que o divórcio/separação são atos intrinsecamente negativos? Como pode ser a libertação de gente com quem não se tem mais a ver, algo que deve ser evitado? Vejo pessoas separadas e divorciadas hoje, muito próximas a mim, profundamente CULPADAS por não terem conseguido levar adiante uma união fracassada. E, não é por nada, mas quanto mais religiosa, mais culpada.

Afinal, líderes religiosos, em suas visões antigas e inflexíveis, não enxergam que AS PESSOAS MUDAM e continuam incitando-as à culpa por suas inclinações naturais. Mas elas progridem, se adaptam, evoluem, ganham experiência, ganham auto-conhecimento e é perfeitamente natural que antigas afinidades com pessoas próximas podem desaparecer, bem como novas afinidades com outras pessoas podem surgir. E eu sei que mesmo para quem tem mente aberta e maior dicernimento, não é fácil aceitar mudanças. Mas entender que elas existem e são não só necessárias como inevitáveis, pode ser um bom começo para tentar sofrer menos.

Entendo que há muito sofrimento, desgaste e muito prejuízo, material inclusive, durante uma separação, e não estou dizendo que seja fácil, nem estimulando-a. O que eu quero dizer com tudo isso é que NINGUÉM TEM A OBRIGAÇÃO INTRÍNSECA DE VIVER COM OUTRA PESSOA ATÉ A MORTE. Uma idéia tosca dessa não pode ser considerada um ideal. Poxa, quando é que vamos conseguir renovar esse “modelo” padrão de união estável para que as pessoas entendam mais e sofram menos?

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